Depoimento

Na sessão aberta, Toninho diz ter operado para PT

Marcio Oyama

Em um depoimento confuso e cheio de contradições, o doleiro Antônio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, admitiu nesta terça-feira, em sessão conjunta das três CPIs em andamento, que operou 2,05 milhões de dólares - ou 7 milhões de reais - para o PT e partidos aliados durante as eleições de 2002. As operações teriam ocorrido entre setembro e outubro daquele ano. Segundo Barcelona, todo o dinheiro foi entregue por ele à corretora Bônus-Banval, que entregava os valores ao PT e aos aliados. A Bônus-Banval é acusada de ser usada pelo PT para intermediar operações fraudulentas com os fundos de pensão das empresas estatais.

"Todo o dinheiro que era encaminhado à Bônus-Banval se destinava a partidários do PT. Não única e exclusivamente a Delúbio Soares (ex-tesoureiro do partido). Ele não pegou aquele dinheiro todo e pôs nos bolsos", afirmou. Ainda de acordo com Barcelona, o então presidente do PT, José Dirceu, tinha conhecimento das operações - e seria amigo dos sócios da Bônus. O doleiro citou ainda o líder do PP, deputado José Janene (PR), como um dos beneficiários da captação de dólares. De acordo com Barcelona, outro doleiro do esquema era Dário Messer, que atuava junto à Bônus.

Pouco depois das 19 horas, o depoimento do doleiro foi interrompido para ser retomado em seguida em sessão fechada, sem a presença da imprensa. A proposta de continuar o depoimento em sessão fechada foi do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), pois o doleiro dizia ter informações sobre as quais não poderia falar publicamente, sob risco de ser processado, pois não tem como prová-las.

No início do depoimento, o doleiro chegou a negar ter prestado qualquer tipo de serviço direto aos dirigentes do Partido dos Trabalhadores, políticos, ou agremiações partidárias. Disse ainda que jamais havia atuado com dinheiro público. Esta não foi a única contradição de seu depoimento. Depois de afirmar não ter contas no exterior, Barcelona admitiu possuir contas na Suíça, Estados Unidos, Ilhas Virgens Britânicas e Uruguai. Outra contradição do doleiro foi a declaração de que nunca teve clientes entre autoridades públicas ou políticas. Novamente pressionado, confessou que a sua agência, a Barcelona Tour, prestava serviços a juízes e policiais federais.

Devanir -

Durante a sessão, Barcelona também confirmou que repassou, entre julho e setembro de 2002, dólares ao gabinete do então vereador Devanir Ribeiro (PT-SP), hoje deputado federal, presente ao depoimento. A declaração já havia sido dada em entrevista a VEJA, publicada no dia 24 de agosto. Segundo o doleiro, os recursos eram repassados a Marcos, filho de Ribeiro, por meio de outro doleiro, Marcelo Bianchi. O deputado pediu a palavra: "Estou processando a revista e vou processar o senhor se mantiver as declarações que estão publicadas nela".

O doleiro não se intimidou e mostrou uma relação de repasses: 30.000 dólares em 10 de julho de 2002; 25.000 em 17 de julho; 10.000 em 10 de agosto; 20.000 em 5 de agosto; 1.500 em 9 de agosto; e 35.000 em 30 de setembro de 2002. O deputado reconheceu apenas compras de dólares em valores de 300 a 1.000 dólares, "fato comum na Câmara de Vereadores de São Paulo".

Thomaz -

Ainda na entrevista a VEJA, o doleiro tinha reafirmado as acusações que já havia feito à CPI dos Correios contra o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Disse que as remessas do ministro começaram em 1993 e lhe foram confidenciadas por quem as fazia - Marco Antônio Cursini, que na época, segundo o doleiro, operava contas no Deutsche Bank e no Swiss Bank. Nesta terça, Toninho baixou o tom. Negou ter acusado o ministro de remessa ilegal e afirmou que, em suas contas bancárias, "nunca transitou dinheiro público, dinheiro do narcotráfico ou do tráfico de armas".

Barcelona está preso desde agosto de 2004 por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, em Avaré (SP). Ele é apontado pela Polícia Federal como um dos maiores doleiros do país. A CPI do Banestado, que investigou crimes de evasão de divisas, estimou que o doleiro movimentou 500 milhões de dólares entre 1996 e 2002.

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