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Palocci pede 'afastamento' e Mattoso confirma a manobra
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, 45, anunciou nesta segunda-feira seu pedido de afastamento. Principal ministro do governo Lula desde a posse do presidente, em 2003, Palocci sofria intensa pressão em função das denúncias sobre visitas à chamada "casa do lobby", alugada por antigos auxiliares da prefeitura de Ribeirão Preto. O substituto será Guido Mantega, presidente do BNDES.
O pedido de afastamento do cargo foi divulgado em nota distribuída pela assessoria do Ministério. "O ministro Antonio Palocci decidiu solicitar ao presidente da República seu afastamento", diz o texto. O ministro se dirigiu ao Palácio do Planalto, onde se reuniria com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir sua decisão de deixar o cargo. Mantega já teria aceito o convite de Lula.
A saída de Palocci ocorreu horas depois de um testemunho bombástico na sede da Polícia Federal - o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, afirmou aos agentes que entregou os dados bancários do caseiro Francenildo Costa, obtidos de forma ilegal, diretamente ao ministro. Por causa da confissão sobre o envolvimento na quebra de sigilo, Mattoso foi indiciado, segundo informou a PF. O presidente da Caixa também encaminhou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva carta colocando seu cargo à disposição.
Insustentável - Conforme os testemunhos de um caseiro e um motorista, Palocci visitou a residência diversas vezes - o que o ministro negou de forma repetida. O casarão do Lago Sul sediava festas noturnas com presença de garotas de programa e transações durante o dia, envolvendo malas de dinheiro. Apesar de desmentir as visitas à casa e a participação nos negócios, Palocci sai do Ministério.
O status do ministro, figura central da política econômica do governo Lula, começou a se deteriorar no ano passado, depois do ressurgimento de denúncias sobre um esquema de cobrança de propina em sua gestão como prefeito de Ribeirão. Palocci negou seu envolvimento e foi mantido. Depois, foi citado no caso das malas com dólares vindos de Cuba para a campanha de Lula, em 2002.
A situação ficou insustentável, contudo, após o acirramento da disputa entre governo e oposição em torno da "casa do lobby" - primeiro, o motorista Francisco das Chagas Costa disse à CPI dos Bingos que vira Palocci na mansão "umas duas ou três vezes"; depois, o caseiro Francenildo Costa disse que vira Palocci na casa "dez ou vinte vezes" e que todos lá o chamavam de "chefe".
Quebra ilegal - Inflamados por dois episódios constrangedores ao governo no caso - o recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para calar o caseiro em pleno depoimento à CPI e, depois, a quebra ilegal do sigilo bancário Francenildo na Caixa Econômica -, integrantes da oposição deixaram de lado os elogios e a defesa de Palocci. Passaram a pedir sua saída imediata ou afastamento temporário.
Em público, o ministro Palocci mantém a versão de que jamais esteve no casarão do Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Em nota distribuída à imprensa, a pretexto de desmentir a informação do caseiro segundo a qual o ministro costumava chegar ao casarão sozinho, dirigindo um Peugeot prata com vidros escurecidos, Palocci arriscou-se a dizer até que não sabe dirigir em Brasília.
Em privado, porém, Palocci rendeu-se às evidências. No fim da noite de quarta-feira passada, em uma conversa com o presidente Lula na Granja do Torto, Palocci fez a confissão que vinha evitando até então: admitiu que esteve, sim, no casarão e explicou que as negativas públicas eram só uma tentativa de preservar sua família, pois a casa era visitada pelas garotas de programa.
Antonio Palocci resumiu sua conversa com o presidente Lula a um membro da coordenação do governo, que relatou o caso a VEJA sob a condição de não ter a identidade revelada. "Eu entendo que ele tenha mentido para proteger a família e tenho certeza de que o presidente também entendeu", diz esse auxiliar do governo. A confissão até deu algum fôlego aos defensores do petista.
'Compromissos particulares' - Em conversas reservadas com parlamentares no cafezinho da Câmara, ou em comentários ao pé do ouvido com jornalistas, líderes do PT passaram a difundir a versão de que Palocci "até pode ter visitado a casa", mas não há nenhum indício de que tenha se envolvido em negócio ilícito, partilha de dinheiro e lobby. "Ele foi à casa para compromissos particulares", disse um aliado.
Apesar da ação dos defensores, Palocci se mostrou cada vez menos ocupado com os destinos da economia brasileira - e cada vez mais atolado em acusações e suspeitas de que tem algo a esconder. Não despachava mais no prédio do Ministério da Fazenda nem aparecia mais em público - só ressurgira num evento com empresários em São Paulo, em que disse que vivia um inferno pessoal.


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