10/11/2005 - 17:47
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Brasil

Ouça entrevista que economista Vladimir Poleto deu a VEJA sobre dólares para PT

Marcio Oyama

Ex-assessor de Palocci disse ao repórter Policarpo Júnior, de VEJA, que transportou caixas de bebidas com dinheiro, ao contrário do que relatou à CPI


Áudio da entrevista
VEJA de 2/11/2005:Campanha de Lula recebeu dinheiro de Cuba
O economista Vladimir Poleto, em depoimento à CPI dos Bingos nesta quinta-feira, disse que não autorizou VEJA a gravar entrevista com ele e que, se alguma gravação foi feita, o conteúdo não corresponde à verdade. O repórter Policarpo Junior entrevistou Poleto em Ribeirão Preto. A conversa, que começou na sexta-feira (21 de outubro) e estendeu-se pela madrugada de sábado (22 de outubro), durou em torno de quatro horas. Neste tempo, Poleto narrou em detalhes sua viagem de Brasília a São Paulo, na qual transportou as três caixas de bebida que continham - segundo ele próprio - 1,4 milhão de dólares. Depois da conversa, Poleto concordou em gravar um rápido depoimento no qual resumiria os pontos principais. Eis a íntegra desse depoimento, em cuja introdução o repórter Policarpo Junior, de VEJA, esclarece que era "madrugada de sábado" e que estava diante do entrevistado, num sinal óbvio de que a gravação - ao contrário do que Poleto disse aos senadores da CPI - foi feita com seu consentimento:

(As principais partes estão em negrito)

Veja - Hoje é madrugada de sábado. Estou aqui com Vladimir Poleto. Vladimir, você transportou dinheiro para o PT na campanha de 2002?

Poleto - Não, absolutamente não.

Veja - Mas há o episódio de que você - a gente já apurou - que você trouxe de Brasília para São Paulo caixas supostamente contendo bebidas e que havia dinheiro...

Poleto - Que eu saiba não.

Veja - O que vc sabe?

Poleto - A única coisa que eu sei é que eu peguei um avião de Brasília com destino a São Paulo com três caixas de bebida, só isso.

Veja - Depois que você fez esse transporte você descobriu que... Foi informado do que efetivamente tinha dentro destas caixas...

Poleto - Depois de todo o acontecimento, sim.

Veja - E o que tinha dentro dessas caixas, segundo te disseram?

Poleto - Uma coisa é o que me dizem outra coisa é a realidade...

Veja - E o que te disseram?

Poleto - Que tinha dinheiro numa das caixas. Só isso.

Veja - Quem disse isso?

Poleto - Ralf Barquete.

Veja - Como você se sentiu sendo usado para fazer esse transporte.

Poleto - Um absurdo, um absurdo. Eu estive em Brasília para resolver problemas ligados diretamente, não só a minha questão pessoal, mas a outros encaminhamentos, alguns processos de enchentes, no ministério diretamente responsável e vim saber depois que acabei transportando alguns pacotes e num deles havia dinheiro. Só isso!

Veja - Você se sentiu usado?

Poleto - Lógico. Evidente. Isso é um descalabro!

Veja - Quanto tempo depois do episódio você ficou sabendo disso, que era dinheiro ao invés de bebida.

Poleto - Depois que eu ganhei uma garrafinha de Havana Club, que me foi presenteado, me falaram. Só isso!

Veja - Qual o valor que foi falado?

Poleto - É...

Veja - Segundo a informação que eu tenho, o valor transportado teria sido 3 milhões de dólares.

Poleto - Não. O valor que me disseram era 1 milhão e 400 mil dólares.

Veja - Vindo de Cuba?

Poleto - Não, não sei da onde. A origem eu não sei, apenas que eu acabei transportando num ato de minha infatilidade. Só isso!

Veja - Você fez um favor?

Poleto - Exato.

Veja - A pedido de um amigo.

Poleto - Exato.

Veja - Que não te disse o que era...

Poleto - Disse que eu tinha que trazer três caixas de bebidas. Só isso!

Veja - Você correu risco de vida?

Poleto - Não. O que aconteceu foi que peguei tempestade no ar, só isso! A partir do momento que eu saí de Brasília bateu uma tempestade. Meu destino era São Paulo aí bateu uma tempestade de Campinas até São Paulo. O piloto teve que mudar a proa para Poços de Caldas e depois certificou-se que talvez não tivesse combustível necessário para chegar até São Paulo e eu pedi pra ele arrumar uma outra alternativa de vôo. Ele disse que tinha que pousar ou em Poços de Caldas ou em Campinas. Eu optei que pousássemos em Viracopos.

Veja - O que aconteceu quando vocês pousaram em Viracopos?

Poleto - Viracopos? O avião pousou e eu...imediatamente me retirei do avião e disse que jamais entraria naquele avião, pelas penúrias e pelos problemas que passei. E, a partir do momento que o Ralf chegou no aeroporto, eu pedi que ele assumisse o avião e junto com o piloto tomasse os destino necessários. A partir dali, eu voltei para a minha terra natal.

Veja - Com relação à mercadoria, você disse que ela foi transportada em um carro blindado.

Poleto - Eu não vi. Eu fiquei em Viracopos. O avião na realidade pousou em Viracopos e tinha um tempo hábil, já que ali não tinha o combustível necessário para aquele avião, tinha que ser em outro aeroporto ali pertinho, então teve que se levantar outra vez, teve que decolar e fazer pouso nas proximidades. E o Ralf tava dentro desse vôo. E o Ralf tomou as ações daí pra frente, com relação aos produtos que estavam dentro do avião.

Veja - Você me disse no início da entrevista que esta história poderia comprometer muito, inclusive derrubar o governo. Por quê?

Poleto - Eu? Não. Eu fiquei sabendo da história depois e fiquei muito preocupado. Só isso!

Veja - Você acha que foi um inocente útil?

Poleto - Evidente. Isso é uma realidade.

Veja - A quem você narrou esta história?

Poleto - Eu? Narrei à minha mulher e ao meu filho, Gregory, de 16 anos, que sabe perfeitamente dessa história.

Veja - Você tem a consciência absolutamente limpa de que você não participou de uma maneira efetiva desse transporte de dinheiro, sabendo o que estava fazendo...

Poleto - Lógico, imagina... Jamais iria pegar um vôozinho com um milhão de dólares dentro de um avião e transportar. Isso não é da minha índole.

Veja - Vocês estava atendendo a um pedido de um amigo.

Poleto - Lógico.

Veja - Você se arrepende disso?

Poleto - Olha, costumeiramente eu não viro as costas para os amigos. É da minha índole. A partir do momento que um amigo me pede 'Vladimir traga", eu.... Qual o problema se não levar?

Veja - De quem era o avião?

Poleto Não sei

Veja - Era um Seneca?

Poleto - Um Seneca. Um Seneca para quatro lugares.

Veja - Você me disse que destes quatro lugares, três estavam ocupados com as caixas.

Poleto - Exato e mais o meu.

Veja - Como você descreveria estas caixas. Como elas eram?

Poleto - Uma caixa escrita Red Label, a outra Black Label, a outra Havana Club. Todas do mesmo tamanho, da mesma textura...Idênticas..Só mudando o nome.

Veja - Você imaginou que tinha bebida dentro?

Poleto - É lógico. Conheço muito Black Label, Red Label, mas não conhecia o Havana Club. Mas aí o meu amigo Ralf Barquete me trouxe uma garrafa de Havana e presenteou-me. Disse: Vladimir, aqui tem um Havana Club pra ti.

Veja - Foi quando ele te contou a história.

Poleto - Exato.

Veja - Foi na casa dele?

Poleto - Não. Na minha.

Veja - Isso muito tempo depois?

Poleto - Não. Uma semana depois, por aí.

Veja - Isso aconteceu em setembro de 2002?

Poleto - Não me recordo. Eu sei que foi em 2002...

Veja - Durante a campanha?

Poleto - Durante a campanha.

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