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‘Temos sinais claros de que o Brasil vai apoiar a resolução da ONU sobre violações de direitos humanos no Irã’

Hadi Ghaemi, diretor da Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã, veio ao país se reunir com integrantes do governo Dilma e da sociedade civil para falar sobre os abusos na República Islâmica

“Uma abstenção ou um não do Brasil do Conselho de Direitos Humanos da ONU afetaria o voto da região toda”

Dois dias após desembarcar no Brasil, o iraniano Hadi Ghaemi se diz “extremamente otimista”. O diretor executivo da Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã veio ao país alertar o governo e a sociedade civil sobre as violações aos direitos humanos na república islâmica e pedir ajuda. Às vésperas da reunião com diplomatas do Itamaraty e com o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, ele afirmou ao site de VEJA que o Brasil vai corrigir o erro do governo anterior e se posicionar em relação aos abusos no Irã na reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em março. “Nós temos sinais claros de que o Brasil vai realmente levar a questão dos direitos humanos no Irã a sério e apoiar ações multilaterais na ONU”, diz. “Nossos parceiros de organizações que defendem os direitos humanos estiveram com diplomatas brasileiros em Genebra e ouviram isso deles.”

Aparentemente, o Itamaraty vai aproveitar a onda de protestos no norte da África e no Oriente Médio para justificar a mudança de posição, evitando uma saia justa em relação à administração anterior, que teimou em defender o regime de Mahmoud Ahmadinejad. Diante dos apelos populares por democracia, países deixaram de apoiar antigos aliados – como fizeram os Estados Unidos em relação ao ditador Hosni Mubarak, no Egito. “Não estamos familiarizados com a política interna do Brasil. Mas, definitivamente, parece que a administração de Dilma está muito mais receptiva do que a do Lula no que se refere aos direitos humanos. Nós estamos muito otimistas”, afirma Ghaemi.

Acompanhado de Parvin Ardalan, jornalista, escritora e uma das mais ativas militantes pelos direitos das mulheres no Irã, Ghaemi também tem encontros marcados com Fabio Balestro, assessor Internacional da Secretaria de Direitos Humanos e com parlamentares brasileiros. “Nós desejamos que o Brasil, como um país emergente e influente na região, apresente a resolução da ONU, vote sim e mobilize outras nações latino-americanas neste sentido”, diz Ghami. Confira os principais trechos da entrevista.

Qual é o objetivo da viagem ao Brasil?

Viemos fazer conexões entre as sociedades civis do Brasil e do Irã. O governo brasileiro pode ter um papel muito importante na redução das violações dos direitos humanos no Irã. Especificamente, pedimos ao governo brasileiro que apoie a resolução que será votada em março no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, para, entre outras coisas estabelecer um enviado especial da entidade ao Irã. Nós desejamos que o Brasil, como um país emergente e influente na região, copatrocine essa resolução e mobilize outras nações latino-americanas neste sentido. Eu encontrei embaixadores de diversos países da região em Genebra e eles todos dizem que estão esperando pela posição do Brasil. Eles estão esperando o país falar abertamente que está apoiando e votando sim.

O senhor conseguiu agendar encontros com o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e com a subsecretária-geral política do Itamaraty, Vera Lúcia Machado. Isso indica que o Brasil vai mudar sua posição no Conselho de Direitos Humanos?

Sim, o governo está encorajado e parece que a nova administração leva a situação dos direitos humanos no Irã de maneira muito mais séria do que a anterior. Nas entrevistas que Dilma tem dado desde dezembro, ela parece entender – particularmente como uma mulher e vítima de tortura – a questão. Nós estamos muito otimistas por suas palavras e aguardando as suas ações.

O senhor tem algum sinal mais concreto da mudança de posição do Brasil do que aquilo que a presidente disse aos jornais?

Sim, nós temos sinais claros de que o Brasil vai realmente levar a questão dos direitos humanos no Irã à sério e irá apoiar ações multilaterais na ONU. Nossos parceiros de organizações que defendem os direitos humanos estiveram com diplomatas brasileiros em Genebra e ouviram isso deles.

É primeira vez que o senhor sente que o Brasil está se posicionando sobre esta esta questão?

Sim, a ONG Conectas, que ajudou a organizar a nossa visita, tem escrito ao governo desde 2005 e até então nada havia ocorrido. Não estamos familiarizados com a política interna do Brasil. Mas, definitivamente, parece que a administração da Dilma está muito mais receptiva do que a do Lula no que se refere aos direitos humanos. Nós estamos muito otimistas.

O senhor fará algum pedido especial às pessoas com quem que vai se encontrar aqui no Brasil?

Desejamos que o país pressione o Irã por uma moratória nas execuções e para que a República Islâmica respeite o direito das pessoas de se reunir de maneira pacífica. Agora, por exemplo, nós temos um “Lula iraniano” na prisão. Trata-se de um homem chamado Mansour Ossanlu. Ele é um motorista de ônibus que tentou organizar sindicatos de sua categoria no Irã e, em 2007, foi sentenciado a cinco anos de prisão. Nós gostaríamos que o Brasil perguntasse ao Irã por que colocou na prisão um líder trabalhista. O regime mantém presos advogados, líderes estudantis, cerca de 500 líderes proeminentes da sociedade civil. Nós encontramos vinte pessoas hoje no Brasil. Os seus homólogos no Irã estão na prisão. Então, nós queremos que o Brasil – tanto no nível bilateral quanto por meio da ONU – influencie o Irã neste sentido e também contra a pena de morte. O número de execuções no país disparou, especialmente a partir de dezembro do ano passado. Só em janeiro deste ano, 111 pessoas foram enforcadas após julgamentos injustos. Três delas eram pessoas que protestaram após as eleições de 2009, em que o presidente Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito em um pleito fraudulento. Eles foram enforcados por divulgar fotos e vídeos dos protestos. Como se pode ver pelo Oriente Médio e pelo norte da África, as pessoas querem sair e mostrar suas opiniões. No Irã, o governo reprime os protestos de maneira extremamente violenta. E os atores internacionais deveriam repetir sempre: respeitem suas obrigações internacionais.

O que o senhor espera de cada uma destas pessoas com quem vai se encontrar e que têm papéis diferentes na sociedade brasileira?

Cada grupo da sociedade civil pode trabalhar em benefício de seus homólogos no Irã. Queremos que as associações que protegem as mulheres no Brasil façam campanha pelas iranianas oprimidas. Aos parlamentares, que são o pilar da democracia, vamos pedir que pressionem sobre a política externa. A Constituição brasileira determina que a política externa deve promover os direitos humanos e o Congresso é responsável por verificar isso.

O senhor acredita que o governo iraniano ouviria um pedido do Brasil?

Ele, definitivamente, se sentiria obrigado a responder. O caso de Sakineh Mohammadi-Ashtiani mostrou isso. A quem o governo respondeu, voltando atrás sobre a execução de Sakineh? Ao Brasil. A resposta veio em uma carta do Parlamento iraniano à presidente Dilma. Esta foi a posição oficial do governo iraniano manifestada ao Brasil e a ninguém mais. O regime não se vê obrigado a responder à sociedade, mas se vê obrigado a falar com o Brasil por que se importa com o papel do país nos negócios internacionais.