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Sob ameaça do Boko Haram, Nigéria vai às urnas para eleger novo presidente

Além do medo de atentados nas eleições, autoridades também temem enfrentamentos entre civis. Presidente, que tenta a reeleição, e seu principal opositor assinaram pacto de paz

Enfrentando um dos maiores desafios de sua história, o avanço dos jihadistas do Boko Haram, a Nigéria vive um clima de tensão antes das eleições presidenciais deste sábado. O presidente Goodluck Jonathan busca a reeleição, mas enfrenta críticas por seu fracasso em enfrentar o grupo terrorista. O que se tornou, obviamente, munição para seu rival, Muhamadu Buhari, com quem deve travar uma disputa acirrada. As pesquisas mais recentes apontam uma vitória de Buhari, no entanto, os apoiadores de Jonathan afirmam que os levantamentos não são confiáveis.

Buhari é um general da reserva do Exército nigeriano, ex-ditador assumiu o comando do país há três décadas, em um golpe militar, passando a controlar a imprensa e a prender opositores. Desde então, ele já tentou voltar ao poder três vezes, sendo derrotado nas eleições de 2003, 2007 e 2011. Seus apoiadores afirmam que, por ser muçulmano, ele teria mais condições de combater o Boko Haram, por possuir contatos entre clérigos islâmicos que poderiam ajudar a desmantelar a organização. Já seus críticos dizem justamente o contrário. Por professar a fé islâmica, Buhari poderia ceder e tentar um diálogo com os terroristas. Em sua campanha, o general da reserva fez questão de ressaltar sua experiência militar e disse em muitas oportunidades que isso iria ajudá-lo acabar com o terrorismo no país. Seus apoiadores esperam que, pelo menos, ele consiga elevar o moral das tropas, desacreditadas diante do avanço dos terroristas.

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O cristão Jonathan assumiu a presidência em 2010, interinamente e depois de forma definitiva, com a morte do titular Umaru Yar’adua. Em 2011, ele venceu as eleições presidenciais, prolongando o reinado do Partido Democrático do Povo, iniciado em 1999. Não passou incólume à infernal praga nigeriana, a corrupção. Ao concorrer a vice-presidente, declarou bens no total de 2,4 milhões de dólares, sem explicar como um professor universitário, filho de pescador, reuniu tal montante. Em cinco anos de governo, ele não só demonstrou incapacidade para combater o Boko Haram como mostrou pouca disposição em enfrentar a corrupção endêmica.

O único ponto positive de seu governo foi a economia nigeriana, uma das que apresenta o crescimento mais rápido no mundo. No entanto, como destacou a revista Economist, o crescimento ocorreu mais apesar do governo do que por causa dele, e a queda no preço do petróleo deve conter a disparada. E a prosperidade não diminuiu a pobreza no país.

Ameaça constante – Além da ameaça de atentados durante as eleições, a Nigéria também teme manifestações violentas entre a população civil. Tradicionalmente dividido, o país tem o sul mais rico e majoritariamente cristão, e o norte sendo mais empobrecido e lar de uma maioria muçulmana. Para tentar acalmar os ânimos, os candidatos assinaram na capital Abuja um pacto pela paz com o apoio e a presença do ex-secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Nas últimas eleições presidenciais, em 2011, centenas de pessoas morreram em protestos e confusões após a comissão eleitoral anunciar a vitória de Jonathan sobre Buhari. Neste sábado, o país também terá eleições legislativas.

Sabe-se que o grupo islamita Boko Haram tem capacidade de atacar simultaneamente em várias frentes, e que dispõe de um arsenal poderoso; por isso, as tropas de segurança do país estão em alerta máximo neste sábado. O chefe da seita radical, Abubakar Shekau, chegou a proclamar, em junho do ano passado, a criação de um califado nas zonas sob seu controle na Nigéria e, há algumas semanas, jurou fidelidade ao grupo Estado Islâmico – algo que especialistas ouvidos por VEJA.com afirmam ser mais uma propaganda retórica para ambos os grupos do que uma aliança de fato. Apesar dos recentes sucessos da coalizão de países africanos que combate os jihadistas, o grupo está longe de ser contido. Atuando em uma área paupérrima e carente da presença do Estado, o Boko Haram consegue se movimentar livremente e realizar ataques em quatro diferentes países: Nigéria, Chade, Níger e Camarões.

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Os radicais reuniram um armamento impressionante de lança-foguetes, caminhões blindados, canhões, morteiros, munição, armas e até motores explosivos. O próprio grupo afirma que o arsenal provém essencialmente do Exército do país. “Muitos de seus instrumentos de combate pertencem aos militares nigerianos que os abandonaram ao desertar de suas posições”, declarou um oficial superior do Exército camaronês no início da semana. “Quanto às armas, uma parte foi claramente adquirida durante os ataques contra os destacamentos militares nigerianos, mas acredito que há mais que isso. Há compra de armas”, afirma Cédric Jourde, pesquisador especialista nesta região da Universidade de Ottawa, referindo-se à corrupção entre as fileiras do Exército nigeriano.

Além de fortemente armados, estimativas mostram que o Boko Haram possui milhares de combatentes regulares e outros milhares de simpatizantes. Os jihadistas vivem escondidos nos vilarejos longínquos e nas áreas de florestas do norte e nordeste da Nigéria. Já os simpatizantes mais perigosos, segundo especialistas ouvidos pela agência France-Presse, são os que atuam nos centros urbanos, recrutando combatentes e perpetrando atentados com homens, mulheres e crianças-bombas. “É muito difícil ter informações confiáveis sobre essas pessoas, porque se trata de um terreno vedado tanto para os pesquisadores quanto para os jornalistas”, explica Cédric Jourde, que duvida que “os serviços de inteligência saibam muito mais”.

(Da redação)