Silêncio de Chávez dá o que falar na Venezuela

Presidente está fora do país desde 10 de junho e não se sabe qual o real estado de sua saúde

“É assombroso, opaco e misterioso. Confunde muito. Como venezuelano, apostaria os dois rins que Chávez se pronunciaria sobre o ocorrido na prisão de El Rodeo”

Ignacio Avalos, professor de Sociologia da Universidade Central da Venezuela

Uma semana sem fazer declarações, mais de 15 dias ausente do Twitter e uma convalescência em Cuba sem data oficial de retorno. O inédito e, por que não dizer, reconfortante silêncio de Hugo Chávez alimenta rumores na Venezuela. Algumas teorias defendem que o presidente sofre de uma doença mais grave do que o governo quer admitir; outras alegam que ele passou, na verdade, por uma lipoaspiração; há ainda os que torçam para que ele tenha se submetido a uma mudança de identidade ideológica, embora reconheçam que, nesse caso, Cuba não seria o lugar mais adequado para um tratamento de sucesso. As especulações sobre a saúde de Chávez abundam nas redes sociais, alimentadas pela falta de informação oficial sobre o caso.

O ditador venezuelano foi internado em Havana em 10 de junho, quando foi operado de urgência de um abscesso pélvico (acúmulo de pus causado por uma infecção), cuja origem e gravidade são desconhecidas. Chávez, de 56 anos, se recupera favoravelmente, segundo seus ministros. Ele “dá ordens” de Cuba e participa da tomada de decisões dos principais assuntos do país, garantem. Mas, se ele está tão bem como dizem, o que explicaria o prolongado silêncio do caudilho acostumado a se penderurar por horas em microfones e redes de rádio e televisão com seus modorrentos pronunciamentos?

Nem o agravamento da crise elétrica, nem a violência na prisão venezuelana de El Rodeo, onde se registraram pelo menos 25 mortos na última semana, foram capazes de arrancar um prounciamento de Chávez, cujo estilo palavroso sempre obrigou os cidadãos a aturar uma participação exaustiva na vida política diária do país. “É assombroso, opaco e misterioso. Confunde muito. Como venezuelano, apostaria os dois rins que Chávez se pronunciaria sobre o ocorrido na prisão de El Rodeo”, explicou Ignacio Avalos, professor de Sociologia da Universidade Central da Venezuela.

Silêncio – O ditador saiu da Venezuela em 5 de junho para fazer um giro por Brasil, Equador e Cuba. Desde que se tornou pública a notícia de sua cirurgia, não tem havido boletins médicos emitidos de Havana, onde o silêncio é total e as informações sobre seu estado de saúde são fornecidas apenas eventualmente pelas autoridades de governo na Venezuela.

O ministro da Informação venezuelano, Andrés Izarra, afirmou nesta segunda-feira que ele está ainda em recuperação em Havana, desmentindo declarações do deputado oficialista Saúl Ortega, que havia assegurado mais cedo que Chávez poderia voltar ao país nas próximas horas.

Imagem e eleições – Para Luis Vicente León, responsável do instituto de pesquisas Datanálisis, o sigilo que cerca a doença do chefe de estado pode ser uma tentativa de preservar sua imagem de “homem invulnerável”. “Tentam mostrar que o problema é menor e que ele pode mandar de Cuba por um tempo. Este seria o caldo perfeito para um retorno triunfal. Mas Chávez deve reaparecer em breve porque, senão, será perigoso para sua imagem”, explicou.

Até o momento não se decretou a falta temporária do presidente, como manda a Constituição, o que significaria que o vice-presidente Elías Jaua assumiria as funções de Chávez por algum tempo. No Parlamento, esse governo à distância de Chávez gerou um acalorado debate no qual a oposição, minoritária na Câmara, exigiu mais transparência. “Esse desaparecimento poderia não ser bom para a campanha”, acrescentou León, referindo-se às eleições presidenciais de 2012, nas quais Chávez, no poder desde 1999, aspira a um terceiro mandato de seis anos.

(Com agência France-Presse)