Sarkozy encontra seus “indesejáveis” entre os ciganos

Política de expulsão do atual presidente ameaça a paz social na França e a imagem do país em todo o mundo

Ao romper o tabu das origens e praticar uma discriminação de estado, Sarkozy incentiva o comunitarismo que pretende combater e adiciona gasolina ao fogo do ódio étnico

Nicolas Sarkozy não é, nem de longe, o primeiro presidente francês que explora as questões da imigração e da identidade nacional para tratar de ocultar fracassos econômicos e políticos. Desde sua chega, no começo dos anos 80, a extrema direita não deixou de difundir sua retórica xenófoba, da qual não escapou nem Jacques Chirac – quando falava de “barulho e cheiro” dos imigrantes em 1991 – nem, em outro sentido, François Miterrand, ao aceitar a noção do “limiar de tolerância” em 1989 e agitar sem cessar a capa vermelha do voto dos estrangeiros. “Imigração ou invasão?”, se perguntava na mesma ocasião Valéry Giscard D’Estaing, que então estava na oposição. Não obstante, nesse verão, o inquilino atual do Eliseu entrou em uma nova etapa, carregada de ameaças para a paz social na França e para a imagem do país em todo o mundo.

Ao eleger como ordem do dia “os problemas dos ciganos”, na reunião do Eliseu do dia 28 de julho, o chefe de estado decidiu dar à opinião pública como pastagem uma parte da população definida somente pela referência à sua origem. Desse ponto de vista, a circular de 5 de agosto do ministro do Interior, Brice Hortefeux, na qual exige a evacuação sistemática dos acampamentos ilegais, “em especial de todos os ciganos”, não é mais que a tradução em termos administrativos do desejo do presidente de colocar na mira um grupo étnico. Sem dúvida, escolheu essa minoria porque ela dispõe de escassos meios de defesa e pesa pouco na opinião pública. Mas basta substituir “ciganos” por qualquer outro termo que designe uma origem étnica ou uma religião para captar o que está em jogo.

Pela primeira vez desde a guerra da Argélia, a analogia entre uma política de estado e a política xenófoba e racista aplicadas no final dos anos 30, ou seja, o governo de Vichy, não constitui um anacronismo. Isso não significa que a expulsão dos ciganos pode ser comparada com as deportações. Mas a designação de um bode expiatório para uma fração da população, feita pelo mais alto representante da república, liberando impulsos xenófobos agravados pela crise econômica, também põe em marcha um mecanismo de controle. Anexado à circular famosa, os quadros estatísticos que devem ser preenchidos pelos prefeitos têm uma coluna especial para a contagem do número de filhos, confirmando o zelo que pode manifestar na matéria a máquina burocrática.

O historiador especializado em imigração Ralph Schor salienta “as impressionantes convergências” entre o mecanismo que funcionou nos anos 30 e o que tem trabalhado desde os anos 80. Em abril de 1938, o radical Albert Sarraut, ministro do Interior depois do governo da Frente Popular, dirigiu, quatro dias depois de sua posse, uma circular aos prefeitos para anunciar que estava “determinado a desmascarar os indesejáveis com uma ação metódica, enérgica e imediata” para responder aos desejos da população e manter a ordem pública. Esse “indesejáveis” não são mencionados pelo nome, mas se referiam “à escumalha italiana, o preguiçoso russo e o desprezível alemão”; se tratava desses “metecos” (estrangeiros que viviam em Atenas, na Grécia antiga, sem direitos de cidadão) recentemente naturalizados, muitos dos quais judeus, de quem o escritor xenófobo Maurice Bedel duvidava que algum dia se converteriam em verdadeiros franceses.

Dessa forma, já estava preparado o terreno para que o governo de Vichy designasse pelo nome a parte da população a que estava reservado tratamento coletivo particular: os judeus e os ciganos, primeiro presos e em seguida deportados.

Depois da libertação, o general Charles De Gaulle rejeitou as propostas para a construção de uma política de imigração com base no critério de “oportunidade étnica”. Até que se impôs o clima da guerra da Argélia, quando a lei de 1955 sobre o estado de emergência legalizou a caça aos argelinos; em 1961, foi imposto o toque de recolher em Paris apenas para os “franceses muçulmanos da Argélia”. Maurice Papon, chefe de polícia, não se incomodou então em usar essa paráfrase para prometer aos policiais que ele daria cobertura no caso de matarem a um “norte-africano”.

De seu lado, o presidente Nicolas Sarkozy se limitou por muito tempo aos eufemismos. Inclusive quando ninguém via a muitos loiros de olhos azuis na “chusma” que ele criticava. No começo de seu mandato, externou o desejo de fomentar as “estatísticas étnicas” para promover uma diversidade que ele queria inclusive incluir na Constituição. Estigmatizar os ciganos agora confirma a mudança radical negociada no momento do “debate da identidade nacional”: desde que a crise financeira reativou o desemprego, já não é questão de aparecer como o defensor das populações surgidas da imigração, mas, ao contrário, de definir os estrangeiros como fatores de insegurança.

Nicolas Sarkozy encontrou seus “indesejáveis” e fez dos ciganos a figura emblemática da insegurança. Mas ao romper o tabu das origens e praticar uma discriminação de estado, ele incentiva o comunitarismo que pretende combater e adiciona gasolina ao fogo do ódio étnico, no lugar de ajudar os franceses a encontrar razões para viver juntos.