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Premiê turco anuncia que será candidato a presidente

Movimento faz parte de plano do AKP para se eternizar no poder. Erdogan pretende ampliar poderes do presidente, que hoje cumpre função simbólica

Depois de mais de uma década no poder, o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan anunciou nesta terça-feira que será candidato nas primeiras eleições presidenciais pelo voto popular da Turquia. Ele é o favorito para o pleito, marcado para 10 de agosto. “Com a eleição direta do presidente pelo povo, a posição do presidente será elevada e vai recuperar sua força original para assegurar a unidade do Estado e do povo”, disse Erdogan em discurso de lançamento de campanha na capital, Ancara, acompanhado por 4 000 membros do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). O premiê disse ainda que, se eleito, governará “para todos”.

Hoje, o presidente desempenha uma função cerimonial no país. O plano de Erdogan é dar novos poderes ao cargo. Seus aliados preparam o terreno para que ele tenha poderes ampliados na presidência, ressaltando que o presidente já pode aprovar ou vetar leis, indicar reitores de universidades e nomear integrantes do judiciário. O próprio premiê já sugeriu que pretende usar totalmente os poderes presidenciais, incluindo o de convocar reuniões de gabinete, o que lhe daria tanta autoridade quanto a que desfruta como primeiro-ministro.

Autoridade que ele usou de forma mais cada vez mais autoritária desde que assumiu o poder, em 2002. Erdogan e o AKP só pensam em se eternizar no comando do país. Um dos caminhos para a consecução do plano é dar força cada vez maior aos religiosos islâmicos, ferindo a característica mais admirada da Turquia, que foi a separação entre a Igreja e o Estado. O premiê prendeu generais defensores do Estado laico e jornalistas de oposição e passou a controlar fortemente o fluxo de informação. Seu apoio vem da parcela mais religiosa da população, que é maioria nas áreas rurais e vive submetida ao clero islâmico. Nem mesmo os protestos contra a islamização da Turquia promovida pelo seu governo ou as denúncias de corrupção abalaram sua popularidade. A base eleitoral garantiu ao AKP a vitória em seis eleições consecutivas em nível nacional e local.

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Uma questão que fica em aberto com a indicação de Erdogan para disputar a presidência é o futuro político do atual presidente, Abdullah Gul, que ajudou a fundar o AKP. Visto como uma figura mais conciliatória do que Erdogan, ele poderia trocar de posição com o premiê. No entanto, com a mudança no status do presidente, que já é articulada pelo partido, o futuro primeiro-ministro deverá ser ofuscado. “Não importa muito se Erdogan é primeiro-ministro ou presidente porque ele criou um sistema de poder concentrado em suas próprias mãos, habilitando-o a compor o governo de forma a garantir que ele tenha exatamente a influência que deseja”, disse ao jornal The New York Times Svante E. Cornell, analista turco e diretor do Instituto Ásia Central-Cáucaso.

Ele enfrentará nas eleições o candidato de dois dos principais partidos de oposição – o secular Partido do Povo Republicano e o Partido do Movimento Nacionalista – Ekmeleddin Ihsanoglu, ex-presidente da Organização para Cooperação Islâmica, e também Selahattin Demirtas, candidato dos partidos pró-curdos. Se vencer, como tudo indica, Erdogan terá um mandato de cinco anos pela frente, mas não deverá parar por aí. Ele já deixou claro que pretende ser o comandante do país em 2023, no centésimo aniversário da origem da Turquia moderna – e secular – fundada por Kemal Ataturk.

(Com agência Reuters e Estadão Conteúdo)