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Parlamentares esperavam a hora certa para impeachment

Especialistas explicam que o confronto entre policiais e camponeses não seria um motivo suficiente para destituir o presidente - essa foi apenas a gota d'água

“As disputas políticas estavam latentes desde a eleição de Lugo, em 2008. O conflito por terras na semana passada apenas acelerou esse processo de desgaste, deixando o governo sem aliados.”

Tullo Vigevani, professor da Unesp

A Câmara de Deputados do Paraguai surpreendeu na quinta-feira ao aprovar o início do processo de impeachment contra o presidente Fernando Lugo. A justificativa usada para recorrer à medida extrema contra o chefe de estado é o “mau desempenho de suas funções”. E a rapidez com que o caso foi analisado – nesta sexta, o Senado votou pela cassação de Lugo, que já deixou o cargo – levantou uma série de discussões. O próprio governo brasileiro chegou a considerar um “golpe de estado”, o que motivou uma mobilização da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), cujos chanceleres seguiram às pressas para a capital paraguaia. Especialistas ouvidos pelo site de VEJA preferem não usar a palavra “golpe”, mas deixam claro que os parlamentares do país já vinham há tempos tentando encontrar um meio de destituir o presidente.

A principal crítica à gestão de Lugo feita pelos congressistas opositores refere-se ao confronto armado que ocorreu na semana passada durante uma reintegração de posses na cidade de Curuguaty, na fronteira com o Paraná – que deixou 17 mortos, entre policiais e camponeses. Mas este não seria motivo suficiente para derrubar um governo – foi apenas a gota que faltava para transbordar a paciência de seus tradicionais aliados e mostrar o limite extremo a que chegou a questão rural – fundamental para a economia – e comprovar que Lugo, que nunca gozou de grande popularidade, está suficientemente fraco ao ponto de não conseguir se manter no poder. Desde que se elegeu, o presidente enfrenta forte oposição no Congresso, em especial no Senado. Definitivamente, ele não representa as forças politicas tradicionais do Paraguai: veio do movimento de esquerda ligado à igreja progressista, em um país que foi por 61 anos seguidos governado pelo conservador Partido Colorado (1947-2008).

‘Não é o momento de um impeachment’, diz Fernando Lugo

Discussões sobre impeachment já o assombraram outras vezes – apesar de nunca terem sido levadas adiante como agora. “As disputas políticas estavam latentes desde a eleição de Lugo, em 2008. O conflito por terras na semana passada apenas acelerou esse processo de desgaste, deixando o governo sem aliados”, explica Tullo Vigevani, professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp. Ele lembra que, em função do confronto, Lugo foi obrigado a substituir o ministro do Interior e o chefe da polícia nacional, o que enfraqueceu ainda mais sua base de apoio. “Foi um sinal para a oposição tradicional conservadora de que chegou o momento que o presidente não tem mais sustentação politica. E os congressistas se aproveitaram da situação para atacar”, completa. “O incidente foi claramente usado a favor dos opositores e interessados pela queda de Lugo”, reitera Ricardo Sennes, coordenador do Grupo de Análise de Conjunturas Internacionais da USP.

Enquanto era apenas considerado um governante fraco – o que parece ser consenso entre os analistas – Lugo não corria grandes riscos de ser destituído. Alberto Pfeifer, especialista em América Latina e professor da USP afirma que os congressistas já haviam decidido que seria melhor se Lugo concluísse o mandato e perdesse naturalmente as próximas eleições. Porém, desta vez, o motivo da revolta está na delicada questão rural, o que apertou o cerco em torno do presidente. “Todas as suas promessas de campanha, como a inclusão do homem do campo e a distribuição de terra, foram deixadas de lado – o que culminou no episódio da semana passada. Lugo se afastou do Congresso, das promessas de campanha e da população. Ele permitiu que grupos de insurgentes de cunho quase terrorista e outros dedicados ao tráfico de drogas se instalassem no campo, trazendo ameaça à paz social”, destaca Pfeifer.