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‘Não existe Justiça na Venezuela’, diz mulher de opositor preso

Lilian Tintori chega ao Brasil na terça-feira para pedir apoio à presidente Dilma Rousseff pela libertação de seu marido, Leopoldo López

Acostumada a ter na ponta da língua respostas para as perguntas de seus filhos, a venezuelana Lilian Tintori, de 36 anos, foi surpreendida no fim do ano passado por um questionamento da mais velha, Manuela, de 5 anos. A menina queria saber se o pai morreria na cadeia. Mulher do líder opositor Leopoldo López, preso desde fevereiro de 2014 pelo regime de Nicolás Maduro, Lilian não soube o que dizer à filha. Nem ela sabe a resposta. Leopoldo López é hoje o rosto mais famoso da profunda crise por que passa a Venezuela, fruto do redemoinho de autoritarismo que consome o país num ritmo cada vez mais veloz. Apesar dos esforços de Maduro, a acusação contra López até hoje não conseguiu obter uma prova sequer que o aponte como o homem por trás das revoltas que sacudiram Caracas no ano passado. Com a imprensa calada e sem garantias mínimas de legalidade por parte da Justiça venezuelana, Lilian encontrou no apoio da comunidade internacional a única chance de conseguir libertar o pai de Manoela e de Leopoldo Santiago, de 2 anos.

Com país em crise, filho de Maduro dança sob chuva de dólares

Desde que o marido foi preso, a vida de Lilian mudou completamente. Campeã nacional de kite-surfing e ex-apresentadora de TV na Venezuela, ela teve de mergulhar no mundo da política e se tornou uma das principais ativistas de direitos humanos da América Latina. Conseguiu o apoio público do primeiro escalão da política internacional. Barack Obama, Bill Clinton, Papa Francisco e Mariano Rajoy foram alguns dos que defenderam publicamente a libertação de López e das outras 97 pessoas presas atualmente por razões políticos na Venezuela. Nesta terça-feira Lilian desembarca em São Paulo para dar início àquela que talvez seja a mais difícil de suas viagens em busca de apoio. Em entrevista exclusiva ao site de VEJA, ela admite que sonha em ser recebida pela presidente Dilma Rousseff e com a adoção, pelo governo brasileiro, de uma postura mais contundente pela liberdade de seu marido. “Tenho certeza de que uma mulher que enfrentou a tortura sabe da importância de defender que outras pessoas não sofram isso”, disse.

A senhora sentiu alguma mudança na postura do governo brasileiro em relação à Venezuela? O Brasil está abrindo os olhos. Hoje, sabe perfeitamente o que está acontecendo na Venezuela. Eu creio que Dilma já começou a mudar de posição. Há algumas semanas, ela deu uma entrevista e defendeu a libertação dos presos políticos. O que defendo é que haja um envolvimento maior, uma posição contundente da presidente. Os líderes da região precisam pedir com contundência que se resolva a grave crise de direitos humanos por que passa a Venezuela. Cobrar isso é coerente com as propostas centrais dos organismos internacionais de que o Brasil faz parte, como a Unasul e a OEA. As violações aos direitos humanos ultrapassam as fronteiras. São universais. Todo líder político, social e democrático de todo o mundo têm responsabilidade em defender os direitos humanos. Repito: eles são universais. Portanto, Dilma está comprometida com isso. Confio nela como mulher, como mãe. Conheço sua trajetória e sei que a liberdade e os direitos humanos inspiraram sua história. Sei que Dilma quer paz e tranquilidade para todos os povos. Tenho certeza de que uma mulher que enfrentou a tortura sabe da importância de defender que outras pessoas não sofram isso.

A senhora foi recebida por lideranças de todo o mundo. Acha que vai ser recebida por Dilma? Eu gostaria muito de que isso acontecesse. Quero olhar nos olhos da presidente, uma mulher que eu admiro muito, e, como venezuelana, mulher e esposa, dizer a ela o que está acontecendo na Venezuela. Gostaria de pedir a ela e a esse grande país que é o Brasil que peça a liberdade dos presos políticos na Venezuela. Brasil é um país que admiramos muito e tenho convicção de que o governo brasileiro vai nos apoiar.

Quando começou a perseguição política a López? Não foi a primeira prisão política de Leopoldo. Em 2008 ele foi preso por Hugo Chávez e vinha sendo perseguido politicamente até ser calado. Tudo porque Leopoldo é um homem que representa a esperança da maioria dos venezuelanos, que olha na cara e fala com as pessoas como um servidor público. É assim desde que o Leopoldo foi prefeito de Chacao de Caradas. Leopoldo vinha fortalecendo sua liderança nacional para defender uma mudança de fato em toda a Venezuela.

Qual é o real motivo da prisão, na sua opinião? Maduro prendeu Leopoldo porque tem medo de sua liderança. Mas ele tem que libertar Leopoldo por dois motivos. Primeiro, porque ele é inocente, não há nenhuma prova contra Leopoldo. Existe ainda outra razão. A ONU, a Anistia Internacional, a Human Rights Watch e países como Estados Unidos, Espanha, Chile e Peru cobram isso. Maduro é obrigado a seguir a Constituição da Venezuela, que diz em seu artigo 23 que ele é obrigado a acatar determinações de organismos internacionais. Estou absolutamente segura de que ele é obrigado a liberar um homem que está preso ilegalmente há 1 ano e 2 meses.

A senhora estava com López quando ele foi preso? Eu estava com ele quando chegou a ordem de captura. Maduro fez uma oferta, por um intermediário, quando Leopoldo estava clandestino. Pediram a mim que convencesse Leopoldo a sair do país para não ser preso. Nossa resposta, como família, foi não. Leopoldo nunca vai sair da Venezuela e abandonar o seu povo. Ele ama a Venezuela e tem um compromisso com todos os venezuelanos. Leopoldo queria tirar a máscara de Nicolás Maduro diante do mundo. Em muitos países acreditava-se que Maduro era um democrata, o que agora ficou claro que não é verdade. Leopoldo queria mostrar que não existe justiça nem respeito aos direitos humanos na Venezuela e, com seu sacrifício, que já dura 1 ano e dois meses, ele conseguiu mostrar isso.

Como é a vida de seu marido na prisão de Ramo Verde? Leopoldo neste momento está isolado numa cela de pouco mais de quatro metros quadrados, sozinho, sem poder tomar banho de sol ou receber visitas que não sejam familiares. Mesmo nossas visitas sofrem restrições. Ele não tem companheiros de cela, o isolamento é total. As visitas familiares só começaram a ser liberadas depois de sete meses de prisão, um período em que ele ficou incomunicável. Seu dia a dia na prisão é terrível. Costumam acordá-lo de madrugada com um alarme, fazem revistas violentas na cela, quando desaparecem com seus livros e seus escritos. Já jogaram até excrementos humanos em sua cela. Isso é tortura. As visitas, em tese, podem ser feitas de quinta-feira a domingo, mas muitas vezes eu e meus filhos somos barrados. A última vez em que estive com ele foi na semana passada. Não pude estar com ele em seu aniversário. Mesmo com tudo isso, não vão conseguir dobrar Leopoldo. Ele é um homem muito forte e sua família segue firme em seu apoio.

A senhora teme pela vida dele? Sim, eu temo pela vida dele e pela vida do prefeito Antônio Ledezma. Há um mês, outro preso político, Rodolfo González, foi encontrado enforcado em sua cela, na sede do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin). Sempre que algum organismo internacional se manifesta a favor de sua libertação, ele sofre retaliações. Minha filha perguntou-me se o “papi” vai morrer na cadeia. Eu não soube o que responder. Pensei, pensei, e disse que só Deus decide quando alguém vai morrer.

Como seus dois filhos lidam com a prisão do pai? Meus filhos estão crescendo sem o pai. É difícil, mas nós dizemos a todo o tempo a verdade. Dizemos que o papai deles é um herói da liberdade e que está lá porque ama a Venezuela. Manoela e Leopoldo Santiago sentem muita saudade e choram quando vão a Ramo Verde visitar o pai e os guardas não deixam eles entrarem. A cadeia é um inferno, mas eles gostam de ir porque é quando estão com o pai deles. É a única situação em que estamos em família. Mas é muito duro. Passam dias, semanas e o pai das crianças não volta. Explico que o país está passando por um momento muito triste e injusto e que nós não somos a única família que está passando por isso. Há outras 98 famílias que passam pela agonia de ter familiares presos por motivação política. Também explico aos meninos que todas as famílias venezuelanas sofrem de certa forma com tudo isso, seja pela falta de segurança, seja pela escassez, seja pela falta de liberdade. Não há justiça.

A senhora tem medo de Nicolás Maduro? Temo pela minha segurança, a segurança dos meus filhos e dos que trabalham ao meu lado. Eu já pedi proteção internacional e repito que qualquer coisa que acontecer comigo ou com meus filhos terá sido por obra de Nicolás Maduro. Agentes de inteligência do governo me seguem a todo o tempo, sem se preocupar em serem percebidos. Quando faço uma viagem, eles me espionam no aeroporto do momento que saio até o momento que chego. Tiram fotos de mim e grampeiam meus telefonemas, minhas entrevistas e conversas. Esta entrevista, por exemplo, certamente está sendo grampeada. Tudo isso aumento muito nas últimas semanas. A estratégia agora é usar mulheres do partido governista para me atacarem publicamente.

Qual é a saída para a Venezuela sair da crise hoje? A saída deve ser constitucional, pacífica e democrática. A Constituição prevê cinco formas para a saída do presidente. Hoje, a maioria da Venezuela quer uma mudança. Há pesquisas que mostram que 80% dos venezuelanos querem uma mudança. Maduro é ilegítimo, porque ele não consegue tirar o país da crise. É ineficiente. O país está realmente mal.

Sua voz e relatos sobre a senhora transmitem a imagem de uma mulher muito forte. Em algum momento, a senhora fraqueja? Tenho Deus comigo. Leio a Bíblia todas as manhãs. Tenho uma verdade dentro de mim. Tenho argumentos para lutar. E tenho um homem valente por quem lutar. Tenho a fé de que vamos conseguir a ajuda. Mas isso só será possível com a ajuda de países irmãos, como o Brasil.