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Irmandade Muçulmana: os fundamentalistas contra Mubarak

Maior e mais antigo grupo de oposição do Egito diz ter abdicado da violência, mas alguns membros continuam a apoiar terroristas pelo mundo árabe

Em 18 dias de intensos protestos nas ruas do Egito, representantes do grupo Irmandade Muçulmana fizeram coro com outros manifestantes pedindo a renúncia do presidente do país, Hosni Mubarak. No dia 11 de fevereiro, a “voz das ruas” prevaleceu e o ditador renunciou, deixando nas mãos do Exército a tarefa de governar até as eleições e abrir caminho para um regime democrático no país. Diante do receio dos ocidentais de que os fundamentalistas ameaçariam tal transição, membros da Irmandade afirmaram que não apresentarão um candidado à Presidência, porém anunciaram a formação de um partido político. Mas, afinal, em que consiste o movimento, quem são seus integrantes e qual sua força e participação nos recentes protestos?

A Irmandade Muçulmana é a maior e mais antiga organização islâmica do Egito e principal grupo opositor ao governo de Mubarak – apesar de nunca ter chegado a ser de fato um partido político. Fundado por Hassan Al Banna, em 1928, com o objetivo de espalhar os preceitos do Islã, o movimento teve suas ideias disseminadas rapidamente e, no fim da década de 1940, estimava-se que possuísse 2 milhões de seguidores no Egito. Logo o movimento ganhou ramificações em outras nações árabes, como a Síria e o Iraque. Em meados da década de 1950, a ascensão do teólogo Sayyid Qutb como liderança pôs a Irmandade Muçulmana na trilha do radicalismo. Qutb foi e continua sendo inspiração para grupos como o Hamas (palestino), o Hezbollah (libanês), e mesmo para a rede terrorista Al Qaeda – organizações às quais a Irmandade presta ajuda financeira.

Apesar de seus porta-vozes afirmarem ter adotado o caminho da moderação e da renúncia à violência, o movimento desperta temor e desconfiança no Egito e no Ocidente. Enquanto diz apoiar princípios democráticos, um de seus objetivos ainda é criar, gradualmente, um estado regido pela lei islâmica da Sharia. Seu mais conhecido slogan é: “O Islã é a solução”. Banido várias vezes pelo governo egípcio ao longo da história, o grupo ainda assim se infiltrou no parlamento com candidatos independentes que defendiam, além da liberalização da legislação partidária, a instauração das leis islâmicas no país. Na década de 1980, com a chegada de Mubarak ao poder, a Irmandade apostou em alianças com o partido Wafd, em 1984, e com os partidos dos trabalhadores e dos liberais, em 1987, tornando-se a principal força de oposição no Egito. Porém, em todos esses anos, assim como nos subsequentes, não conseguiu aprovar projetos de seu interesse.

Apenas nas eleições de 2005 o grupo voltou a ganhar expressão, alcançando a sua melhor marca: candidatos aliados independentes ganharam 20% das cadeiras da Assembleia Nacional. Embora não representasse uma ameaça imediata, diante das rigorosas leis impostas por Mubarak, o resultado surpreendeu o presidente por demonstrar a força do movimento. O governo logo lançou mão de novas medidas contra a Irmandade, detendo centenas de seus membros e instituindo um conjunto de reformas legais para sufocá-la. A constituição foi reescrita para estipular que nenhum tipo de atividade política poderia ser baseada na religião. Candidatos independentes foram proibidos de concorrer à presidência, e leis deram vastos poderes às forças de segurança para deter pessoas e desfazer reuniões políticas. Nas eleições parlamentares de novembro de 2010 (certamente manchadas por fraudes), 80% das cadeiras da Assembleia ficaram com o partido governista. A Irmandade não conseguiu um assento sequer.

Apoio e adesão – Sufocados por décadas de repressão, os grupos opositores possuem uma base popular restrita no Egito. Já a Irmandade Muçulmana, embora ilegal e com menos importância do que no passado, tem grande apoio entre as massas. Segundo Carrie Rosefsky Wickham, professora do departamento de Ciências Políticas da Universidade de Emory, em Atlanta, a aprovação popular do grupo estaria entre 20 e 40% – embora não existam dados oficiais que comprovem os números.

Em entrevista ao site de VEJA, o neto do fundador do movimento, Tariq Ramadan, afirma que a Irmandade não é um todo coeso. Ela abriga tradicionalistas da primeira geração, reformistas seduzidos pelo exemplo da revolução turca e radicais que desejam a imposição do islã pela violência. “Por trás da fachada de uma organização unificada e hierarquizada, existem linhas contraditórias, e não há um prognóstico fechado para o futuro do movimento”, diz ele.

Carrie e Ramadan concordam na avaliação de que a Irmandade não espera assumir o poder no curto prazo. “O repúdio à corrupção do regime de Mubarak era de fato um dos motores do movimento e, para se ver livre desse regime, a Irmandade buscará, ao menos num primeiro momento, partilhar o poder com outros grupos representativos da sociedade egípcia”, diz Carrie. De acordo com Ramadan, as alas moderadas do movimento querem participar processo político e ter um papel no período de transição, mas sabem que não possuem representatividade suficiente para assumir o poder no momento.

Confira na linha do tempo o histórico da Irmandade Muçulmana:

Cronologia

  • 1928 A Irmandade Muçulmana é fundada por Hassan Al Banna, com objetivos sociais.
  • 1948 – Organização é dissolvida pelo governo egípcio e se mantém na clandestinidade.

    – Integrante da Irmandade é acusado de assassinar o premiê do Egito, Mahmoud Al Nuqrashi.

    – Banna é morto por um atirador, possível membro das forças de segurança do Egito.

  • 1950 – O número de seguidores do grupo em todo o país chega a 2 milhões de pessoas.

    – Radicalismo trazido pelo ideólogo Sayyid Qutb inspira grupos como a Al Qaeda.

  • 1952 Um golpe de estado derruba o regime colonial no Egito, com o apoio da Irmandade.
  • 1954 – Movimento é acusado por atentado do qual o presidente Gamal Abdul Nasser saiu ileso.

    – Irmandade é novamente banida. Milhares de membros são presos e torturados.

  • 1966 Governo toma medidas drásticas: Qutb é executado e se torna um mártir na região.
  • 1981 Membros são acusados de assassinar o presidente Anwar Sadat, antecessor de Mubarak.
  • 1984 – Grupo tenta voltar ao meio político através de alianças com partidos de oposição.

    – Irmandade se alia ao partido Wafd, tornando-se a principal força de oposição no Egito.

  • 1987 – Movimento constrói uma aliança com os partidos dos trabalhadores e dos liberais.

    – Gradualmente, Irmandade diz adotar o caminho da moderação e da renúncia à violência.

  • 2000 – Organização ganha 17 assentos na Assembleia Nacional com candidatos independentes.

    – Irmandade apoia reformas pela abertura do sistema político e o fim da lei de emergência.

  • 2005 – Grupo alcança sua melhor eleição: candidatos independentes aliados têm 20% das cadeiras.

    – Governo detém centenas de membros e institui reformas legais para sufocar o grupo.

  • 2010 – Líderes do partido governista são acusados de fraudar as eleições parlamentares de novembro.

    – Oposição se revolta, mais de 80% das cadeiras da Assembleia são de partidários de Mubarak.

  • 2011 – Contínua repressão à oposição é um dos principais motivos para os recentes protestos.

    – Irmandade participa das manifestações populares, embora seu membros não sejam os protagonistas.