Governo interino defende ação policial no Egito

Número de mortos civis chega a 235. Ministro diz que 43 policiais morreram

As forças de segurança do Egito tiveram de acabar com os acampamentos montados por apoiadores do presidente deposto Mohamed Mursi para “restaurar a segurança” no país, afirmou o premiê interino Hazem al-Beblawi. “Notamos que as coisas saíram um pouco do controle. O estado tinha a necessidade de intervir para restaurar a segurança”, disse o primeiro-ministro, que convidou grupos de direitos humanos a irem ao país para supervisionar as ações das forças de segurança.

Entenda o caso

  1. • Na onda das revoltas árabes, egípcios iniciaram, em janeiro de 2011, uma série de protestos exigindo a saída do ditador Hosni Mubarak, há trinta anos no poder. Ele renunciou no dia 11 de fevereiro.
  2. • Durante as manifestações, mais de 800 rebeldes morreram em confronto com as forças de segurança de Mubarak, que foi condenado à prisão perpétua acusado de ordenar os assassinatos.
  3. • Uma Junta Militar assumiu o poder logo após a queda do ditador e até a posse de Mohamed Mursi, eleito em junho de 2012.
  4. • Membro da organização radical islâmica Irmandade Muçulmana, Mursi ampliou os próprios poderes e acelerou a aprovação de uma Constituição de viés autoritário.
  5. • Opositores foram às ruas protestar contra o governo e pedir a renúncia de Mursi, que não conseguiu trazer estabilidade ao país nem resolver a grave crise econômica.
  6. • O Exército derrubou o presidente no dia 3 de julho, e anunciou a formação de um governo de transição, que não foi aceito pelos membros da Irmandade Muçulmana.

Leia mais no Tema ‘Revolta no Egito’

Pouco depois, o ministro do Interior, Mohamed Ibrahim fez um pronunciamento no qual afirmou que as duas áreas ocupadas por membros da Irmandade Muçulmana foram totalmente liberadas e acrescentou que “nenhuma outra ocupação em nenhuma praça de nenhum lugar do país será permitida”. Disse ainda que 43 policiais foram mortos e defendeu a ação das forças de segurança, dizendo que as forças de segurança foram surpreendidas pelo ataque dos apoiadores de Mursi. “Houve uma tentativa dos partidários da irmandade de disseminar o caos pelo país. Alguns atacaram centros policiais”, afirmou, ressaltando que a ação para dispersar os manifestantes ocorreu de acordo com os níveis internacionais de “autocontenção”. “Nós agimos segundo o mandato nos dado pelo gabinete para dispersar acampamentos e de acordo com o plano para minimizar a possibilidade de vítimas. Demos ordens claras para que não fossem usadas armas durante o processo de dispersão”.

A declaração do ministro vai contra os relatos de testemunhas, incluindo jornalistas, que disseram ter ouvido disparos. Segundo a TV estatal, o número de mortos já chega a 235, e são mais de 2 000 os feridos, segundo fontes da área de saúde. Com os 43 policiais mortos, segundo o ministro do Interior, o número de vítimas chega perto de 280, no dia de maior violência no país desde a revolução de 2011 que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak. A rede Al Jazira informou que 61 vítimas morreram durante a dispersão da praça de Rabaa al-Adawiya, a principal ocupação de apoiadores de Mursi no Cairo. Outras 21 pessoas morreram na praça Nahda. Também houve mortes na cidade de Alexandria.

Ibrahim disse que armas foram apreendidas e que manifestantes foram detidos e interrogados, mas negou a informação de fontes policiais sobre a prisão de lideranças da Irmandade Muçulmana. Depois dos confrontos, o vice-presidente interino Mohamed El-Baradei renunciou ao cargo. Em uma carta endereçada ao presidente Adly Mansour, El-Baradei afirmou que não conseguia “arcar com a responsabilidade pelo derramamento de sangue”. A crise levou o governo do Egito a decretar estado de emergência e um toque de recolher no país.

Estados Unidos – O secretário de estado americano John Kerry classificou a ação da polícia egípcia de “deplorável” e alertou que o massacre atenta contra as aspirações democráticas do país. “Exigimos que o governo respeite os direitos de livre expressão e resolva esta situação de forma pacífica. Não haverá solução após uma polarização. Este é um momento crucial para o Egito. O caminho através da violência só levará a uma grande instabilidade. O mundo está olhando para o Egito e está muito preocupado”.

No dia 3 de julho, o Exército anunciou que Mohamed Mursi, eleito um ano antes, não era mais presidente do Egito. O golpe veio depois de dias de protestos contra o governo do membro da Irmandade Muçulmana, que não conseguiu resolver os problemas na economia e ainda tentou usar a democracia para acabar com a democracia. Depois da deposição, Mursi foi preso – e assim permanece, em local desconhecido. Membros da irmandade também foram detidos. Seus apoiadores, no entanto, não reconheceram o governo interino e passaram a exigir a volta de Mursi ao poder.

(Com agência Reuters)