Escândalo derruba secretário e é mais uma dor de cabeça para Obama

Falhas em atendimento médico a ex-combatentes resultaram em avalanche de críticas à administração democrata

Um escândalo envolvendo os serviços médicos destinados a heróis de guerra nos Estados Unidos derrubou nesta sexta-feira o secretário para Assuntos dos Veteranos, Eric Shinseki. Os problemas envolvem atrasos no atendimento a ex-combatentes que eram ocultados por funcionários e registros falsificados nos hospitais supervisionados pela pasta. Um documento divulgado nesta semana indicou que veteranos em busca de atendimento no Arizona esperavam, em média, 115 dias por uma consulta inicial, cinco vezes mais do que o relatado pela administração da unidade, que pretendia mascarar dados sobre desempenho. No centro médico de Phoenix, 1.700 pacientes não apareciam nas listas de espera por consultas.

A saída de Shinseki ocorre depois que um crescente número de congressistas, tanto democratas como republicanos, além de grupos de defesa de veteranos, passaram a pedir a cabeça do secretário. O presidente Barack Obama disse ter aceitado a renúncia depois de ter conhecimento das descobertas iniciais da investigação de denúncias de abusos que inicialmente restringiam-se a Phoenix, mas depois foram identificadas também em outras unidades do país.

Depois de reunir-se com o secretário, o presidente disse que aceitava a renúncia “com grande pesar”. Acrescentou que Shinseki, um general de quatro estrelas ferido no Vietnã, “trabalhou duro para investigar e identificar os problemas com o acesso à assistência médica”. “Mas, como ele me disse pela manhã, a pasta precisa de uma nova liderança para lidar com isso. E ele não quer ser uma distração. Nós não temos tempo para distrações. Precisamos resolver o problema”.

Sloan Gibson, que ocupava o cargo de vice-secretário há apenas três meses, passará a comandar a área interinamente, ao lado de Rob Nabors, secretário-geral adjunto da Casa Branca e homem de confiança do presidente, que foi incumbido de realizar uma auditoria no sistema.

A dor de cabeça de Obama com o programa de assistência a veteranos teve início há pouco mais de um mês e foi sendo agravada pela proximidade com as eleições parlamentares de outubro. Consciente do risco político de ser acusado de maltratar ex-militares, o presidente teve de demitir o secretário, a quem considerava amigo pessoal.

“Um sacrifício tinha de ser feito – e Obama entendeu isso. Shinseki tinha de ir – não somente porque era o que os políticos de Washington queriam, mas porque as pessoas afetadas pelos erros da secretaria precisavam de alguma prova de que pessoas do topo estavam sendo responsabilizadas”, diz um artigo do Washington Post.

Em abril, a secretária de Saúde, Kathleen Sebelius, também deixou o cargo depois do catastrófico lançamento do Obamacare, carro-chefe da reforma da saúde promovida pelo presidente. Sebelius, no entanto, sobreviveu bem mais tempo no posto. Para o Washington Post, o que contou no caso da secretária foi o fato de a crise ter estourado no final de 2013, um ano não eleitoral e atingir uma questão que já estava sendo politizada desde seu nascimento. “Obama podia – e, para o bem de seu legado político, precisava – manter Sebelius no cargo até que o heathcare.gov começasse a funcionar sem problemas e ela pudesse ser retirada com boas notícias”, avaliou o jornal. “Obama não podia se dar esse luxo com Shinseki dado o momento em que o escândalo estourou e sua natureza”.

A saída do secretário para Assuntos dos Veteranos, no entanto, não livra o democrata de críticas. O presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, disse que a renúncia “não absolve o presidente de sua responsabilidade de intervir e fazer as coisas funcionarem para nossos veteranos”.

O Politico, site noticioso de Washington, destacou que “a situação se mostrou particularmente problemática para o presidente, que fez da assistência aos veteranos uma prioridade em sua campanha em 2008 e um tema central de sua presidência desde então”. “Ele foi pego, depois de cinco anos e meio, admitindo que seus esforços foram uma decepção – que ele foi ou mal informado ou pouco informado sobre como a realidade estava longe de suas expectativas”.

Imprensa – Shinseki não foi a única baixa na equipe nesta sexta-feira. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, que ocupava o posto desde 2011, também anunciou sua saída. Ele deverá deixar o cargo em meados de junho e será substituído pelo vice-secretário de imprensa, Josh Earnest, que trabalha para Obama desde as eleições de 2008.

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Uma semana turbulenta para o democrata, que também foi alvo de muitas críticas depois do discurso sobre política externa realizado na quarta-feira na Academia Militar de West Point. Até mesmo o New York Times juntou-se aos críticos e escreveu em editorial que o aguardado discurso não atendeu às expectativas, foi pouco inspirador, não apresentou impulso estratégico e não deve acalmar seus detratores.

Entre outras coisas, o presidente afirmou que os Estados Unidos “poucas vezes foram tão fortes em relação ao restante do mundo”. E que os EUA “são a única nação indispensável”.

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(Com agências Reuters e France-Presse)