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Egito abre caminho para transição caótica entre distúrbios e militares

Susana Samhan.

Cairo, 18 mai (EFE).- As recorrentes explosões de violência e a controvertida gestão da Junta Militar complicaram o caótico processo de transição no Egito, que começou após a revolução de 2011 e que agora passará a uma nova etapa com a eleição de um presidente civil.

Os egípcios dizem que saíram às ruas para derrubar o regime de Hosni Mubarak e recuperar a dignidade. No entanto, mais de um ano após sua renúncia, a mudança quase não pode ser notada no cotidiano e a população acompanha, muitas vezes resignada, um processo político repleto de surpresas.

Em apenas 15 meses, o Egito teve três governos transitórios, um plebiscito constitucional, eleições legislativas, o julgamento de Mubarak, criou e dissolveu uma Assembleia Constituinte e viu como os antes ilegais Irmãos Muçulmanos emergiram como grande força política do Parlamento.

Tudo isso salpicado por situações que beiraram o grotesco, como o fato de que hoje o Egito não tem uma nova Constituição devido às divisões políticas, motivo pelo qual é provável que o futuro presidente não conheça suas prerrogativas.

Ou ainda o comparecimento de Mubarak, em pijama e deitado em uma maca, perante o tribunal que o julga e que deverá ditar sua sentença no início de junho.

E, como se não bastasse, os pleito legislativos, realizados entre novembro de 2011 e fevereiro deste ano, que se desenvolveram em processo faraônico no qual, apenas para a votação à Câmara Baixa, foram necessárias três rodadas de dois turnos – com dois dias de duração cada uma.

Apesar dos avanços, durante todo este tempo o país pareceu estar sempre à beira do abismo, ao que contribuiu a discutida atuação da Junta Militar que governa o país desde a renúncia de Mubarak, além dos frequentes episódios de violência.

Raro foi o mês que não foi testemunha de confrontos entre manifestantes, agitadores e as forças da ordem – e até mesmo entre torcedores de futebol -, que causaram centenas de mortos e fomentaram um ambiente de contínua instabilidade.

Diante dos distúrbios, o Conselho Supremo das Forças Armadas, principal autoridade do país, se recusou a assumir responsabilidades e optou por acusar ‘terceiros’ que conspiravam contra o Estado.

Este tipo de reação, unido ao fato de os generais da Junta Militar serem companheiros de armas de Mubarak e ao aumento exponencial dos julgamentos militares para civis, fazem com que muitos egípcios considerem os militares como ‘os vilões da história’.

Também não ajudaram a melhorar a imagem da Junta as dúvidas que existem sobre o papel que desempenhará quando houver um presidente, apesar de terem reiterado que após o pleito voltará aos quartéis e cederá o poder a um chefe de Estado civil antes de 30 de junho.

Na falta de um presidente, a principal autoridade civil é o chefe do Parlamento, o islamita Mohammed Saad Katatni, dos Irmãos Muçulmanos, mas a capacidade de trabalho desta instituição ficou enfraquecida pelas desordens com o Executivo interino e as diferenças entre islamitas e liberais.

Sob estas disputas subjaz o modelo de Estado que cada partido quer para o futuro Egito, um país conservador onde há um ano e meio era impossível prever que o onipresente Partido Nacional Democrático de Mubarak desapareceria e que os islamitas se tornariam maioria em um Parlamento eleito democraticamente.

Cada vez ficam mais longe os tempos em que uma manifestação podia considerar-se bem-sucedida com a presença de centenas de pessoas, porque agora são dezenas de milhares os que respondem às convocações de maior escala.

E, se a transição egípcia se caracterizou por algo, foi pelos protestos pacíficos, que quase todas as sextas-feiras tiveram como epicentro a simbólica Praça Tahrir do Cairo.

Tahrir e suas imediações são o símbolo da revolução, mas também poderiam ser uma metáfora da situação atual do país: cercada pelos muros erguidos em torno dos edifícios governamentais próximos, nela convivem os cartazes reivindicativos com a paralisia causada pelo caos circulatório. EFE