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Danielle Mitterrand, uma primeira-dama militante e solidária com os indígenas

Javier Albisu.

Paris, 22 nov (EFE).- Após uma vida de compromisso com os direitos humanos e marcada pela militância de esquerda, na qual defendeu a voz dos povos indígenas latino-americanos, curdos e saaráuis, Danielle Mitterrand, viúva do ex-presidente francês François Mitterrand, morreu na madrugada desta terça-feira em Paris, aos 87 anos.

Antiga enfermeira da Resistência Francesa, o ativismo político dessa mulher ficou sintetizado na carinhosa recepção que em 1995 e diante das câmeras de televisão dedicou a Fidel Castro na primeira visita do líder cubano a Paris.

Aquele polêmico abraço entre dois amigos resumia o espírito livre de uma mulher que, no dia seguinte a vitória eleitoral de seu marido nas eleições presidenciais de 1981, prometeu não abandonar sua militância.

Danielle não deixou de cumprir com sua palavra. Em 1986, criou a fundação France Libertés para defender os direitos humanos e a autodeterminação das minorias étnicas e transformou a organização em uma plataforma com a qual manteve um vínculo especial com a América Latina.

Um dos primeiros projetos da France Libertés foi a construção de um hospital em El Salvador. Ao longo de sua vida, Danielle renovou constantemente sua simpatia pelo continente, defendeu a Amazônia e apoiou a causa do subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, que comandou o levante armado no estado mexicano de Chiapas, em 1994. Ela lutou também por uma solução pacífica aos conflitos armados em países como a Colômbia.

Emocionado por sua morte, o Partido Socialista lembrou ‘sua grande influência moral em ajudar aos desamparados por todo o mundo, e defender os direitos humanos nos lugares mais esquecidos do planeta’.

Um profundo compromisso humanitário que também recebeu a homenagem do atual presidente da França, Nicolas Sarkozy, que se referiu a Danielle como uma ‘mulher que não abdicou nunca de seus valores e continuou os combates que considerava justos até o limite de suas forças’.

Esse espírito livre e inconformista da viúva de Mitterrand, que indignaram frequentemente a classe política francesa, esteve a ponto de custar sua própria vida em 1992, quando, no Curdistão iraquiano, escapou de um atentado com carro-bomba.

Esse atentado ocorreu quando ainda era primeira-dama, posição que ocupou durante 14 dos 51 anos de casamento com François Mitterrand. Foi uma época na qual se manteve discreta em sua vida pessoal, mas muito ativa politicamente, demonstrando que ‘podia ter sua liberdade de pensamento e de expressão’, lembrou seu sobrinho e atual ministro de Cultura, Frédéric Mitterrand.

A viúva do único chefe de Estado socialista da Quinta República francesa morreu no hospital Georges Pompidou de Paris e será enterrada no próximo sábado em Cluny, no leste da França. Ela havia sido internada quatro dias antes para se tratar de uma anemia.

Foi para essa cidade que sua família se mudou durante a Segunda Guerra Mundial, depois que seu pai perdeu o cargo de diretor de um colégio ao se negar a denunciar as crianças e professores judeus da instituição ao Governo colaboracionista de Vichy (1940-1944).

É também o local onde conheceu um homem procurado pela Gestapo (polícia secreta de Adolf Hitler), conhecido como ‘capitão Morland’, cujo verdadeiro nome era François Miterrand, com quem esteve casada de 1944 até sua morte, em 1996.

Por sua mão chegou ao Palácio do Eliseu e junto com ele enfrentou também momentos difíceis. Em 1994, por exemplo, a imprensa revelou que o chefe de Estado tinha uma filha ilegítima, Mazarine, história que o líder manteve em segredo durante anos.

Mãe de Pascal, Jean-Christophe e Gilbert Mitterrand, autora de obras como ‘En toutes libertes’ (1996) e ‘Le Livre de ma mémoire’ (2007), Danielle Mitterrand (Verdun, 1924 – Paris, 2011) manteve seu enérgico estilo combativo até os instantes finais de sua vida.

Após uma primeira internação em setembro por problemas respiratórios, continuou trabalhando para comemorar em outubro o 25º aniversário da France Libertés, que tem estatuto consultivo nas Nações Unidas. EFE