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Damasco diz ter frustrado atentado em dia de ataque a manifestantes

Dezenas de milhares de sírios desafiaram nesta sexta-feira as forças de segurança para manifestar sua oposição ao regime de Bashar al-Assad, que indicou ter frustrado “um atentado suicida” em Aleppo, no dia seguinte a um duplo atentado devastador na capital.

Na frente diplomática, com o intuito de aumentar a pressão sobre Damasco que reprime a onda de contestação com violência, a União Europeia vai adotar nesta segunda-feira novas sanções congelando os bens de empresas e de pessoas consideradas, em sua maioria, fontes de financiamento do regime.

No terreno, as forças de segurança atiraram em manifestantes em Tadamone, bairro de Damasco tradicionalmente hostil ao regime, deixando cinco feridos, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) e militantes.

As tropas do governo também abriram fogo contra manifestantes em Hama (centro), em Aleppo (norte), onde um manifestante foi morto, e em Hassaka (nordeste), onde as pessoas responderam jogando pedras nos soldados, de acordo com as mesmas fontes.

Apesar uma mobilização massiva do Exército em diversas cidades e localidades, dezenas de milhares de manifestantes saíram às ruas após as orações de sexta-feira para exigir a queda do regime e acusar o poder de ter praticado os atentados de Damasco na véspera para abafar a sua revolta.

“Nossa revolução não tem nada a ver com os atentados terroristas do regime”, estava escrito em um cartaz exibido por manifestantes na cidade litorânea de Jableh, enquanto governo e oposição rejeitam a responsabilidade pelos ataques que deixaram na quinta-feira 55 mortos e 372 feridos.

Os carros abarrotados com “mais de uma tonelada de explosivos”, segundo o poder, explodiram à uma hora em ponto diante de um prédio da Segurança no bairro de Qazzaz, e semearam caos e desolação. A maior parte das vítimas era da polícia, segundo o OSDH.

Nesta sexta-feira, a televisão estatal anunciou que as autoridades tinham impedido um novo “atentado suicida” em Aleppo. A TV indicou que o terrorista suicida havia sido morto “antes que pudesse praticar seu crime terrorista”.

Para o regime, que considera os rebeldes como “terroristas” e não reconhece a contestação, esses atentados são a prova de que a Síria é alvo de um “complô terrorista” financiado no exterior.

Um militante baseado em Aleppo, Mohammad al-Halabi, afirmou, entretanto, à AFP que não era “do interesse do Exército Sírio Livre (rebeldes) praticar ataques nesta sexta-feira”, tradicional dia de manifestações contra o regime desde o início da revolta, em março de 2011.

“O regime tenta fazer as pessoas acreditarem que a Al-Qaeda está infiltrada aqui, mas isso é falso”, acrescentou, no momento em que milhares de pessoas protestavam na cidade pedindo uma intervenção estrangeira contra o regime.

Os rebeldes também negaram qualquer envolvimento no duplo atentado de Damasco.

Segundo o Conselho Nacional Sírio (CNS), principal coalizão oposicionista, é o regime que mantém uma relação “muito forte” com a Al-Qaeda e recorre a “uma nova técnica, o terrorismo” para sabotar o plano de saída da crise do emissário Kofi Annan.

De acordo com o OSDH, 938 pessoas, sendo 662 civis, foram mortas em episódios de violência desde a instauração da trégua, que entrou tecnicamente em vigor em 12 de julho.

Nesta sexta-feira, 11 pessoas no total, sendo 10 civis, morreram em todo o país, incluindo quatro em Hama (centro) e uma criança de 11 anos abatida por um franco-atirador em Deraa (sul), segundo o OSDH.

Segundo a agência oficial Sana, três membros da escola militar em Homs (centro) e um membro dos serviços de segurança foram mortos a tiros por um “grupo terrorista”.

O Conselho de Segurança da ONU pediu ao governo e à oposição “o fim de qualquer forma de violência armada” em conformidade com o plano Annan, enquanto o papa Bento XVI expressou “sua proximidade e sua emoção” após os atentados.

No momento em que a missão de observadores da ONU não consegue fazer com que a trégua seja respeitada, a escalada da violência, classificada de “perigosa” pelo chefe da Liga Árabe, Nabil al-Arabi, aproxima a Síria um pouco mais da guerra civil, segundo analistas.

Segundo o especialista Joshua Landis, o enfraquecimento do regime aumenta também o risco do “desenvolvimento de grupos radicais” no país.

A Frente Al-Nosra, um grupo extremista que já reivindicou vários atentados na Síria, afirmou nesta sexta-feira em um comunicado ter praticado dois atentados no dia 5 de maio em Damasco, deixando 24 mortos no total. O OSDH indicou três feridos, todos soldados.

A violência deixou mais de 12.000 mortos depois de março de 2011, em sua grande maioria civis mortos na repressão, segundo o OSDH.