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Colombianos estão céticos sobre proposta de diálogo das FARC

A proposta de diálogo direto oferecida pelo novo chefe da guerrilha das Forças Amadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Timoleón Jiménez (Timochenko), ao presidente Juan Manuel Santos, enfrenta grande ceticismo entre os colombianos, depois do assassinato, em novembro, de quatro reféns desse grupo rebelde, segundo analistas.

Na segunda-feira à noite, Timochenko publicou uma mensagem em que propôs a Santos retomar a agenda do último processo de paz, que aconteceu em uma área desmilitarizada de 42.000 km na região de Caguán e fracassou, em 2002.

O conflito armado de quase meio século na Colômbia “não terá solução enquanto nossas vozes não forem ouvidas. Sem mentiras”, escreveu o líder guerrilheiro em sua mensagem.

Mas nesta terça-feira, Santos respondeu de forma contundente. “Não queremos mais retórica, o país pede ações claras de paz. Que esqueçam um novo Caguán”, escreveu o presidente em sua conta no Twitter.

Para o cientista político Alejo Vargas, catedrático da Universidade Nacional, com sua mensagem, Timochenko busca “reivindicar a intencionalidade política” da guerrilha.

“Mas a referência aos diálogos de Caguán é a pior coisa que poderia acontecer a ele”, disse à AFP, ao evocar que a partir do fracasso dessa experiência, os sucessivos governos de Álvaro Uribe (2002-2010) e Santos adotaram a estratégia de buscar a derrota militar da guerrilha.

Santos esteve à frente das principais operações contra os chefes das Farc. Em 2008 era ministro da Defesa quando ordenou o bombardeio ao acampamento do então número dois da guerrilha, Raúl Reyes, morto nessa operação.

Em 2010, já como presidente, Santos ordenou a ação militar que liquidou o número dois das Farc, Jorge Briceño (‘Mono Jojoy’), e em 2011 conseguiu abater o líder máximo da guerrilha, Alfonso Cano.

“Se houvesse alguma tentativa real de aproximação seria reservada e não com comunicados”, afirmou Vargas.

Camilo Gómez, que foi comissário de paz do ex-presidente conservador Andrés Pastrana durante a mesa de Caguán, declarou que, antes de pensar em um diálogo, “o primeiro ponto é a suspensão do sequestro e de todas as atividades violentas”.

“Toda essa dialética de Timochenko não serve se não houver um fato concreto”, enfatizou.

Um pedido semelhante foi feito pelo presidente do esquerdista Polo Democrático Alternativo, Jaime Dussán, que sustentou que “é urgente e necessário que a guerrilha transmita mensagens e uma delas é a libertação de todos os sequestrados”.

Para León Valencia, diretor da ONG Novo Arco-íris, que analisa o conflito armado colombiano, a morte há um mês e meio dos quatro sequestrados das Farc “coloca um véu de pessimismo” sobre qualquer proposta de negociação.

Contudo, sustentou que “o governo de Santos deve examinar com lupa as palavras de Timochenko, com quem acredito que tem uma oportunidade de uma interlocução direta”.

“O comunicado mostra um sentimento de desespero e de uma situação sem saída. Timochenko busca uma alternativa arriscando-se em uma aposta pessoal”, disse Valencia à AFP.

Timochenko, cujo verdadeiro nome é Rodrigo Londoño, foi nomeado líder das Farc em 5 de novembro, um dia após a morte de Alfonso Cano em uma operação militar.

O presidente Santos já indicou, em várias ocasiões, que está disposto a iniciar um processo de negociação de paz com as Farc, mas quando o grupo armado libertar os militares e policiais sequestrados, suspender o recrutamento de menores e parar com os atentados.

As Farc, fundadas há quase meio século, têm atualmente entre 8 mil e 9 mil combatentes, segundo o ministério colombiano da Defesa. Desde 2008 já libertaram de forma unilateral 20 reféns, mas não pararam com a prática de sequestro.