Censura chavista se volta contra humorista venezuelano

Apresentador de talk show perde programa por “pressões externas”

(Atualizado em 12/06 às 15h06)

Se na Venezuela já não havia espaço para a liberdade de expressão, imagine para o humor. Luis Chataing, um humorista que apresenta um popular talk show televisivo do país, anunciou que seu programa foi tirado do ar por causa de “pressões externas”. Embora não tenha culpado ninguém, ficou claro que a tal “pressão” veio do governo do presidente Nicolás Maduro, que vem intensificando a censura no país.

Nesta quarta-feira, Chataing afirmou que pode sair da Venezuela e eventualmente trabalhar em alguma emissora estrangeira. Seu programa, o Chataing TV, foi transmitido pela última vez na segunda-feira.

De acordo com o jornal espanhol El Pais, pesou sobre Chataing a relação delicada que seu canal, o Televen, mantém com o governo. A emissora está longe de fazer oposição, e até retransmite alguns programas produzidos pelos chavistas para satisfazer o governo – uma postura adotada para evitar que a concessão não seja cassada, como aconteceu com a emissora oposicionista RCTV em 2007. A Televen é controlada pelo empresário Omar Camero Zamora, que nos anos 80 foi aliado do ex-presidente Jaime Ramón Lusinchi (1924-2014).

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Chataing declarou que Zamora não teve nada a ver com sua saída, o que alimentou a especulação de que o governo chavista possa estar pressionando o empresário para que ele venda seu canal para algum chavista, como já aconteceu com outros veículos de comunicação do país.

Em uma entrevista ao jornal El Universal, Chataing revelou que a rede vinha sofrendo pressão do governo desde o começo do ano, justamente na época em que estava negociando a renovação da concessão. “Ali ocorreu um primeiro puxão de orelha e eu me comprometi a ter um pouco mais de tato com Nicolás Maduro”, disse Chataing, constatando que a atitude não foi suficiente para saciar os chavistas.

O humorista não era uma figura abertamente hostil ao governo, mas se tornou alvo dos chavistas ao convidar figuras da oposição para seu programa, como o governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles. Chataing também destoava do tom agressivo da programação oficial das TVs chavistas ao abordar de maneira mais cuidadosa alguns assuntos, como a onda de protestos que vem sacudindo o país. Em fevereiro, ele chegou a falar no ar o que Maduro deveria fazer para apaziguar os ânimos. Entre as propostas estava a melhoria das condições de vida da população – um tom muito diferente do triunfalismo dos porta-vozes do chavismo, que afirmam que tudo está bem no país. Por causa dessas “provocações” o programa já havia sido ameaçado de ser tirado do ar no auge dos protestos. Na ocasião, Chataing chegou a afirmar no final de uma transmissão: “Não tenho certeza se voltaremos ao ar amanhã ou depois”.

O jornal El Universal especulou que a causa imediata da queda de Chataing pode ter sido um uma piada sobre “como fabricar provas” que ele levou ao ar recentemente. No caso, um quadro que mostrava como ele seria incriminado como o autor de um plano para roubar a caneta de um colega de trabalho. Mas a piada, aparentemente inofensiva, foi ao ar justamente no momento em que o governo Maduro vem acusando – sem provas – opositores de conspirarem para derrubar o chavismo e até mesmo de planejar matar o presidente.