Annan confia em alcançar um cessar-fogo na Síria até quinta-feira

Ilya U. Topper.

Istambul, 10 abr (EFE).- O enviado especial das Nações Unidas e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, reiterou nesta terça-feira a vigência de seu plano de paz, que prevê um cessar-fogo a partir de quinta-feira e que continua contando com o apoio da Turquia, apesar da crescente tensão na fronteira.

‘É muito breve para dizer que o plano falhou: temos até as 6h no horário local (meia-noite em Brasília) do dia 12 de abril para calar as armas’, disse Annan na cidade de Hatay (extremo sul da Turquia), embora tenha admitido que o plano ‘não foi aplicado segundo o previsto’.

Já o vice-primeiro-ministro turco, Besir Atalay, reiterou o apoio de Ancara ao plano de Annan, enquanto expressou sua esperança de que o presidente sírio, Bashar al Assad, cumpra com seu compromisso de aplicar um cessar-fogo até quinta-feira.

Em todo caso, ele acrescentou que caso a Síria não colabore, ‘será responsabilidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas tomar as medidas necessárias’.

Já o primeiro-ministro turco, o islamita moderado Recep Tayyip Erdogan, em viagem oficial à China, denunciou nesta terça-feira ‘uma clara violação da fronteira’ por parte da Síria.

Ele fazia referência ao tiroteio registrado na segunda-feira frente ao campo de refugiados sírios situado na passagem fronteiriça de Öncüpinar, na província turca de Kilis.

No incidente ficaram feridas pelo menos sete pessoas, dois cidadãos turcos e cinco sírios, por causa de ‘balas perdidas’, segundo indicaram as autoridades turcas.

Entretanto, vários ativistas sírios consultados pela Agência Efe afirmaram que o tiroteio, dirigido diretamente contra o campo, causou além disso a morte de dois refugiados que se encontravam dentro do recinto de casas pré-fabricadas.

Isso contrasta com a versão oficial turca de que dois mortos já teriam chegado feridos da Síria.

Enquanto isso, o ministro de Relações Exteriores sírio, Walid Mualim, acusou a Turquia de fornecer armas aos rebeldes e permitir suas incursões na Síria, motivo pelo qual Damasco não poderia cumprir com sua parte do plano de paz.

A tensão sobe, mas tudo indica que as duas partes manterão um incômodo equilíbrio pelo menos até quinta-feira, embora o ministro de Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, tenha interrompido nesta terça-feira sua viagem à China, onde acompanhava Erdogan, e voltado à Turquia para se inteirar sobre os incidentes na fronteira.

Enquanto isso, Annan viajou ao Irã para fazer um último esforço e obter apoios para sua missão de mediador, com a esperança de cumprir o prazo do cessar-fogo e convencido de que seu plano também recebe o apoio da China, segundo afirmou nesta terça-feira.

A oposição política a Assad, representada pelo Conselho Nacional Sírio (CNS), também mantém seu apoio ao plano de Annan, segundo expressou o presidente deste organismo, Burhan Ghaliun.

O valor desta declaração é incerto, já que apesar de manter uma fluente coordenação, o CNS não controla de fato as guerrilhas agrupadas sob o nome de ‘Exército Sírio Livre’.

Entre os ativistas e milicianos, muitos acham há muito tempo que apenas as armas podem derrubar Assad.

Enquanto isso, os senadores dos Estados Unidos, John McCain (republicano), e Joe Lieberman (próximo aos democratas), visitaram nesta terça-feira o mesmo campo de refugiados por onde horas antes Annan havia passado.

Os dois senadores expressaram sua convicção de que as negociações com o Governo de Bashar al Assad são inúteis e que a melhor via para acabar com o conflito é munir com armas os grupos rebeldes que combatem contra as tropas de Damasco.

‘Não se confundam: isto é uma guerra’, disseram os senadores em uma declaração pública, segundo o portal de notícias turco ‘Son Dakika’.

‘A diplomacia falhou com Assad e continuará falhando enquanto ele pensar que pode esmagar a oposição militarmente. E agora pode, porque usa tanques e helicópteros’, acrescentaram.

McCain e Lieberman apostaram em sua declaração por proporcionar armas ao Exército Sírio Livre (ESL), as siglas sob as quais se agrupam os desertores das forças armadas que agora combatem contra seus antigos companheiros. EFE