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A íntima história do estupro e da guerra

Estudioso revela que os estupros coletivos na Líbia são apenas mais um episódio de uma longa e triste história que começou com a espécie humana

Bem poucos animais se reúnem para matar membros de sua própria espécie como os humanos. Mas nosso parente genético mais próximo, o chimpanzé, guerreia e estupra. Isso sugere que a combinação guerra+estupro data dos primeiros dias de nossa espécie”

Thomas Hayden resistiu à ideia o quanto pôde. Mas depois de cinco anos investigando a história, evolução e psicologia da guerra e do estupro, a tese se impôs diante dele: todo homem é, em potencial, um estuprador. “Como homem, foi muito difícil admitir”, diz. “Mas a arqueologia e a antropologia mostram que o estupro e a guerra datam dos primeiros dias de nossa espécie. O sexo forçado foi, inclusive, uma das principais causas das primeiras batalhas entre tribos”.

Em entrevista ao site de VEJA, o autor de Sex and War: How Biology Explains Warfare and Terrorism and Offers a Path to a Safer World (Sexo e Guerra: como a Biologia explica a guerra e o terrorismo e oferece o caminho para um mundo mais seguro, Benbella Books) revela que os estupros coletivos praticados pelas tropas do ditador Muamar Kadafi na Líbia são apenas mais um episódio de uma longa e triste história que começou com o surgimento da espécie humana.

Quando os homens começaram a estuprar em guerras? A resposta é bem deprimente. Todas as evidências da arqueologia e da antropologia indicam que o estupro tenha começado junto com a guerra. O estupro era, inclusive, um dos principais motivadores das primeiras guerras. Nas estruturas sociais rígidas das primeiras “tribos” da Pré-História, eram os líderes quem mantinham relações sexuais com a maioria das mulheres do grupo. E os jovens de pequenas tribos só podiam procriar quando “conquistavam” fêmeas de outras tribos em batalhas. Então, as primeiras guerras foram, na verdade, estupros coletivos. A história vai ainda mais longe se pensarmos em evolução. Bem poucos animais se reúnem para matar membros de sua própria espécie como os humanos. Mas nosso parente genético mais próximo, o chimpanzé, guerreia e estupra. Isso sugere que a combinação guerra+estupro data dos primeiros dias de nossa espécie.

E por que os estupros prosseguiram quando não havia mais a necessidade de procriação? Durante o desenvolvimento das primeiras civilizações na Grécia, Roma e Egito, o estupro passou a ser visto como um direito dos guerreiros, um “prêmio de guerra”. E essa ideia só foi abandonada bem recentemente. Começou a perder força no final da Idade Média, e foi combatida durante o Iluminismo. Durante o século XIX, a condenação ao estupro em situações de guerra passou a ser formalizada em leis, regulamentos e, finalmente, entrou na cultura dos próprios soldados. Houve algum momento de trégua nessa relação entre estupro e guerra? Não. Toda guerra teve casos de violência sexual. Mas existe uma grande diferença entre atos de indivíduos e estupros como estratégia organizada por generais. Neste último caso, ele é usado como uma arma para alimentar terror e desmoralizar o inimigo e fazê-lo se render para salvar suas mulheres. Essa tática surgiu na metade dos anos 1800, porém, durante o século XX, foi sendo menos e menos usada. As pessoas cometem o erro de achar que o estupro em massa acontece principalmente em nações empobrecidas como o Congo. Isso não é verdade. Estupro foi usado como estratégia de guerra na Bósnia. E na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, apesar de não ser uma tática oficial, os abusos sexuais também aconteceram em larga escala. O mesmo vale para o Vietnã. Quais foram os piores casos de estupro como estratégia de guerra? Uma lista curta dos mais apavorantes dos últimos 100 anos incluiria: o episódio conhecido como “O estupro de Nanking”, quando os japoneses invadiram a China; a Guerra de Independência de Bangladesh do Paquistão; a Guerra da Bósnia; e a recente guerra civil do Congo onde homens, mulheres e até bebês têm sido estuprados em massa. Em algumas sociedades a mulher violentada é vista como símbolo de desonra. Na Líbia, por exemplo, algumas tribos matam-nas mais tarde. Sentimentos e atitudes deste tipo sempre existiram? Meu colega e co-autor de meu livro, Malcolm Potts, passou muitas décadas trabalhando com tratamento psicológico de vítimas de estupro de diversas sociedades islâmicas. Ele chegou à conclusão de que o estupro de uma mulher é visto como o fracasso de seus parentes homens em protegê-la. Há duas consequências devastadoras desse ponto de vista: 1) as mulheres e suas famílias raramente denunciam o incidente porque acreditam que se trata de uma desonra muito grande; 2) existe a visão de que a única maneira de livrar a família dessa humilhação é matar a mulher. Mas já há mulheres muito corajosas se posicionando contra essas tradições no mundo islâmico. Por que investir em estupros como estratégia em vez de ataques fatais? A psicologia por traz disso é a seguinte: se você mata alguém no campo de batalha, o transforma em herói. E a honra que vem disso faz seus concidadãos mais fortes. Mas o estupro só traz humilhação. Você não acaba com vidas, destrói a alma de uma sociedade. Por que homens que normalmente seguem a lei se tornam estupradores durante a guerra? Todas as evidências nos apontam que, por natureza, todos os homens são estupradores em potencial. É a nossa cultura, nossas leis, ética e crenças que nos impedem de sê-lo de fato. Mas a mais importante dessas normas sociais é primeira ser suspensa durante a guerra: não matar. Isso afeta a psicologia humana profundamente. E, como o código ético já foi quebrado uma vez – em seu ponto mais crucial – se torna muito mais fácil quebrá-lo de novo. Como impedir que estupros aconteçam? As chances diminuem muito quando os Exércitos são bem treinados e regulamentados. E, principalmente, temos que reconhecer que o estupro é algo que está profundamente incrustado em nossa natureza, sempre esteve conosco como espécie. Se não admitirmos isso, não tomaremos as medidas necessárias para prevenir que aconteça. E as mulheres têm também um papel importante, e devem revelar o que houve com elas, para que haja discussão. E isso, na minha opinião, demanda muito mais coragem do que pôr uma arma no ombro e ir à guerra…