Conheça a trajetória do ritmo que nasceu no Nordeste e ganhou adeptos pelo país
Em 2005, foi aprovado e sancionado o projeto de lei que criava o Dia Nacional do Forró. A partir de então, 13 de dezembro, data do nascimento de Luiz Gonzaga, passou a ser comemorado como o dia do ritmo em todo o país. Gonzagão ficou eternizado por cantar histórias sobre o sertão nordestino. Suas canções foram regravadas por gente de todo tipo. Como acontece com quase todo gênero musical, o forró ganhou interpretações variadas – das mais tradicionais às mais modernas – e conseguiu sobreviver a todas. De norte a sul do país, crianças, jovens e adultos dançam e se alegram ao som desse ritmo genuinamente brasileiro.
Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu no dia 13 de dezembro de 1912, no município de Exu, sertão de Pernambuco. Aprendeu os primeiros acordes da sanfona de oito baixos com o pai, Januário. Foi embora de casa ainda jovem e ganhou o mundo reproduzindo e recriando as canções que ouvia na infância. Foi o responsável por levar a música nordestina a todos os cantos do país. Gravou cerca de 200 discos em mais de 50 anos e ficou conhecido como Rei do Baião e autor de clássicos como Asa Branca. Morreu no dia 2 de agosto de 1989, aos 76 anos.
Gonzagão inventou o baião, mas também tornou conhecidos ritmos que compõem o forró, como o xaxado, o xote e o arrasta-pé. Foi dele a ideia de unir o agudo do triângulo e o grave da zabumba ao versátil som da sanfona, criando o trio de forró pé-de-serra. Suas músicas falavam do sofrimento de retirantes nordestinos, da seca, da natureza e da vida no sertão, canções que foram regravadas em diversas línguas e em ritmos diferentes. A mais famosa, Asa Branca, ganhou versão em inglês pela voz de Raul Seixas. Paraíba foi traduzida para o japonês. No fim da vida, Luiz Gonzaga se aproximou do filho Gonzaguinha, com quem fez shows até o fim da vida, e com quem canta aqui Pense n'Eu.
Nascida no dia 16 de novembro de 1935, em São Vicente Férrer (PE), Inês Caetano de Oliveira, que adotou o nome artístico Marinês, tinha Luiz Gonzaga como seu padrinho musical. Dona de uma voz forte, foi uma das primeiras mulheres a cantar forró, fazendo escola e inspirando seguidoras como Elba Ramalho. Costumava apresentar-se vestida de cangaceira ao lado do marido, o sanfoneiro Abdias. Juntos, eles abriam os shows de Gonzagão e tornaram-se conhecidos por cantar histórias do Nordeste. Do público, Marinês ganhou o título de Rainha do Xaxado. De Gilberto Gil, o de "Maria Bonita da música brasileira". Morreu no dia 14 de maio de 2007, aos 71 anos.
O paraibano José Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro, teve participação essencial na história do forró, mas sua relação com o samba e o coco também foi bastante intensa. Nascido em Alagoa Grande (PB) no dia 31 de agosto de 1909, era compositor, mas seu maior dom foi o de interpretar com um balanço diferente canções de outros artistas. É dele a versão mais conhecida de Chiclete com Banana, de Gordurinha e Almira Castilho. Por causa dos arranjos ousados que fazia, ficou conhecido como o Rei do Ritmo. Morreu em 1982, em Brasília, aos 62 anos.
Nos anos 80, a produção de Luiz Gonzaga foi revisitada por jovens nordestinos que exaltavam a criação musical de sua terra, mas não queriam deixar de lado as influências da modernidade e fazer uma bela mistura. Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Elba Ramalho reverenciavam o forró de Gonzagão, mas não pararam nele, acrescentando pitadas de MPB, iê-iê-iê e até música caipira às suas canções. Ao longo da carreira, cada um a seu jeito gravou discos em homenagem ao ritmo do Nordeste e também fez escola para as próximas gerações.
Na segunda metade da década de 1990, os universitários de São Paulo estavam descobrindo no forró um ritmo bom de dançar, apesar de as letras fazerem referência a assuntos distantes da realidade daquele público. Ricardo Ramos Cruz, o Tato, era um dos estudantes fascinados por aquela música, mas resolveu que queria fazê-la também, e não só ouvir. Reuniu os amigos Alemão e Dezinho, convidou o sanfoneiro Valdir e montou a banda Falamansa, em 1996. A base seria a mesma dos trios do Nordeste, mas o resultado seria diferente. No lugar de seca do sertão, histórias de retirantes e amores sofridos, as músicas do grupo paulista falavam de alegria, chuva e romances tranquilos, e eram complementadas por um balanço urbano nos arranjos. Estava feita a fórmula do sucesso que conferiu à banda a vendagem de mais de 2 milhões de discos e a mantém na estrada até hoje.
A sanfona às vezes até continua ali, mas o triângulo e a zabumba deram lugar à guitarra, à bateria e ao teclado. As letras também não são muito parecidas com as de antigamente. Nada de seca, sofrimento ou romance. A problemática das canções do que ficou conhecido como forró eletrônico são a traição, o abandono e até histórias sexuais de um casal. O novo estilo ultrapassou milhares de vezes o forró tradicional em volume de público. As festas juninas no próprio Nordeste, nas quais costumava-se ouvir canções de Luiz Gonzaga, foram dominadas pelo ritmo acelerado das músicas – e das dançarinas – de bandas como Mastruz com Leite, Calcinha Preta e Aviões do Forró. Para o sanfoneiro Dominguinhos, ícone do forró pé-de-serra, o estilo eletrônico merece respeito e faz um trabalho importante, porém está longe de ser forró de verdade. “Eles pegaram um pouco da lambada e colocaram uma sanfona para dizer que é forró."
Também nos anos 2000, longe dos holofotes e das grandes gravadoras, um grupo de jovens espalhado pelo centro-sul do país foi aos poucos redescobrindo a cultura nordestina, pesquisando as músicas do tempo de Gonzagão e resolveu fazer do jeitinho que ele ensinou. Triângulo, sanfona, zabumba e nada mais – com algumas exceções que não comprometem o ritmo, como o cavaquinho e o baixo. Com a ajuda do Festival de Forró de Itaúnas, a lista de trios de forró pé-de-serra compostos por jovens das capitais foi aumentando. O trio Dona Zefa, de Campinas, foi um dos que foi mais longe. Em 2009, o grupo fez turnê na Europa, para onde deve voltar em 2011. Como eles, há centenas de outros grupos que, apesar de viverem uma realidade diferente, reproduzem as canções lá do pé da serra nordestino como foram feitas, dando, é claro, um gingado especial de quem vive com o pé do asfalto.