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Trecho de Toda Sua, de Sylvia Day

1

“A gente devia ir até um bar comemorar.” A declaração enfática de meu amigo Cary Taylor, com quem eu dividia um apartamento, não foi nada surpreendente. Ele estava sempre disposto a comemorar, mesmo as coisas mais insignificantes. Sempre considerei isso parte de seu charme.

“Sair pra beber um dia antes de começar num emprego novo com certeza não é uma boa ideia.”

“Vamos lá, Eva.”

Cary sentou no chão da sala do nosso novo apartamento, em meio à bagunça da mudança, e abriu seu sorriso irresistível. Fazia dias que só cuidávamos da arrumação, e ainda assim ele estava lindo. Com seu corpo esguio, cabelos escuros e olhos verdes, Cary era o tipo de homem cuja aparência, quaisquer que fossem as circunstâncias, raramente era algo menos do que incrível. Isso me deixaria com raiva, se ele não fosse a pessoa que eu mais adorava no mundo.

“Não estou dizendo pra gente encher a cara”, ele insistiu. “Só uma ou duas tacinhas de vinho. A gente pega o happy hour e volta pra casa lá pelas oito.”

“Não sei se vou ter tempo.” Apontei para minha calça de ioga e meu top de ginástica. “Depois que eu cronometrar a caminhada até o trabalho, vou pra academia.”

“É só andar depressa e malhar mais depressa.” A expressão de Cary, com as sobrancelhas cuidadosamente curvadas em um arco perfeito, me fez rir.

Nunca perdi a esperança de que seu rosto incrível aparecesse um dia em outdoors e revistas de moda do mundo inteiro. Qualquer que fosse sua expressão, ele era um arraso.

“Que tal amanhã, depois do trabalho?”, ofereci em troca. “Se eu conseguir sobreviver ao primeiro dia, aí sim vamos ter o que comemorar.”

“Combinado. Hoje vou estrear a cozinha nova fazendo o jantar.” “Hã...” Cozinhar era um dos prazeres de Cary, mas não um de seus talentos. “Legal.”

Afastando uma mecha de cabelo que caíra sobre seu rosto, ele me olhou com um sorriso.

“A gente tem uma cozinha de fazer inveja à maioria dos restaurantes.

Não tem erro ali.”

Não muito convencida, eu me despedi com um aceno, decidida a me esquivar da conversa sobre a cozinha. Desci para o térreo de elevador e sorri para o porteiro quando ele abriu a porta pra mim.

Assim que pus o pé para fora, fui envolvida pelos aromas e ruídos de Manhattan, que me convidavam a sair e explorar. Eu não estava apenas do outro lado do país em relação à minha antiga casa em San Diego — parecia estar em outro mundo. Duas metrópoles importantes — uma infinitamente amena e sensualmente preguiçosa, a outra pulsando como um organismo vivo carregado de uma energia frenética. Nos meus sonhos, eu me imaginava em um pequeno e charmoso prédio no Brooklyn, mas, por ser uma boa menina, acabei no Upper West Side. Se não fosse o Cary, eu estaria completamente sozinha em um apartamento enorme que custa por mês mais do que a maioria das pessoas ganha em um ano.

Paul, o outro porteiro, me cumprimentou tirando o quepe.

“Boa noite, senhorita Tramell. Vai precisar de um táxi esta noite?”

“Não, obrigada, Paul.” Bati no chão com os amortecedores do meu tênis de ginástica. “Vou sair pra caminhar.”

Ele sorriu. “Esfriou um pouquinho agora no fim da tarde. O tempo está gostoso.”

“Me disseram pra aproveitar o mês de junho, antes que comece o calor de verdade.”

“Um ótimo conselho, senhorita Tramell.”

Ao me afastar da fachada envidraçada e moderna que de alguma forma não destoava da idade do edifício e da vizinhança, desfrutei da relativa tranquilidade da rua arborizada antes de chegar à agitação e ao trânsito intenso da Broadway. Eu ainda tinha esperanças de me adaptar rapidamente, mas por enquanto me sentia uma falsa nova-iorquina. Eu tinha um apartamento e um emprego, mas ainda não me sentia segura o bastante para me aventurar no metrô, e não tinha me acostumado a acenar ostensivamente para os táxis. Enquanto caminhava, eu tentava não parecer impressionada e atônita, mas era difícil. Havia tanta coisa para ver e experimentar. O estímulo sensorial era atordoante — o cheiro da fumaça dos escapamentos misturado com o da comida dos carrinhos dos ambulantes; os gritos dos camelôs se infiltrando na música dos artistas de rua; a impressionante variedade de rostos, estilos e sotaques; as maravilhas arquitetônicas... E os carros. Minha nossa. O fluxo frenético de carros, sempre grudados uns nos outros, era algo que eu nunca tinha visto na vida.

Havia sempre uma ambulância, uma viatura ou um caminhão de bombeiros tentando romper a torrente de táxis amarelos com o uivo eletrônico de sirenes ensurdecedoras. Fiquei impressionada com os ruidosos caminhões de lixo que se arremessavam em ruas estreitas de mão única e com os entregadores que encaravam a massa compacta de veículos, com prazos rigorosos a cumprir.

Os verdadeiros nova-iorquinos nem reparavam em tudo isso — a cidade para eles era familiar e confortável como um velho par de sapatos. Eles não viam as ondas de vapor escapando dos bueiros e saídas de ar com um encanto carregado de romantismo, nem pareciam notar quando o chão tremia sob seus pés com a passagem do metrô — ao contrário de mim, que sorria como uma idiota e encolhia os dedos dos pés. Nova York era um caso de amor totalmente novo para mim. Eu estava embasbacada e não conseguia esconder.

Tive que me esforçar bastante para manter uma atitude indiferente enquanto me dirigia ao local em que ia trabalhar. Pelo menos em termos profissionais, as coisas estavam acontecendo da maneira como eu queria. Meu desejo era ganhar a vida com base em meus próprios méritos, o que significava começar por baixo. A partir da manhã seguinte, eu seria a assistente de Mark Garrity na Waters Field & Leaman, uma das maiores agências de propaganda dos Estados Unidos. Meu padrasto, o magnata do setor financeiro Richard Stanton, não gostou nada da ideia — na opinião dele, se eu fosse menos orgulhosa, poderia trabalhar para algum amigo dele e colher os benefícios inerentes a esse tipo de proximidade.

“Você é teimosa como seu pai”, ele falou. “Ele vai demorar a vida inteira para conseguir pagar seu financiamento estudantil com o que ganha como policial.”

Esse foi outro motivo de disputa, e meu pai se recusou terminantemente a ceder. “De jeito nenhum outro homem vai pagar pela educação da minha filha”, respondeu Victor Reyes quando Stanton fez sua proposta. Ele ganhou meu respeito com essa atitude. E acho que o de Stanton também, embora ele nunca vá admitir isso. Eu entendia o lado dos dois, porque queria pagar eu mesma pelos meus estudos... mas não teve jeito. Para meu pai, era uma questão de honra. Minha mãe não quis se casar com ele, mas isso não diminuiu sua determinação em agir como pai em toda e qualquer situação.

Como remoer frustrações do passado nunca leva a nada, concentrei-me na tarefa de chegar ao trabalho o mais rápido possível. Decidi cronometrar o trajeto em um horário de pico de uma segunda-feira, e fiquei satisfeita por conseguir chegar ao Crossfire Building, sede da Waters Field & Leaman, em menos de meia hora.

Inclinei a cabeça e segui o contorno do edifício até encontrar o azul do céu. O Crossfire era absolutamente fenomenal — uma torre imponente com um brilho safírico que parecia chegar até as nuvens. Nas entrevistas que fiz ali, vi que o outro lado das portas giratórias ornadas com cobre era tão suntuoso quanto seu exterior, com piso e paredes revestidos de mármore dourado e mesas e catracas de alumínio polido

.Tirei meu novíssimo crachá do bolso da calça e mostrei para os dois seguranças de terno escuro sentados à mesa. Eles me barraram assim mesmo, sem dúvida por eu estar muito malvestida para aquele ambiente, mas depois me deixaram entrar. Após subir os vinte andares de elevador, pude fazer uma estimativa do tempo de viagem de casa até o trabalho. Nada mau.

Eu estava saindo do elevador quando vi uma morena bonita e muito bem arrumada passar pela catraca sem levantar devidamente a bolsa, que ficou enroscada e se abriu, provocando um dilúvio de dinheiro sobre o chão.

As moedas caíram e saíram rolando alegremente — e as pessoas que passavam se esquivavam do caos e seguiam em frente como se nada estivesse acontecendo. Em um gesto de compaixão, eu me curvei para ajudá-la a recolher o dinheiro, junto com um segurança que havia tido o mesmo impulso.

“Obrigada”, ela disse, abrindo um breve sorriso no rosto quase coberto pelos cabelos.

Retribuí o sorriso. “Imagina. Essas coisas acontecem.”

Eu tinha acabado de me agachar para alcançar uma moedinha que fora parar perto da entrada quando dei de cara com um luxuoso par de sapatos oxford, encimado por uma elegante calça preta. Esperei um pouco para que aquele homem saísse do caminho, mas, como ele não se mexia, levantei a cabeça para ampliar meu campo de visão. O terno feito sob medida já era suficiente para deixar meus sinais de alerta ligados, mas era o corpo alto e esguio por baixo dele que o tornava sensacional. Ainda assim, apesar de toda aquela demonstração impressionante de masculinidade, foi só quando vi seu rosto que percebi o que havia de fato diante de mim.

Uau. Simplesmente... uau.

Em um gesto cheio de elegância, ele se agachou bem de frente para mim. Com toda aquela beleza masculina ao alcance dos meus olhos, tudo o que eu podia fazer era encarar. Admirada.

Foi então que o espaço que havia entre nós desapareceu.

Ao olhar para mim, ele mudou... como se um escudo tivesse sido removido de seus olhos, revelando uma força vital esmagadora que me fez perder o fôlego. O magnetismo poderoso que ele exalava se intensificou, transformando-se em uma impressão quase tangível de uma energia vigorosa e inesgotável.

Reagindo puramente por instinto, eu me inclinei para trás. E caí de bunda no chão.

Meus cotovelos latejavam violentamente pelo baque contra o piso de mármore, mas a dor passou quase despercebida. Eu estava mais preocupada em olhar, hipnotizada por aquele homem na minha frente. Seus cabelos de um preto bem vivo emolduravam um rosto de tirar o fôlego. Sua estrutura óssea faria um escultor chorar de alegria, e sua boca de contornos firmes, seu nariz retilíneo e seus olhos azuis intensos lhe conferiam uma beleza selvagem. A não ser pelos olhos ligeiramente estreitados, sua fisionomia denotava uma impassibilidade total. Tanto sua camisa como seu terno eram pretos, mas a gravata combinava perfeitamente com o brilho da íris. Seus olhos eram penetrantes e inquisidores, e estavam pregados em mim. Meu coração começou a bater mais forte; meus lábios se abriram parcialmente com a aceleração da respiração. Seu cheiro era tentador. Não era colônia. Loção corporal, talvez. Ou xampu. O que quer que fosse, era inebriante, assim como ele. Ele estendeu a mão para mim, mostrando suas abotoaduras de ônix e um relógio que aparentava ser caro. Inspirando tremulamente, pus a mão sobre a dele. Minha pulsação disparou quando ele a apertou. Seu toque era como uma onda de eletricidade, que subiu pelo meu braço e arrepiou os pelos da minha nuca. Por um momento ele permaneceu imóvel, com uma ruga preenchendo o espaço entre suas sobrancelhas absurdamente bem desenhadas. “Está tudo bem?” Sua voz era suave e refinada, com um toque de rouquidão que fez meu estômago gelar. Era uma evocação ao sexo. Ao que o sexo tinha de melhor. Por um momento cheguei a pensar que poderia ter um orgasmo só de ouvi-lo falar. Meus lábios estavam ressecados, então passei a língua por eles antes de responder: “Sim”. Ele se levantou com uma notável economia de gestos, puxando-me junto para cima. Continuamos nos encarando, porque eu não conseguia olhar para outra coisa. Ele era mais jovem do que imaginei a princípio. Meu palpite seria menos de trinta, mas seus olhos pareciam muito mais experientes. Implacavelmente inteligentes e afiados. Era como se eu estivesse sendo atraída para ele, como se houvesse uma corda em torno da minha cintura me arrastando de forma lenta mas inexorável em sua direção. Piscando para despertar dessa espécie de delírio, eu o soltei. Ele não era apenas lindo, era... fascinante. O tipo de cara que faz uma mulher querer abrir sua camisa com um único puxão e ver os botões irem abaixo junto com as inibições. Olhei para seu terno civilizado, requintado e absurdamente caro e só consegui pensar em uma trepada violenta, de rasgar os lençóis.

 

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