| Trecho de Som
e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta NOVA
YORK, JULHO DE 1997 De
manhã cedo, atendi o telefone e ouvi a voz inconfundível, em ritmo
acelerado e inglês perfeito: "Good
morning, mister Nelson Motta, here's your good old friend Tim Maia, calling from
room 9-B of the Delmonico's Hotel, Park Avenue, New York City." Que
alegria! Foi a maior surpresa, nem imaginava que ele estivesse na cidade, onde
eu morava havia cinco anos. Não o via desde um espetacular show no Scala,
numa viagem ao Brasil, uns dois anos antes. "Ô
Nelsomotta, eu tô aqui sentado numa cadeira e tomando café numa mesa
tão antiga que estou me sentindo um Dom João VI, porque tudo é
antigaço nesse hotel, mas o fogão está funcionando e você
está convidado a tomar um breakfast e a torrar unzinho comigo. Now!"
Cinco estações de metrô
depois, cheguei à esquina da Park Avenue com a rua 59 e entrei no decadente
Delmonico's, que não vivia mais os seus dias de glória mas ainda
mantinha os pisos de mármore, os janelões e grandes espelhos, as
imensas suítes com cortinas de veludo, paredes forradas de madeira e um
mobiliário escuro e antigo, que davam mesmo um ar de Dom João VI
doidão a Tim Maia comendo um croissant numa cadeirona, atrás de
uma pesada mesa de madeira trabalhada. "Tá
vendo? Agora só me falta escrever com uma pena de ganso", soltou uma
gargalhada e se levantou para me receber. Nos abraçamos e beijamos, celebrando
uma amizade iniciada em 1969, quando ele começava sua carreira e o convidei
a participar do disco de Elis Regina que eu produzia. Quase trinta anos de música,
escândalos e gargalhadas. Ofereceu
logo um baseado de boas-vindas: tinha acionado suas conexões nova-iorquinas
e já estava com três qualidades diferentes de skunk, e ainda tinha
um haxixe paraguaio, coisa de que eu nunca ouvira falar, mas que ele recomendou
muito. Enquanto enrolava um tronco do que chamava de misto-quente, gritou para
sua secretária, na cozinha da suíte: "Adriana,
faz umas torradas e uns ovos mexidos pro meu amigo Nelsomotta e traz mais uma
rodada pra mim. E traz panquecas também. E mel. E maple. E geléia.
Traz tudo." Estava muito feliz
de reencontrá-lo tão alegre e bem-disposto, achei até que
estava um pouco mais magro - embora ainda imenso - do que em nosso último
encontro no Rio. Me contou em detalhes a sua epopéia de três cirurgias
no saco e seu rompimento definitivo com o goró e a brizola; jurou que nunca
mais tinha faltado a um show, que a vida estava dura mas estava boa. Mostrou
fotos e contou histórias hilariantes sobre a viagem que fizera de Miami
a Nova York, cruzando nove estados numa limusine pilotada pelo português
Bonáveres, refazendo o seu itinerário de 36 anos atrás, que
terminara numa prisão na Flórida e na sua deportação
para o Brasil, em 1964. E, passando o braço de urso pelos meus ombros,
mandou Adriana tirar uma foto do nosso encontro, os dois felizes e sorridentes.
Animadíssimo, Tim estava com
55 anos e me parecia razoavelmente saudável - para os padrões Maia
-, muito afetuoso e doidão como sempre. Contou que iria a Tarrytown, a
uma hora de Manhattan, em peregrinação aos lugares onde vivera dos
17 aos 18, lembrou de dramas e comédias de seus cinco anos nos Estados
Unidos, a iniciação na maconha, a primeira prisão, a descoberta
do rhythm-and- blues e do soul, os 19 endereços diferentes onde morou em
Nova York. Entusiasmado com seu estúdio
e seus novos trabalhos, me deu os quatro discos que havia gravado no último
ano e estava lançando pela sua gravadora Vitória Régia -
"a única que paga aos sábados, domingos e feriados depois das
21 horas" -, com uma dedicatória que me comoveu, uma das mais honrosas
que já recebi: "Com o respeito
do Tim Maia." Pô, vindo de
quem não respeitava ninguém, ou quase, era uma condecoração.
Desfrutar de sua amizade e testemunhar sua carreira eram um privilégio:
um incessante espetáculo de grande música e alta comédia,
protagonizado por um personagem único em sua paixão pelo excesso
- de talento, de volume, de peso, de comida, de sexo, de drogas, de amor à
arte, de cafajestice e agressividade, de ternura e generosidade - sintetizada
em seu grito de guerra: "Mais grave!
Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!" Só
consegui sair depois de horas de muita conversa e gargalhadas, entre várias
rodadas de café completo, ovos mexidos e incessante carburação,
me divertindo com histórias que qualquer ficcionista consideraria inverossímeis,
mas eram apenas fatos e acontecimentos corriqueiros do cotidiano de Tim Maia.
Mas que ficcionista seria capaz de criar
um personagem como Tim Maia? E quem acreditaria? |