| Trecho
de Se você gostou da escola
vai adorar
trabalhar, de Irvine Welsh
TREES
A
ex-mulher apareceu na casa da minha mãe com a menina Para tentar deixar
tudo bem claro. Usando a menina feito a porra de uma arma contra mim. É
engraçado como as pessoas mudam com os anos. Examinando Trees do outro
lado da mesa, com aquele olhar desesperado, aqueles gestos meio espasmódicos,
aquelas mãos unidas como se fossem troféus em exibição;
fiquei impressionado com o pouco que eu sentia. Ela era a mulher com quem eu tinha
dormido toda maldita noite, executando acidentes (geralmente felizes, por falar
nisso), durante dezesseis anos. Loucura, mas acho que eu queria sentir alguma
coisa, qualquer coisa, só para pensar que tudo não ti nhá
sido uma merda total de perda de tempo.
Preocupante
também foi ver minha absoluta indiferença espelhada no olhar vago
dela. Trees estava de cabelo curto, tingido no antigo tom castanho, mas a cor
era um pouco forte e profunda demais; na minha opinião, aquilo só
chamava a atenção para o fato de que ela estava envelhecendo. Era
o tipo de penteado com que a Fêmea-em-Questão anuncia para o mundo:
"Eu desisti do fantasma de ser jovem e oficialmente virei minha mãe."
Não
sei se é por perceber o desdém nos meus olhos, mas ela fica oljando
para mim como se eu também fosse um traste velho. Logo eu! Ainda com uma
cintura de oitenta centímetros, mesmo reconhecendo que já ganhei
um bocado de banha. Fiquei pensando que só podia ter havido um ponto qualquer
em que nós deixamos de ser humanos, de ser reais, um para o outro. Agora
só ficávamos repetindo essa pantomima, a qual, para ser justo, acho
que também não caía muito bem nela. Ninguém se diverte
muito apresentando a versão menos lisonjeira de si mesmo. Quando nos encontrávamos,
coisa que, graças a Deus, não acontecia com frequência, apenas
nos lembrávamos da dupla de merdas que havíamos virado um para o
outro. Trocando olhares, só conseguíamos ver fracasso e humilhação,
e nunca veríamos algo além disso. Separados, conseguíamos
colocar um ao outro numa espécie de pedestal; relembrar os bons tempos,
até mesmo o amor, mas juntos? Pode esquecer.
Não
vejo a hora de chegar em casa e isso com certeza não é mais aqui.
Não, para mim são as Canárias: sol o ano todo, alegrando
as mulheres de férias. Você pode enfiar a Inglaterra na porra do
cu.
Examinando a casa da minha
velha mãe agora, é triste ver o pouco que ela arrumou na vida. Alguns
móveis, a tevê e uns badulaques em cima da porra da lareira: só
sobrou isso. Ela é uma das últimas daquela geração
que mantinha os narizes limpos, sempre fazia fila para lutar na porcaria de alguma
guerra idiota e todo Natal escutava feito uma cachorrada obediente as baboseiras
de merda da rainha. É claro, exatamente como seus antepassados, foram majestosamente
enrabados. Desde a Primeira Guerra Mundial, vêm aguardando que surjam os
tais lares adequados a heróis. Então, onde estão eles? Não
vejo nenhum nesta terra de bosta.
É,
talvez eu redecore a casa da velha quando fizer outra visita prolongada. Dê
uma mão de tinta. Coloque um pouco de papel de parede. Alegre um pouco
as coisas.
Olho de novo para
Trees. Certas coisas exigem mais do que uma renovação superficial
para ficarem palatáveis.
Mamãe,
que Deus a abençoe, levou Emily para a cozinha. Tal como a velha, a pobre
bezerrinha não é boba; sabe que vamos ter uma conversa sobre ela,
mas sai. Então a Madreputa Teresa baixa a voz e diz: - Eu estou enlouquecendo,
Michael. Ela não faz porcaria nenhuma... nem dever de casa, nem tarefas
domésticas para me ajudar... os professores estão reclamando...
-
É, acho que eles sempre fazem isso – concordo meio distraído.
Ela
olha para mim e abana a cabeça com desdém. – É o que tem
pra me dizer? Lugares-comuns, cacete... os mesmos lugares comuns de sempre.
Uma
expressão nova que ela aprendeu; lugares-comuns. Uma expressão sofisticada
para a família Hardwick. É melhor não dar porcaria de educação
alguma a gente desse tipo, só gera insatisfação. Todos ficam
mais contentes asfaltando pistas.
-
Olhe aqui, se você quer que eu vá a uma reunião na escola,
pelo menos me avise um pouco antes. Não é fácil fazer isso
administrando um bar a centenas de quilômetros...
Eu
vejo um brilho malévolo nos olhos dela e percebo que cometi meu primeiro
grande erro. Como de costume, ela abana a cabeça e dá o bote. –
Ah, coitado do Mickey, deve ser uma vida tão dura... administrar um bar
numa ilha ensolarada! Que lugar-comum...
E a porra da vaca tira sangue primeiro. Nosso garoto precisa se refugiar nas
cordas, manter a calma e continuar esquivando.
As molas salientes da poltrona antiga estão
penetrando nas minhas costas. Eu deveria trocar os móveis da velha. Não
que ela use essa poltrona. Era a cadeira do velho. Um chiqueiro desses, e o que
o velho punha para tocar nas festas? Aquela canção do Tony Bennet:
"The Good Life". Adorava ouvir aquilo. Só que ele não
levou uma vida muito boa aqui, nem eu por falar nisso, quando me amarrei à
porra daquela égua. Com as molas nas costas ainda preciso ouvir essa vaca.
-
Vamos, Trees, isso num vai resolver nada...
-
Enquanto eu t rabalho cinco dias por semana naquele laboratório e tento
criar nossa filha!
Percebo
que ela está muito tensa. Provavelmente louca para fumar um beise. É
a fraqueza dela, e eu não tenho simpatia por que não consegue controlar
seus vícios. Só que ela sabe que não pode fazer isso na casa
da minha mãe.
Teresa
Harwick está partindo para o ataque, tentando acertar um soco decisivo,
mas Michael Baker ainda tem agilidade nos pés.
Eu solto ar pela boca como se fosse um peido. Paro
quando me lembro que isso deixava Trees possessa. Nós todos temos essas
coisas. Quais eram as delas que me piravam? Numerosas demais para citar, merda.
Mas uma certamente seria a expressão que ela faz com a boca, feito um cu
de gato, como está fazendo agora.
Eu
sei que a sua vida não é fácil – digo a ela em um tom diplomático.
– Mas aquele bar é o meu ganha-pão. Eu não vou voltar pra
ficar sentado aqui sem fazer nada. Pelo menos assim eu posso ganhar algum dinheiro
e mandar pra você...
Talvez
a última frase tenha saído em tom um pouco presunçoso demais.
Um
belo jab de Baker! Hardwick sentiu o golpe.
É
claro que ela fica alucinada, feito torcida de time pequeno quando está
ganhando. – É, você vive se sacrificando, num é Mickey?
Hardwick
contra-ataca. Ela ainda tenta acertar outro soco de direita, mas Baker já
se afastou.
- Olhe
aqui, eu num vou ficar sentado trocando insultos com você aqui nessa sala.
Você sabe o que acontecerá... nós dois vamos começar
a gritar – digo em tom de apelo. – Exatamente como antes... isso não me
faz bem, não faz bem a você e certamente não faz nenhum bem
a Em. E eu preciso respeitar ela feito a porcaria de uma bruxa. – Respeitar casas.
Ah!
Isso foi um golpe baixo de Hardwick!
Há
um longo silêncio, enquanto ela simplesmente olha para mim e me avalia.
De que adianta isso, caralho... fazer o relógio voltar atrás como
se fosse ontem? Tem gente que simplesmente não consegue avançar.
Falha de caráter, se pode dizer. Eu levanto e me espreguiço, conseguindo
abafar um bocejo. Trees odiava que eu bocejasse quando ela estava arengando. Atualmente
precisa se acostumar a isso. Eu dou uma olhadela para a antiga foto de meu pai
em cima da lareira. Engraçado, mas hoje em dia aquele bigode faria com
que ele parecesse bem suspeito.
-
Vou voltar amanhã – digo eu. – Mande notícias.
Bom
trabalho de Baker, que obviamente estava sem fôlego, mas continuou dançando
para fugir do ataque.
Trees
entende a dica e se levanta. Eu noto mais uma dobra de gordura debaixo de seu
queixo. Ela sempre gostou demais de frituras; desde a nossa época de namoro.
Mas toda a família Hardwick era uma gentalha, nutrida com junk food. A
mãe dela acahava que culinária fina era pôr um monte de gurjões
de peixe debaixo da grelha, e não na frigideira. "Eu sempre grelho
minha comida", costumava comentar a velha cheia de pompa. Assim, acho até
que Trees não estava tão mal, vindo de uma casa como aquela. Meu
velho sabia tudo a respeito deles. Uma gentinha, falou ele a primeira vez que
eu trouxe Trees para casa. E eu nem gosto da idéia de Em ficar zanzando
por lá. Não é exatamente um lugar, para falar diplomaticamente,
onde alguém aprende algo que valha a pena. Só se você pretende
que a ladroagem e a cartomancia sejam suas especialidades.
O
gene dos Hardwick, que em Trees nunca se afasta muito da superfície, irrompe
com força quando ela diz num sussurro sibilante: - Pois é, você
está fazendo o que sempre faz quando as coisas ficam pretas; foge e faz
com que o resto das pessoas limpe a porcaria que deixou pra trás.
Ela
se empertiga toda, feito alguém com uma vara de aço enfiada no rabo,
e sai para buscar Em.
Outro
golpe baixo e o árbitro desclassifica Hardwick! O vencedor e ainda incontestável
campeão é... Mikeeee Bay-kah!
Eu
sinto vontade de gritar de volta para ela: a porcaria foi você quem criou,
gata, porque depois que ela ficou só com você é que todos
esses problemas começaram. Mas mordo a língua e penso no avião
que vai me levar para casa. Trees é assim: para ela, não basta arquitetar
a própria ruína; está decidida a arrastar todo mundo para
o fundo. Mas eu estou fora desse joguinho. Alguns de nós têm uma
droga de vida para viver, muito obrigado! Como o velho Winston disse uma vez:
"Embora preparado, prefiro que meu martírio seja adiado."
Acabou!
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