Trecho de Saga Brasileira, de Miriam Leitão
O que é uma moeda? Quase nada. Um valor que oscila. Uma abstração.
Os economistas têm resposta pronta: é reserva de valor, unidade
de conta, meio de pagamento. No mundo em que vários países europeus
abriram mão das suas moedas para criar o euro, um padrão
monetário de laboratório, pode-se dizer que a moeda já perdeu o
papel de símbolo nacional que dividia com a bandeira e o hino.
Não foi assim no Brasil. Este livro quer contar a história em que um povo passou por ansiedades e dores, suportou agressões aos seus direitos, velou de madrugada, viveu sobressaltos, fiscalizou, reagiu; acreditou uma vez, duas, seis, quantas vezes foram necessárias; sofreu e torceu por uma moeda. Para alcançá-la foi preciso desmontar armadilhas, quebrar rotinas, reorganizar o país, ousar. Tem sido ainda necessário persistir e não esquecer o destino desejado.
Dentro dos gabinetes dos governos e nas salas das famílias, uma grande história foi vivida. Milhões de pessoas participaram da construção coletiva que não teve figurantes. Foram, todos, peças centrais de uma grande saga.
A moeda de que se fala neste livro vai além das suas funções clássicas. Ela habita o terreno mítico. E é concreta. É o alvo e o caminho. Ao persegui-la, o Brasil encontrou uma trilha que modernizou o país. Por ser tão desejada, foi conduzindo o país na direção de grandiosas tarefas. Fomos removendo obstáculos, superando velhos vícios, corrigindo erros para ter, um dia, uma moeda estável. Seu valor real foi ser o fio condutor de uma travessia.
Como jornalista vi, dia após dia, por longos anos, esta história, épica e dolorosa, sendo contada aos pedaços nas páginas de jornais.Os milhões de brasileiros que sofreram, choraram, perderam bens, tiveram esperança, vigiaram, persistiram têm histórias tocantes e impressionantes para contar. E eles contarão aos seus filhos e netos. Os que tiveram poder de decisão nos momentos críticos são como todos os outros protagonistas da história: tiveram dúvidas e medos; ousaram, erraram, acertaram.
Não é história econômica; é história. No caminho conhecemos a hiperinflação desmoralizante, o ultraje do confisco do dinheiro poupado, tivemos a paciência de aprender e reaprender as regras e manuais dos padrões monetários mutantes. Enquanto isso, criamos nossos filhos, fizemos carreiras, abrimos empresas, planejamos o futuro, pagamos impostos, poupamos, levamos as crianças para a escola, reduzimos a mortalidade infantil, melhoramos o Brasil.
Parece simples, querer ter uma moeda que permaneça e na qual os preços subam e desçam de forma moderada, mas ela foi conquistada depois de muitas batalhas travadas em várias frentes. Nos tempos que aqui se conta, a moeda mudou de nome cinco vezes, perdeu nove zeros, foi dividida por 2.750 no meio de incontáveis intervenções governamentais na vida privada. Temos a tendência de desmerecer o conquistado; subestimar aflições e dores passadas, depois de tudo superado. Mas o que vivemos no Brasil foi maior do que nos damos conta. Escrever este livro foi um persistente sonho que eu carreguei por muito tempo. Ano após ano guardei material, conversas, bastidores e personagens. Foi preciso revisitar velhos jornais e revistas, tentar reencontrar pessoas, entrevistar protagonistas. Fui ajudada nessa busca do passado por dois jovens. Eduardo Mulder dedicou tempo vasculhando revistas e jornais antigos, na Biblioteca Nacional e na Agência Globo, me ajudando no trabalho de capturar flagrantes de um tempo que eu tinha de memória, mas que essa nossa viagem reavivou. Fátima Baptista saiu atrás de pessoas que pudessem nos contar o que ainda se lembram dos tumultos vividos. Agradeço muito aos dois. No túnel do tempo fui atrás de algumas das autoridades que tomaram as decisões ou funcionários que viram os planos sendo produzidos e aplicados. Agradeço a todos eles o tempo que ocupei
E olhando pro Cazuza, inflado de amor, arrematei: “E tem outra, rapá, não vão derrubar a gente assim tão mole, não! Vamos em frente, mesmo porque a morte do Júlio não vai ser em vão. A nossa vida não pode ser em vão, e, se nada pode deter uma pessoa feliz, nada poderá nos deter, pois a nossa história vai ser cada vez mais... cada vez mais...” Chorava copiosamente. Diante daquele vazio, gaguejando mentalmente, tentando pinçar na cabeça o que poderia ser “cada vez mais”, arrematei: “INTENSA!!!!” E não satisfeito, prossegui: “e cada vez mais... DIVERTIDA!!!!” E concluí: “A nossa onda de amor não há quem corte!!” Chacoalhando de emoção, abracei com toda a força o caixão.
Talvez tenha sido ali, naquele momento surreal, que nasceu não só uma vontade, mas um compromisso tácito entre meus amigos de que, uma vez sobrevivendo, eu deveria contar toda a história. Uma saga à procura de um lugar a que se pertencer… Eu precisava, através de um juramento, me motivar o bastante para não ver nossos sonhos serem sepultados com meus amigos.
Preparem‑se porque, a partir de agora, vou contar uma história de amor louca, insólita, humana, demasiadamente humana, imprevisível, improvável, mas bem real: a história da minha vida, que se mescla e se confunde com a da minha geração, do nosso país e de nosso tempo. Não se trata de uma simples narração de um passado longínquo, morto e enterrado, fruto de um devaneio nostálgico. É uma história cheia de vida, de intensidade e de revelações, que incide no presente e se projeta em direção ao futuro.
Portanto, não se enganem: o melhor ainda está por vir, pois essa promessa eu fiz aos meus amigos, ao pé de suas lápides.
E tenham a certeza absoluta de que a cumprirei à risca. em suas agendas. A Sérgio Abranches, companheiro de tantas aventuras, há muito a agradecer, mas escolho o mais relevante, que foi o aviso repetido de que desistir do livro não era a opção aceitável.
Mais do que um evento em si, o que me apaixonou foi a ideia de mostrar que todos os eventos juntos descrevem o processo de amadurecimento institucional do país feito em condições difíceis. Pela dimensão de outras tarefas que nos aguardam, entendo que olhar o bem-feito pode ser de grande valia.
Esta é a história da travessia que vi, orgulhosa, o povo brasileiro fazer no meio de sobressaltos, ao longo de mais de duas décadas. O mestre Guimarães Rosa, conhecedor de sertões e veredas, ensinou que não é no fim, nem no começo, que se sabe a verdade. "O real se dispõe para a gente é no meio da travessia." Foi no caminho que eu entendi o Brasil.

