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Trecho de Os Mercadores Da Noite,
de Ivan Santanna
Capítulo 1
Clarence apertou o botão do subsolo e seu elevador privativo
começou a descer, na velocidade vertiginosa de sempre, os
240m que o separavam da garagem, 80 andares abaixo.
Em algumas horas o mercado financeiro, as bolsas de valores, os
mercados futuros e toda a comunidade de negócios começariam
a implodir. Nova York, o resto da América e, mais tarde,
o Extremo Oriente sofreriam as conseqüências das ações
que Julius Clarence tramara há alguns anos, executara lenta
e cuidadosamente nos últimos meses, semanas e dias e intensificara
nas últimas horas.
As bolsas e mercados da Europa seriam muito tumultuados no dia
seguinte. Quanto a Nova York, bem, Nova York começaria amanhã,
após a leitura dos jornais e a apresentação
dos noticiários matutinos da TV, a viver uma de suas horas
mais amargas. A pior desde o grande crash da bolsa em 1929.
O porteiro da garagem não estranhou o fato de o senhor
Clarence estar dirigindo o carro. Acontecia com freqüência.
O possante Jaguar tremeu com a potência de seu motor V6 de
550 cavalos e juntou-se ao tráfego da tarde de quinta-feira
de fim de inverno, na parte sul da ilha de Manhattan.
Enquanto o carro subia silenciosamente a Franklin Delano Roosevelt
Drive, Julius retirou cuidadosamente a barba e o bigode postiços,
rigorosamente iguais à barba e ao bigode verdadeiros, raspados
na véspera.
O corte do cabelo seria um problema. Para isso necessitaria da
ajuda de terceiros. Precisaria contar com um pouco de sorte, mas
Julius Clarence, em toda a sua vida, jamais temera arriscar a sorte.
O reluzente Jaguar abandonou a FDR Drive, à direita, na
altura da Rua 34. Passou por baixo da via expressa e seguiu para
o acesso do Midtown Tunnel. Dobrou à direita outras duas
vezes e desceu para o túnel. Alguns minutos mais tarde, do
outro lado do East River e já de volta à luz do dia,
parou na cabine de pedágio. Pagou os 3 dólares da
tarifa e seguiu rumo leste, pela Long Island Expressway,até
chegar ao Queens Boulevard.
Clarence dirigiu até o estacionamento municipal da Rua
92, junto ao Queens Center, um centro comercial de grande movimento,
principalmente naquela época, com as grandes liquidações
de fim de inverno. Antes de sair do carro, colocou lentes de contato
de cor castanha no lugar das lentes incolores que nada escondiam
de seus frios olhos azuis. Deu as costas ao Jaguar. Entrou no shopping
pela porta da Avenida 57.
Lá dentro, andando apressadamente, comprou, em pouco mais
de meia hora, sempre pagando em dinheiro, dois pares de sapatos,
duas calças jeans, quatro camisas esporte, meias e roupas
de baixo. Adquiriu também uma jaqueta de couro forrada com
pele de carneiro e uma valise. Finalmente, entrou em uma farmácia.
Comprou objetos de toalete e uma tesoura.
Nem um observador atento notaria ser o executivo alto e de meia-idade,
que entrara no banheiro do shopping, o mesmo a sair 10 minutos depois,
usando os trajes informais de um turista e carregando uma pequena
valise. Clarence deixara para trás a barba e o bigode postiços,
retalhados a tesoura e descartados no vaso sanitário.
Saiu do shopping por uma porta lateral. Andou meia quadra até
a estação de metrô de Woodhaven Boulevard. Pegou
um trem e voltou a Manhattan. Desceu na 42 e seguiu para sudoeste.
Entrou em um salão de barbeiro na esquina da 39 com a 8.a
Avenida. Percebeu ser a maioria dos clientes composta de homossexuais.
Ignorou alguns olhares interessados. Fez sinal a um barbeiro, mostrando
a cabeleira grisalha, e dirigiu-se à cadeira indicada pelo
profissional. Pediu um corte radical de quase todo o cabelo.
Se o suarento barbeiro chinês notou alguma semelhança
entre o homem sentado em sua cadeira e o famoso bilionário,
cuja foto freqüentava regular- mente os jornais, revistas e
noticiários da televisão, não o demonstrou.
A gorjeta foi ligeiramente maior que a habitual.
Três horas já haviam decorrido desde que Julius deixara
o escritório. Os primeiros sintomas do pandemônio que
iria apoderar-se do mercado já deveriam estar se manifestando.
O telefone do Jaguar, no estacionamento do Queens, estaria tocando
sem parar. Mas isso já não lhe dizia respeito. Seu
único problema era embarcar o turista italiano Servulo Anicetto
no vôo 548 da Cia. Aérea Sabena para Bruxelas.
Ao sair do salão de barbeiro, Julius caminhou algumas quadras
por entre as ruas mais mal freqüentadas da cidade. Dirigiu-se
ao terminal de ônibus da Rua 42. Carregando a maleta comprada
no Queens, sem a menor hesitação, foi diretamente
à plataforma da linha do Aeroporto Kennedy. Entrou no ônibus
ali estacionado e relaxou num banco dos fundos.
Hora e meia depois, já no aeroporto, retirou do bolso da
jaqueta um envelope que carregara consigo desde a manhã.
Continha o passaporte de Servulo Anicetto, 55 anos, natural de Pescara,
na costa do Adriático. Fisionomia igual à de Clarence,
sem barba e bigode, de olhos castanhos e cabelos cortados bem curtos.
Naquele momento, Julius terminava sua vitoriosa e polêmica
existência. Servulo Anicetto nascia para uma breve passagem
pela Terra. Clarence planejara os eventos há muito tempo.
Sabia que, agora, com a ação iniciada, não
poderia voltar atrás – era como se o destino houvesse ditado
tudo e a ele só coubesse obedecer.
O italiano apresentou sua passagem de classe econômica no
balcão da Sabena. Escolheu um lugar no fundo do avião,
junto à janela, área de fumantes. Embora Servulo,
ou melhor, Clarence, não fumasse há vários
anos, achava os fumantes pessoas mais interessantes e, ainda que
não pretendesse iniciar nenhum tipo de relacionamento durante
a viagem, fez a escolha do lugar mais por força do hábito.
A compra da passagem fora planejada com cuidado. O bilhete compreendia
os trechos Los Angeles/Nova York/Bruxelas/Copenhague. Havia sido
comprado três meses antes em San Diego, na Califórnia,
por um homem alto, com um curativo cirúrgico a esconder-lhe
a fisionomia. Pagou à vista, em dinheiro. As folhas correspondentes
aos trechos Los Angeles/Nova York e Bruxelas/Copenhague foram simplesmente
destruídas.
Tudo transcorrera a contento. Servulo dirigiu-se a um bar, próximo
ao portão de embarque. Teria ainda 90 minutos de espera antes
da decolagem. Sentou-se a uma mesa do canto. Pediu à garçonete
uma dose de vodca gelada. Passou a bebericar lentamente.
Ao lado da mesa havia um aparelhinho de TV. Anicetto observou
as instruções, colocou na máquina quatro moedas
de um quarto de dólar e apertou o interruptor.
A telinha iluminou-se imediatamente. Percorreu diversos canais.
De saída, percebeu estar a maioria apresentando noticiários.
Alguns em edição extra. Fixou-se em uma estação
de maior audiência. Começou a prestar atenção.
O coração acelerou-se, os músculos do estômago
contraíram-se. Era a velha sensação de predador
no ataque, sua conhecida há 40 anos.
Segundo o apresentador do noticiário, o Índice Industrial
Dow Jones da Bolsa de Valores de Nova York despencara 2.000 pontos
na última meia hora de pregão, a maior queda percentual
desde a segunda-feira negra de outubro de 1987. Computadores programados
para especulação seriam os responsáveis pelo
colapso. O dólar caíra violentamente e a onça-troy
do ouro subira 25 dólares.
O locutor mantinha a fisionomia preocupada, a voz mais grave do
que o normal.
Quando o vôo 548 foi chamado, Servulo deixou uma nota de
10 dólares sob o copo, levantou-se e dirigiu-se ao portão
de embarque.
O avião estava vazio, como normalmente acontece na baixa
temporada, apesar das tarifas baratas provocadas pela guerra de
preços que vinha levando diversas companhias aéreas
à falência. Precisamente às 8h30 da noite as
quatro turbinas Pratt & Whitney foram aceleradas ao máximo
e o 747 decolou.
Da janela, nada se via da noite gelada de inverno. Anicetto encontrava-se
sozinho, num conjunto de três poltronas do lado direito, perto
da cauda. Tomou mais uma dose de vodca. Mal tocou na bandejinha
do jantar. Passou a observar os passageiros dentro de seu limitado
campo de visão.
Segundo Julius Clarence, as pessoas interessantes ou voavam na
primeira classe ou na classe econômica. O pessoal jovem, quase
sempre na econômica. E Clarence gostava de gente jovem. Na
classe executiva viajava o pessoal mais desinteressante. Gente que
preenchia relatórios e tomava remédios para úlcera.
Poucas mulheres usavam a executiva. E Julius também sempre
gostara de mulheres, principalmente bonitas, principalmente bonitas
e jovens.
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