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Trecho de O Vendedor de Sonhos,
de Augusto Cury
O encontro
No mais inspirador dos dias, sexta-feira, cinco da
tarde, pessoas apressadas — como de costume — paravam e se aglomeravam
num entroncamento central da grande metrópole. Olhavam para
o alto, aflitas, no cruzamento da Rua América com a Avenida
Europa. O som estridente de um carro de bombeiros invadia os cérebros,
anunciando perigo. Uma ambulância procurava furar o trânsito
engarrafado para se aproximar do local.
Os bombeiros chegaram com rapidez e isolaram a área,
impedindo os espectadores de se aproximar do imponente Edifício
San Pablo, pertencente ao grupo Alfa, um dos maiores conglomerados
empresariais do mundo. Os cidadãos se entreolhavam, e os
transeuntes que chegavam pouco a pouco traziam no semblante uma
interrogação. O que estaria acontecendo? Que movimento
era aquele? As pessoas apontavam para o alto. No vigésimo
andar, num parapeito do belo edifício de vidro espelhado,
debruçava-se um suicida.
Mais um ser humano queria abreviar a já brevíssima
existência. Mais uma pessoa planejava desistir de viver. Era
um tempo saturado de tristeza. Morriam mais pessoas interrompendo
a própria vida do que nas guerras e nos homicídios.
Os números deixavam atônitos os que refletiam sobre
eles. A experiência do prazer havia se tornado larga como
um oceano, mas tão rasa quanto um espelho d’água.
Muitos privilegiados financeira e intelectualmente viviam vazios,
entediados, ilhados em seu mundo. O sistema social assolava não
apenas os miseráveis, mas também os abastados.
O suicida do San Pablo era um homem de quarenta anos,
face bem torneada, sobrancelhas fortes, pele de poucas rugas, cabelos
grisalhos semilongos e bem-tratados. Sua erudição,
esculpida por muitos anos de instrução, agora se resumia
a pó. Das cinco línguas que falava, nenhuma lhe fora
útil para falar consigo mesmo; nenhuma lhe dera condições
de compreender o idioma de seus fantasmas interiores. Fora asfixiado
por uma crise depressiva. Vivia sem sentido. Nada o encantava.
Naquele momento, apenas o último instante parecia
atraí-lo. Esse fenômeno monstruoso que costumam chamar
de morte parecia tão aterrador... mas era, também,
uma solução mágica para aliviar os transtornos
humanos. Nada parecia demover aquele homem da idéia de acabar
com a própria vida. Ele olhou para cima, como se quisesse
se redimir do seu último ato, olhou para baixo e deu dois
passos apressados, sem se importar em despencar. A multidão
sussurrou de pavor, pensando que ele saltaria.
Alguns observadores mordiam os dedos em grande tensão.
Outros nem piscavam os olhos, para não perder detalhes da
cena — o ser humano detesta a dor, mas tem uma fortíssima
atração por ela; rejeita os acidentes, as mazelas
e misérias, mas eles seduzem sua retina. O desfecho daquele
ato traria angústia e insônia aos espectadores, mas
eles resistiam a abandonar a cena de terror. Em contraste com a
platéia ansiosa, os motoristas parados no trânsito
estavam impacientes, buzinavam sem parar. Alguns colocavam a cabeça
janela afora e vociferavam: "Pula logo e acaba com esse show!".
Os bombeiros e o chefe de polícia subiram até
o topo do edifício para tentar dissuadir o suicida. Não
tiveram êxito. Diante do fracasso, um renomado psiquiatra
foi chamado às pressas para realizar a empreitada. O médico
tentou conquistar a confiança do homem, estimulou-o a pensar
nas conseqüências daquele ato... mas nada. O suicida
estava farto de técnicas, já havia feito quatro tratamentos
psiquiátricos malsucedidos. Aos berros, ameaçava:
"Mais um passo e eu pulo!". Tinha uma única certeza,
"a morte o silenciaria", pelo menos acreditava que sim.
Sua decisão estava tomada, com ou sem platéia. Sua
mente se fixava em suas frustrações, remoía
suas mazelas, alimentava a fervura da sua angústia.
Enquanto se desenrolavam esses acontecimentos no alto
do edifício, apareceu sorrateiramente um homem no meio da
multidão, pedindo passagem. Aparentemente era mais um caminhante,
só que malvestido. Trajava uma camisa azul de mangas compridas
desbotada, com algumas manchas pretas. E um blazer preto
amassado. Não usava gravata. A calça preta também
estava amassada, parecia que não via água há
uma semana. Cabelos grisalhos ao redor da orelha, um pouco compridos
e despenteados. Barba relativamente longa, sem cortar há
algum tempo. Pele seca e com rugas sobressaltadas no contorno dos
olhos e nos vincos do rosto, evidenciando que às vezes dormia
ao relento. Tinha entre trinta e quarenta anos, mas aparentava mais
idade. Não expressava ser uma autoridade política
nem espiritual, e muito menos intelectual. Sua figura estava mais
próxima de um desprivilegiado social do que de um ícone
do sistema.
Sua aparência sem magnetismo contrastava com
os movimentos delicados dos seus gestos. Tocava suavemente os ombros
das pessoas, abria um sorriso e passava por elas. As pessoas não
sabiam descrever a sensação que tinham ao ser tocadas
por ele, mas eram estimuladas a abrir-lhe espaço.
O caminhante aproximou-se do cordão de isolamento
dos bombeiros. Foi impedido de entrar. Mas, desrespeitando o bloqueio,
fitou os olhos dos que o barravam e expressou categoricamente:
— Eu preciso entrar. Ele está me esperando.
— Os bombeiros o olharam de cima a baixo e menearam a cabeça.
Parecia mais alguém que precisava de assistência do
que uma pessoa útil numa situação tão
tensa.
— Qual o seu nome? — indagaram sem pestanejar.
— Não importa neste momento! — respondeu firmemente
o misterioso homem.
— Quem o chamou? — questionaram os bombeiros.
— Você saberá! E se demorarem me interrogando,
terão de preparar mais um funeral — disse, elevando os olhos.
Os bombeiros começaram a suar. Um tinha síndrome
do pânico, outro era insone. A última frase do misterioso
homem os perturbou. Ousadamente ele passou por eles. Afinal de contas,
pensaram, "talvez seja um psiquiatra excêntrico ou um
parente do suicida".
Chegando ao topo do edifício, foi barrado novamente.
O chefe de polícia foi grosseiro.
— Parado aí. Você não devia estar
aqui. — Disse que ele deveria descer imediatamente. Mas o enigmático
homem fitoulhe os olhos e retrucou:
— Como não posso entrar, se fui chamado?
O chefe de polícia olhou para o psiquiatra,
que olhou para o chefe dos bombeiros. Faziam sinais um para o outro
para saber quem o chamara. Bastaram alguns segundos de distração
para que o misterioso malvestido saísse da zona de segurança
e se aproximasse perigosamente do homem que estava próximo
de seu último fôlego.
Quando o viram, não dava mais tempo para interrompê-lo.
Qualquer advertência que fizessem contra ele poderia desencadear
o acidente, levando o suicida a executar sua intenção.
Tensos, preferiram aguardar o desenrolar dos fatos.
O homem chegou sem pedir licença e sem se perturbar
com a possibilidade de o suicida se atirar do edifício. Pegou-o
de surpresa, ficando a três metros dele. Ao perceber o invasor,
o outro gritou imediatamente:
— Vá embora, senão vou me matar!
O forasteiro ficou indiferente a essa ameaça.
Com a maior naturalidade do mundo, sentou-se no parapeito do edifício,
tirou um sanduíche do bolso do paletó e começou
a comê-lo prazerosamente. Entre uma mordida e outra, assoviava
uma música, feliz da vida.
O suicida ficou abalado. Sentiu-se desprestigiado,
afrontado, desrespeitado em seus sentimentos.
Aos berros, clamou:
— Pare com essa música. Eu vou me jogar.
Intrépido, o estranho homem reagiu:
— Você quer fazer o favor de não perturbar
meu jantar?! – disse com veemência. E deu mais umas boas mordidas,
mexendo as pernas com prazer. Em seguida, olhou para o suicida e
fez um gesto, oferecendo-lhe um pedaço.
Ao ver esse gesto, o chefe de polícia tremulou
os lábios, o psiquiatra estatelou os olhos e o chefe dos
bombeiros franziu a testa, perplexo.
O suicida ficou sem reação. Pensou consigo:
"Não é possível! Achei alguém mais
maluco do que eu".
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