Trecho de O Segredo de Luísa, de Fernando Dolabela
A motivação e o perfil do empreendedor
Salão nobre da FIEMG, Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, lotado. Sentada na segunda fila, dona Maria Helena, desconfortável em seus sapatos novos, de saltos altos, vestido longo, sente as mãos frias e o coração acelerado. Busca apoio em Geraldo, seu marido, apertando-lhe obraço com ambas as mãos. Dali a alguns instantes, seria entregue o prêmio de Melhor Empreendedor Global do Estado de Minas Gerais. Dada a lágrimas, previne-se, com um lenço amassado na mão esquerda, para a emoção do anúncio do vencedor. O coração garante-lhe que sua filha Luísa, proprietária da GMA – Goiabadas Maria Amália Ltda., será a escolhida entre os dez empresários pré-selecionados.
Vira-se para o lado, procurando os olhos do marido, no mesmo momento em que o presidente da FIEMG chama o governador do Estado para anunciar o nome do empreendedor vitorioso. Poucas vezes na vida, lágrimas tão intensas desceram-lhe pelo rosto. Uma delas foi quando Luísa nasceu. O peito palpitando de orgulho e ansiedade, dona Maria Helena olha para trás e percebe que Ponte Nova está lá em peso. Será que Luísa ganharáo prêmio? As gotas que escorrem do seu queixo para a gravata do marido libertam a torrente que lhe brota da alma. Seu Geraldo começa a temer pelo que possa acontecer caso Luísa ganhe o prêmio.
Seis anos atrás, aos 20 anos, Luísa estava noiva e cursava o quinto ano de odontologia. Nascida em Ponte Nova, deixou os pais e foi para Belo Horizonte com a única irmã, Tina, com o intuito de fazer o curso superior.
Na família, o avô Serafim fez carreira no Banco do Brasil, o tio Saint-Clair aposentou-se pela Rede Ferroviária Federal, a tia Rita, pelos Correios e Telégrafos. Tia Lourdes, apelidada de "Vovó Mestra" apesar de solteira, construíra sua reputação, perante duas gerações da cidade, como excelente professora primária do Estado. Dois outros tios, Carlos e Toniquinho, seguiram a profissão do avô paterno, mantendo ainda uma alfaiataria e, junto com ela, atividades um tanto desconexas, como indefinia o "tudo em geral etc." primorosamente colocado na placa da rua: Loja Elegância Mineira –Camisas, calçados, consertos de aparelhos elétricos, secos e molhados, tudo em geral etc.
Na família em que todos conseguiram alcançar um padrão de vida muito bom, a tia e madrinha de Luísa, Fernanda, única empresária, é a mais bem-sucedida.
Construiu considerável patrimônio e notoriedade na cidade, reunindo em uma só loja — o Sereia Azul — serviços e comércio de variadas naturezas: salão de beleza e barbearia, loteria, pequena mercearia com petiscos de surpreender o mais habituado cliente, armarinho e corretagem de imóveis. Organizava e animava festas para crianças. Para o seleto clube do fim de tarde — que incluía figuras de destaque da cidade, além de alguns tipos populares, e excluía os chatos de qualquer espécie, rejeitados com respostas monossilábicas — havia sempre uma pinga das boas, servida pessoalmente por Fernanda. A goiabada cascão, oferecida aos que, como o vigário, não bebiam cachaça em público, era a única coisa de graça que se poderia conseguir naquela loja. Mas Fernanda recuperava o custo no preço do queijo-de-minas curtido, que servia no palito.
Localizada no coração de Ponte Nova, na Praça Getúlio Vargas, que hospeda a Igreja Matriz e onde hoje duas frondosas figueiras embalam a modorrade pobres e ricos, privilegiados por poderem repousar ali, a loja de Fernanda era, das quatro às seis da tarde, de segunda a sexta-feira, o ponto mais importante da cidade. Para ali acorriam os influentes e poderosos em busca de informações e oportunidades de negócio. Ali se tecia a crônica de costumes e a resenha de notícias. O presidente da Câmara Municipal e o vigário, desafetos, revezavam turnos, poupando-se mutuamente do encontro face a face. O prefeito marcava ponto antes da missa das seis.
Tido por alguns como mero antro de fofocas, para os seus freqüentadores o Sereia Azul seria o reduto vanguardista da cidade, título conquistado em passagens históricas. Diziam estes que dali brotara, por exemplo, a consciência de proteção ambiental dos ponte-novenses quando, anos atrás, em memorável campanha, seus convivas se opuseram à derrubada de duas figueiras da praça. O caso, incorporado ao folclore da casa, surgiu quando o vigário, após passar décadas em busca de verbas para restaurar o portal da igreja, decidiu que duas das quatro figueiras de então deveriam ser derrubadas, pois dificultavam a visão de sua obra. Liderada heroicamente pelo coletor Hildebrando, orador inspirado depois da terceira dose de pinga, Ponte Nova faria surgir, segundo eles, o primeiro movimento de preservação da natureza de que se teve notícia na Zona da Mata de Minas Gerais. Mesmo que sua repercussão jamais tenha ultrapassado o balcão do Sereia Azul eseu único efeito tenha sido a disputa do vigário com o presidente da Câmara Municipal em virtude de interpretações divergentes quanto à aplicação da verba arrecadada para a restauração do portal. Data daí orompimento do vigário com o Legislativo, no início restrito aos dois contendores, mas logo ganhando abrangência, contaminando as instituições e, por influênciado Sereia, perpetuando-se através do tempo.
Se em outras rodas comenta-se ainda que as árvores foram sacrificadas sem reação ou lamúrias, a verdade, perdida nos desvãos da memória coletiva, nos mitos da cidade, nas inúmeras versões do fato, mostra, entretanto, uma de suas faces irrefutáveis a quem hoje visita a Praça Getúlio Vargas e vê no chão as sepulturas cimentadas das duas figueiras seculares. Sempre que por ali passava, Luísa, que só veio a adquirir consciência ecológica depois de mudar-se para Belo Horizonte, sentia uma dor no peito e duvidava se as pessoas sabiam dar o real valor à natureza onde ela ainda era abundante.
No Sereia Azul, a regra tácita era a convivência pacífica, na maior sabedoria mineira: inimigos que chegavam às vias de fato em outros horários e pontos, ali trocavam olhares educados e matreiramente ouviam o que tinha a dizer o opositor. Tal regra, jamais dita ou escrita, mas sagrada naquela loja, fora promulgada e era defendida com intransigência por Fernanda. Era permitida e até festejada a provocação inteligente, bem-humorada, assim como a réplica sutil, embora contundente e aniquiladora, excluídas as ofensas óbvias e de baixo calão ou de mau gosto. A loja era o campo de prova da essência do jeito mineiro de conviver, aprendido ancestralmente e ensaiando cotidiano, ali submetido ao julgamento dos pares, todos doutores na arte, formados no mesmo ambiente, apesar de distanciados por diferençasem outras áreas. Pois ali tinha assento o Moacyr, o semi-analfabeto sapateiro de várias gerações, mas cujos palpites eram respeitados. Outros haviam fracassado no intento de penetrar naquela roda, apesar de terem dinheiro e poder. A regra era ouvir mais do que falar, dissimular e negar a própria força ou sabedoria até o momento estratégico, fatal. Manter o outro relaxado, tranqüilo, dominante e superior, induzindo-o a baixar a guarda até se tornar vulnerável e esperar que ele se destruísse por si próprio, pelo verbo solto ou pela prepotência, reduzido a presa frágil das dissimulações do interlocutor. O Sereia Azul, a loja multifuncional de Fernanda, transformava-se toda tarde em um palco da mineirice em seu mais genuíno esplendor.

