|
Trecho de O País dos Petralhas,
de Reinaldo Azevedo
A
CACHAÇA DOS INTELECTUAIS
E A IMPRENSA
A FÁBULA PETISTA E O DEMÔNIO TOTALITÁRIO*
"Tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil."
Não é a primeira vez que escrevo sobre a frase que
mais me rendeu protestos. Até alguns "conservadores"
fizeram um muxoxo: "Cheira a preconceito." E daí?
O preconceito também é uma realidade discursiva definida
por marés influentes de opinião. Não ter alguns
corresponde a reforçar outros. Vejam dom Tomás Balduíno,
que trocou a Teologia pela Escatologia da Libertação.
Ele acredita que lugar de auto-intitulados sem-terra é quebrando
o Parlamento ou tungando propriedade alheia. Opor-se a tal prática
seria preconceito.
Um "progressista" tem de estar afinado com os deserdados
profissionais dos padres, das ONGs e do Chico Buarque. Os "conservadores"
preferem ficar no armário, praticando uma ideologia que não
ousa dizer seu nome. Ou vão para a fogueira. A esquerda leva
vantagem na guerra de valores. Jornalistas acham normal ter como
fonte um ladrão - sobretudo se ele roubar em nome da causa
-, mas fogem de um "reacionário" ou "direitista".
Supostas maiorias teriam mais direito a preconceitos do que um indivíduo.
Com efeito, não existiria totalitarismo sem as massas e suas
rebeliões - aprendi com Ortega y Gasset, antes ainda de começar
a fazer a barba.
Sou tentado a defender o direito que todos temos de ter alguns
"preconceitos". Um sujeito cem por cento tolerante é
desprovido de moral pessoal e imprestável para uma ética
coletiva. É preciso dizer em certos casos: "Isso não!"
Um homem sem preconceitos é um empirista empedernido, uma
besta, um monstro amoral.
Há um quarto de século toleramos a ladainha petista
sobre "um outro mundo possível". Até há
pouco, os petistas nos vendiam um certo "socialismo democrático",
binômio antitético que a senadora Heloísa Helena
(PSOL-AL) ressuscitou em entrevista ao programa Roda Viva. A propósito:
ela afirmou lá que apenas 17% das terras agriculturáveis
do país são cultivadas. Seria mentira ainda que Marina
Silva derrubasse a floresta amazônica e secasse o Pantanal
para plantar soja. Não foi contestada em sua logorréia
narcotizante. Uma bobagem choca; uma penca delas paralisa os sentidos,
especialmente se vêm embaladas naquela cascata de disparates
reiterados por sinonímias vertiginosas.
Nunca houve socialismo democrático ou marxismo cristão.
Quem acata essas bobagens ou está comprometido com a causa
ou procura ser simpático com os "progressistas".
Não ambiciono a ração de boa vontade de adversários.
O socialismo matou quase 200 milhões para criar o "novo
homem", e sua primeira vítima foi a liberdade. Tentam
pôr no meu colo os mortos das ditaduras de direita. Dispenso-os.
Façam como eu: joguem todas elas no lixo. Esquerdistas, no
entanto, não reconhecem em Fidel Castro um facínora
e têm num homicida compulsivo como Che Guevara um herói,
ainda a render filmes e rococós sentimentais. Entronizam
um bufão como Hugo Chávez no posto de futuro mártir
das causas populares. "Mártir"? Eu e minhas esperanças...
Que bom se a esquerda light e a socialdemocracia estivessem certas,
e tudo isso cheirasse à naftalina da guerra fria, sepultada
sob os escombros do Muro. Mas estão erradas, e a metáfora
é óbvia demais. No Brasil, as seduções
do demônio totalitário estão ativas e plasmadas
no PT, que segue o figurino do Moderno Príncipe gramsciano.
É confortável para os covardes a suposição
de que a lenda lulo-petista se esgota no clepto-stalinismo dos quarenta
quadrilheiros. É uma forma de colaboracionismo.
Essa lenda contamina as instituições e busca mudar
a natureza da democracia. Leiam o texto a seguir:
O Moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema
de relações intelectuais e morais, uma vez que seu
desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido
como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente
na medida em que tem como ponto de referência o próprio
Moderno Príncipe e serve ou para aumentar seu poder ou para
opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências,
da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base
de um laicismo moderno e de uma completa laicização
de toda a vida e de todas as relações de costume.
É como Gramsci queria o "partido" que faria a
transição para o socialismo aproveitando-se das fragilidades
da democracia. Leninismo e fascismo em pacote único. Ele
já havia aposentado as ilusões armadas na Europa,
mas não a tara totalitária. O PT também arquivou
as ambições socialistas - embora financie tropas de
assalto à democracia -, mas não a vocação
para submeter a sociedade a um ente de razão partidário.
Os sem-preconceito e liberais de miolo mole vêem o partido
de Lula seguindo a bula dos mercados e o supõem convertido.
Será? O que antes era "criminoso" passou agora
a ser "virtuoso" na medida em que "tem como ponto
de referência o próprio Moderno Príncipe".
Ele é capaz de "subverter todo o sistema de valores
intelectuais e morais". E até os ju ros reais mais altos
do mundo se tornam variantes de um "imperativo categórico".
A trama criminosa é só entrecho de narrativa mais
ambiciosa. Nem a eventual derrota de Lula poria fim a essa história.
Se vitorioso, o PT tentará perpetuar-se no poder mudando
as regras do jogo: o caminho é tornar irrelevantes as eleições
como meio de alternância de poder. E pode fazê-lo fingindo
obediência ao rito democrático. É de sua natureza.
Se derrotado, a "Al-Qaeda" - rede presente nos três
Poderes, sindicatos, fundos de pensão, igrejas, estatais,
imprensa, movimentos sociais e ONGs - tentará emparedar o
próximo governo por meio do confronto e da chantagem. O que
fazer? Dizer não ao demônio totalitário. Outras
divergências são secundárias.
Tudo o que é ruim para o PT é bom para o Brasil.
* Artigo publicado
em O Estado de S. Paulo em 19 de junho de 2006
|