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Trecho de O Livro da Filosofia, de Vários

 

Algumas pessoas dizem que o dever da filosofia é a busca pelo sentido da vida. O filósofo e escritor francês Albert Camus julgava que a filosofia devia reconhecer, em vez disso, que a vida é sem sentido. Embora à primeira vista pareça uma visão pessimista, Camus acreditava que ao adotarmos essa ideia nos habilitamos a viver tão plenamente quanto possível.

Essa ideia de Camus apareceu no ensaio O mito de Sísifo. Sísifo foi um rei grego que, perdendo o apoio dos deuses, acabou condenado a um destino terrível no inferno. Sua tarefa era rolar uma pedra enorme até o topo de um monte, só para vê-la rolar de volta ao solo. Sísifo tinha, então, de caminhar penosamente de volta ao solo para recomeçar, repetindo isso por toda a eternidade. Fascinado por Sísifo, Camus acreditava que o mito parecia encerrar algo da falta de sentido e do absurdo de nossas vidas. E considerou a vida como uma luta infinita para realizar tarefas essencialmente sem sentido.

Camus reconhecia que muito do que fazemos certamente parece sem sentido, mas o que ele sugeriu era mais sutil. De um lado, somos seres conscientes que não conseguem deixar de viver suas vidas como se elas tivessem um sentido. De outro, esse sentido não existe no universo exterior, mas somente em nossas mentes. O universo como um todo não tem sentido e propósito – ele simplesmente é. Mas por termos consciência – diferentemente dos outros seres vivos –, somos o tipo de ser que encontra sentido e propósito em todo lugar.

Abraçar o absurdo

O absurdo, para Camus, é o sentimento que experimentamos ao reconhecer que os sentidos conferidos à vida não existem para além da nossa própria consciência. É o resultado de uma contradição entre a nossa percepção do sentido da vida e o nosso conhecimento de que, não obstante, o universo como um todo é sem sentido.

Camus explorou o significado de viver à luz dessa contradição. Ele afirmou que, para chegar à posição de poder viver plenamente, temos antes de aceitar o fato de que a vida é sem sentido e absurda. Ao abraçar o absurdo, nossas vidas tornam-se uma revolta constante contra a falta de sentido do universo – e então podemos viver livremente.

Essa ideia foi desenvolvida depois pelo filósofo Thomas Nagel, que disse que o absurdo da vida está na natureza da consciência, porque, por mais seriamente que encaremos a vida, sempre sabemos que existe alguma perspectiva a partir da qual essa seriedade pode ser questionada.

Albert Camus

Camus nasceu na Argélia, em 1913. Seu pai foi morto um ano depois, na Primeira Guerra Mundial, e Camus foi criado em pobreza extrema pela mãe. Estudou filosofia na Universidade de Argel, onde sofreu a primeira crise de tuberculose, mal que iria persegui-lo por toda a vida. Aos 25 anos mudou-se para a França, onde se envolveu na política. Uniu-se ao Partido Comunista francês em 1935, mas foi expulso em 1937. Durante a Segunda Guerra Mundial fez parte da resistência francesa, editando um jornal clandestino e produzindo vários de seus romances mais conhecidos, incluindo O estrangeiro. Escreveu várias peças, romances e ensaios. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Morreu num acidente de carro aos 46 anos, ao trocar uma viagem de trem por uma carona de volta a Paris com um amigo.

Obras-chave
1942 O mito de Sísifo
1942 O estrangeiro
1947 A peste
1951 O homem revoltado
1956 A queda

 

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