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Trecho de O Futuro da Humanidade
– A Saga de Marco Polo, de Augusto Cury
Capítulo 1
A ansiedade pulsava no interior de alguns jovens . Um grande sonho
encenava-se no teatro de suas emoções . Movi dos pela
euforia percorriam como crianças os corredores das salas
de aula da Faculdade de Medicina.
Olhos fixos nas paredes, cativados por estranhas e belas imagens
que retratavam detalhes do tórax e músculos. Imagens
de corpos nus dissecados revelavam que por dentro os seres humanos
sempre foram mais iguais do que imaginaram. A fotografia de um cérebro,
saturado de reentrâncias, como riachos que sulcam a terra,
indicava o centro vital de nossa inteligência e de nossas
loucuras.
Chegou o grande dia, o mais esperado e o mais temido. Os novos
alunos teriam a primeira aula de anatomia. Desvendariam os segredos
do objeto mais complexo da ciência: o organismo humano. Aguardavam,
impacientes, seus mestres do lado de fora do laboratório,
que exalava um ar de enigma.
Não lhes cabia no imaginário o que os esperava. Queriam
ser heróis da vida, aliviar a dor e prolongar a existência,
mas o currículo insensível da medicina os abalaria,
sem nenhum preparo, com a imagem grotesca da morte. O sonho de se
tornarem heróis da vida receberia um duro golpe. Iam se deparar
com corpos despidos, dispostos seqüencialmente, como animais.
Enfim chegaram os professores e os técnicos de anatomia.
Subtraiu-se a palavra, e um silêncio gélido envolveu
o grupo. Os professores entraram na grande sala do laboratório
e convidaram os sessenta alunos a acompanhá-los. Caminharam,
espremidos, lentamente pela porta dupla, mas estreita.
Como espectadores de um grande show, a tensão expandiu-se
e procurou órgãos para se alojar, provocando sintomas
psicossomáticos. Uns sentiram palpitação, outros
ficaram ofegantes e ainda outros transpiravam .
Ao entrar, um choque emocional ecoou no âmago da jovem platéia.
Os alunos viram 12 cadáveres completamente nus, deitados
rígidos, com o peito e a face voltados para o teto. Cada
um estava estendido sobre uma alva mesa de mármore branco.
O cheiro de formol, usado para conservar os corpos, era quase insuportável.
Com olhos estatelados e mentes abismadas, os alunos contemplavam
os olhos opacos e inertes dos cadáveres. A maioria de meia-idade.
Entre eles o de um velho, cuja pele estava sem brilho, mas seu rosto
expressava doçura.
As mesas estavam separadas dois metros e meio umas das outras .Cada
grupo de cinco alunos ficaria encarregado de dissecar e estudar
um cadáver durante todo o ano. Teriam de rebater a pele,
separar os músculos, encontrar o trajeto dos nervos e das
artérias. Teriam de abrir o tórax e o abdômen
e vasculhar com precisão a cor, o tamanho, a localização
e a disposição de cada órgão interno.
Os jovens deveriam ser artesãos que penetrariam na mais bela
obra de arte.
Mas , no momento, ninguém desejava dissecá-los .
Todos estavam sob o impacto que a cena causara . Permeados por conflitos
existenciais diante do retrato desnudo da vida humana , os alunos
se perguntavam: "Quem somos? ", "O que somo s ? ",
"Em que nos tornamos diante do caos da morte? ", "Qual
o sentido da existência humana?". Perguntas simples e
intrigante s , mas que sempre perturbaram a humanidade , geraram
um drama no palco da inteligência dos jovens espectadores.
O ambiente produziu um abalo emocional repentino e incontrolável.
Alguns jovens, em especial algumas alunas mais sensíveis,
procuravam sair subitamente da sala. Estavam com os olhos lacrimejando,
amedrontadas e apreensivas. Não eram seus parentes nem seus
amigos, mas viram naqueles corpos o espelho da existência
humana . Vislumbraram que a vida é tão vasta e tão
efêmera, tão complexa e tão frágil. Enquanto
elas queriam sair da sala, outros colegas desejavam entrar. O tumulto
aumentou. Ninguém se entendia.
Contrapondo os conflitos dos alunos estavam os professores e técnicos
no fundo da sala. Alguns se entreolhavam e riam diante do desespero
da platéia. "São calouros", pensavam com
prepotência . No passado, eles também tiveram suas
inquietações , mas ao longo dos anos perderam a sensibilidade
,obstruíram a capacidade de perguntar e de procurar respostas
. Sufocaram seus conflitos , tornaram-se técnicos na vida.
No currículo dessa famosa faculdade não existiam
aulas de filosofia e psicologia que preparassem os alunos para enfrentar
o dilema da vida e da morte, o paradoxo entre o desejo de preservar
a saúde e a derrota diante do último suspiro.
Os sonhos eram dilacerados, a paixão pela vida esmagada.
O prejuízo no inconsciente dos futuros médicos era
intenso. Treinados para serem lógicos e objetivos, não
desenvolviam habilidades para lidar com o território da emoção.
Pouco a pouco, os pacientes deixavam sua condição
de seres humanos únicos para se tornarem órgãos
doentes, que precisavam se submeter aos exames e não ao diálogo.
Desse modo, a mais bela e importante das ciências se submetia
ao cárcere da economia de mercado. Hipócrates, o pai
da medicina, se revolveria em seu túmulo se soubesse disso.
Procurando controlar o impacto inicial, o Dr. George, chefe do
departamento de anatomia, pediu silêncio e solicitou que todos
retornassem ao laboratório e fizessem um círculo ao
redor da sala.
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