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Trecho de O Código da Inteligência,
de Augusto Cury
Capítulo 1
A definição
da inteligência:
o Homo sapiens, um ser além dos limites da lógica
As três grandes
áreas
que definem a inteligência
Ao definir nos próximos
parágrafos o que é inteligência gostaria que
o leitor não acostumado a esses conceitos não se desanimasse.
Será uma sintética exposição. Para a
Psicologia Multifocal a definição de inteligência
é abrangente e como o próprio nome da teoria diz,
é multifocal, multidinâmica, multifatorial. Alguns
autores também sugeriram que a inteligência é
multidimensional e modificável (Feurstein, 1980). O conceito
global de inteligência entra em três grandes estágios
ou três grandes áreas. As duas primeiras são
inconscientes e a última, consciente.
A primeira área
é mais profunda, refere-se aos fenômenos inconscientes
que atuam em milésimos de segundos no resgate e na organização
das informações da memória e conseqüentemente
na construção de pensamentos e emoções.
Essa produção é registrada milhares de vezes
por dia pelo fenômeno RAM (registro automático da memória),
construindo a plataforma que forma o Eu, que é a expressão
máxima da consciência crítica e capacidade de
escolha. Tudo o que percebemos, sentimos, pensamos, experimentamos,
tornam-se tijolos na construção dessa plataforma de
formação do Eu.
A segunda área
se refere ao corpo das complexas variáveis que influenciam
em pequenas frações de segundos os fenômenos
que lêem a memória e produzem os pensamentos, imagens
mentais, idéias e fantasias. Entre essas variáveis
destaco "como estou" (estado emocional e motivacional),
"quem sou" (a história existencial arquivada nas
janelas da memória), "onde estou" (ambiente social),
"quem sou geneticamente" (natureza genética e a
matriz metabólica cerebral) e o "como atuo como gestor
da psique" (o Eu como diretor do roteiro de nossa história).
Normalmente, as teorias
enfatizam os aspectos psíquicos, sociais e genéticos
na construção da inteligência. Alguns pensadores
se fixaram na interação entre as duas grandes forças
geradoras do desenvolvimento em geral, e da inteligência em
particular, a natureza e a cultura. "Não é uma
competição, é uma dança" (Sternberg,
1990). Sim, de fato há uma dança dinâmica de
variáveis, mas que ultrapassa essas duas grandes forças
geradoras.
Como vimos, além
da variável genética e cultural estão, em primeiro
plano, as variáveis "como atuo como gestor do psiquismo"
e o "grau de abertura das janelas da memória" determinado
pelos estados emocionais (alegria, tranqüilidade, humor depressivo,
ansiedade). Ao estudar esses outros fatores descobrimos que a mente
humana é mais complexa do que imaginamos.
Por exemplo, pensávamos
no passado que somente quem teve uma infância com traumas,
saturada de perdas e frustrações adoeceria, desenvolveria
transtornos psíquicos e psicossomáticos. Pobre engano!
Sabemos hoje que mesmo os que gozaram de uma infância feliz
e sem traumas, que tiveram o privilégio de ter pais amorosos,
generosos, solidários, podem ter uma vida psíquica
miserável na adolescência e na vida adulta se não
aprenderam a decifrar alguns códigos fundamentais ao longo
do processo de formação da personalidade.
Poderão ser
vítimas dos estresses financeiros, estresses existenciais,
perdas, competição predatória, frustrações,
preocupações excessivas; enfim, de uma série
de variáveis que dilapidam seu patrimônio psíquico,
em especial seu prazer de viver.
Outro exemplo: acreditamos
ingenuamente que temos pleno domínio do processo de construção
de pensamentos, idéias, imagens mentais. Não é
verdade. Podemos dominar computadores, carros, aviões, mas
não temos o domínio completo da mais incompreensível
das máquinas: a mente humana. Quantos pensamentos inquietantes
perturbam nossa tranqüilidade sem que os tenhamos produzido
conscientemente? Quantas idéias fóbicas transitam
pelo palco psíquico sem que tenhamos permitido que fossem
construídas pela vontade consciente?
O Eu como gestor psíquico,
administrador do intelecto, é apenas um dos códigos
da inteligência. Se mesmo sendo um bom gestor psíquico
não dominamos completamente os pensamentos e as emoções
da complexa mente humana, imagine se não decifrarmos esse
código, imagine se abrirmos mão dessa gestão
que ocorre nessa segunda grande área da inteligência.
Nesse caso, se usarmos
um veículo como uma analogia da mente humana, podemos dizer
que somos amordaçados no banco de passageiro como espectadores
passivos de uma viagem que não programamos. Aliás,
diariamente milhões de pessoas viajam em suas mentes no território
das fobias, das preocupações doentias, da ansiedade,
sem ter programado essa viagem. Entraram em um filme de terror que
não queriam assistir. O dramático é que o filme
roda na sua mente. Não há tecla para desligar o aparelho
mental.
Ao estudarmos a primeira
e segunda grande área da inteligência podemos concluir
que Homo sapiens, capaz de desenvolver equações
matemáticas, fórmulas físicas e lógicos
programas de computador, pode ser tão ilógico a ponto
de produzir reações agressivas, desproporcionais,
irracionais.
Peritos em lidar com
números podem perder sua lógica e reagir estupidamente
à mínima contrariedade. Médicos aparentemente
dosados diante de seus pacientes, podem reagir sem qualquer controle
ao serem questionados por seus pares. Na realidade, o Homo sapiens,
seja ele um psiquiatra ou paciente, matemático ou aluno,
é micro ou macro de acordo com cada momento existencial.
Ninguém é plenamente estável e coerente. O
nível de flutuação apenas determina o grau
de nossas doenças.
A terceira grande área
da inteligência se refere aos resultados das duas primeiras
áreas. Nessa área se encontram os comportamentos perceptíveis,
capazes de serem analisados, avaliados, aferidos. Nessa área
se evidencia a rapidez de raciocínio, o grau de memorização,
a capacidade de assimilação de informações,
o nível de maturidade nos focos de tensão, bem como
os patamares de tolerância, inclusão, solidariedade,
generosidade, altruísmo, segurança, timidez e empreendedorismo.
Na terceira área
da inteligência, segundo o conceito da Psicologia Multifocal,
é que são feitos os mais variados testes para se medir
os mais diversos tipos de quocientes de inteligência. Entretanto,
todos os testes são circunstanciais, parciais e incompletos.
Nenhum deles é definitivo. Habilidades que são detectadas
em uns, não são em outros. Capacidades que são
aferidas em um momento, se mudamos as variáveis (como estou,
onde estou, níveis de gestão psíquica), não
são aferidas em outros.
Não vou entrar
em muitos detalhes teóricos e científicos sobre essas
áreas nesta obra de aplicação psicológica,
mas gostaria de dizer que os códigos da inteligência
envolvem as três áreas. Decifrá-los e aplicá-los
são processos conscientes, mas ao fazer esse exercício
atingiremos as regiões inconscientes, as camadas mais profundas
da inteligência humana, ainda que não percebamos.
Destacarei oito códigos
da inteligência mais relevantes. Grande parte do que a imprensa
escreve é texto de auto-ajuda, orientação para
os leitores fazerem suas escolhas, apesar de alguns jornalistas
não admitirem e nem gostarem dessa linha literária.
Gosto muito de escrever
livros de ficção. Mas vários dos meus livros
são de "não-ficção". Alguns
deles são classificados erroneamente como auto-ajuda. Os
que os classificam assim, não entendem quais são as
gritantes diferenças entre um livro de auto-ajuda e um livro
de ciência aplicada; enfim, de psicologia, psiquiatria, pedagogia
e filosofia aplicada. Apesar das minhas enormes limitações,
procuro democratizar o conhecimento sobre o funcionamento da mente
extraído da teoria que desenvolvi.
Meu objetivo é
disponibilizar ferramentas para estimular o debate de idéias,
para que os leitores aprendam a atuar em seu psiquismo, a desenvolver
consciência crítica, proteger sua emoção,
tornarem-se gestores da sua mente e serem capazes de expandir seu
potencial intelectual e prevenir transtornos psíquicos.
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