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Trecho de Mentes Perigosas,
de Ana Beatriz Barbosa Silva
Ser consciente é ser capaz
de amar
Como visto na aula do professor Osvaldo,
o termo consciência é ambíguo, sugerindo
dois significados totalmente distintos. E por isso mesmo, é
compreensível que a esta altura o leitor esteja confuso.
Na realidade, a consciência é um atributo que transita
entre a razão e a sensibilidade. Popularmente falando, entre
a "cabeça" e o "coração".
Falar sobre consciência pode
ser uma tarefa "fácil" e "difícil"
ao mesmo tempo. O "fácil" são as explicações
científicas sobre o desenvolvimento da consciência
no cérebro, que envolvem engrenagens como atenção,
memória, circuitos neuronais e estruturas cerebrais, que
só serviriam para confundir um pouco mais. Nada disso vem
ao caso agora, pelo menos não é esse o meu propósito.
Portanto, esqueça! Aqui, vou considerar o lado "difícil",
subjetivo e relativo ao sentido ético da existência
humana: o SER consciente.
Mostrar apreço às condutas
louváveis, ser bondoso ou educado, ter um comportamento exemplar
e cauteloso, preocupar-se com o que os outros pensam a nosso respeito
nem de longe pode ser definido como consciência de fato. Afinal,
a consciência não é um comportamento em si,
nem mesmo é algo que possamos fazer ou pensar. A consciência
é algo que sentimos. Ela existe, antes de tudo, no campo
da afeição ou dos afetos. Mais do que uma função
comportamental ou intelectual a consciência pode ser definida
como uma emoção.
Peço licença e vou um
pouco além. No meu entender, a consciência é
um senso de responsabilidade e generosidade baseado em vínculos
emocionais, de extrema nobreza, com outras criaturas (animais, seres
humanos) ou até mesmo com a humanidade e o universo como
um todo. É uma espécie de entidade invisível,
que possui vida própria e que independe da nossa razão.
É a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e que
nos orienta para o caminho do bem.
A consciência nos impulsiona
a tomar decisões totalmente irracionais e até mesmo
com implicações de risco à vida. Ela permeia
as nossas atitudes cotidianas (como perder uma reunião de
negócios porque seu filho está ardendo em febre) e
até as nossas ações de extrema bravura e de
auto-sacrifício (como suportar a dor de uma tortura física
e psicológica em função de um ideal). E, assim,
a consciência nos abraça e conduz pela vida afora,
porque está em plena comunhão com o mais poderoso
combustível afetivo: o amor.
De forma bem prosaica, imagine a seguinte
situação:
Você está no aconchego
do seu apartamento, depois de um dia exaustivo de trabalho e reuniões.
Momentos depois, o interfone toca anunciando a visita inesperada
de uma grande amiga. Ela está grávida de sete meses
e chegou abarrotada de sacolas com as últimas compras do
enxoval. Apesar do cansaço, você fica verdadeiramente
feliz com sua presença.
Por alguns momentos, vocês conversam
alegremente sobre o bebê, os planos para o futuro e colocam
as "fofocas" em dia. Lá pelas tantas da noite,
sua amiga diz que precisa ir embora.
Em frações de segundos,
você pensa: "Preciso tomar um banho e dormir, será
que ela vai entender se eu não acompanhá-la até
a portaria do prédio?", "Mas ela está grávida
e tem tanta coisa pra carregar!", "É melhor eu
ir junto, não foi isso que me ensinaram."
Bom, essa tagarelice mental, que azucrina
tal qual um crime cometido, sem dúvidas não é
imoral. É absolutamente humana, natural e foge ao nosso controle.
Mas também não é a sua consciência soprando
no seu ouvido.
Ao contrário do "vou ou
não vou", você é imediatamente tomado por
um impulso generoso e se flagra no elevador com sua amiga, suas
bolsas e sacolas. Chama um táxi, abre a porta do carro, diz
ao motorista para ir com cuidado e se despedem felizes.
Hum! A consciência é assim
mesmo: chega sem avisar e não complica, apenas faz!
Uma história mais comovente:
São Paulo, domingo, novembro
de 2007. Cerca de três minutos após ter decolado do
aeroporto Campo de Marte, um Learjet 35 caiu de bico sobre uma residência,
onde moravam 14 pessoas de uma mesma família. No acidente
morreram o piloto, o co-piloto e seis pessoas que estavam na casa.
Os vizinhos Airton, de 47 anos, e seu pai, o sr. Ângelo, de
75, correram para o sobrado da família Fernandes assim que
ouviram o barulho da queda do avião. Pai e filho conseguiram
salvar Cláudia Fernandes, de 16 anos. Eles ouviram o choro
da garota, que é autista e brincava com sua amiga Laís
na hora do acidente. Airton, emocionado, descalço e com a
blusa suja de sangue e cinzas, lamentava ter conseguido salvar apenas
uma única vida. O sr. Ângelo queimou a mão ao
salvar Cláudia e, após ser atendido por médicos
no local, permaneceu na rua tentando furar o bloqueio policial para
voltar aos escombros.
Sem qualquer sombra de dúvidas,
podemos afirmar que Airton e Ângelo possuem consciência.
E naquela tarde de domingo, eles não pensaram, simplesmente
agiram: isso é pura consciência em exercício.
Todas as pessoas portadoras de consciência
se emocionam ao testemunhar ou tomar conhecimento de um ato altruísta,
seja ele simples ou grandioso. Qualquer história sobre cons
ciência é relativa à conectividade que existe
entre todas as coisas do universo. Por isso, mesmo de forma inconsciente
(sem nos darmos conta), alegramo-nos frente à natureza gentil
dos atos de amor.
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