| Trecho de A Conspiração contra os Médici,
de Marcello Simonetta
Máxima de um país mínimo
A
boa poesia é uma prosa de silêncios. A vocação do prosador
é a análise — e sua competência pode ser testada pela precisão
com que discorre ou informa sobre um sentimento, um objeto ou uma circunstância
—, a do poeta é a síntese que expresse o resultado dessa busca,
escondendo o percurso, ainda que as duas experiências de linguagem frequentemente
se misturem. Um bom verso jamais dá explicações, é
enigma. Cumpre ao leitor tentar entender como e por que o poeta chegou a uma dada
formulação, perscrutar as intenções do verso, adivinhar
o caminho percorrido, decompor o emblema. Um bom verso tem de ser um problema.
Exponho
aqui uma apreensão muito pessoal dessas diferenças — como é
próprio da minha escrita, mesmo me dedicando, na maior parte do tempo,
à análise política. A prosa, seja a narrativa literária,
a ata de uma reunião ou uma dissertação, convida o leitor
a acompanhar a construção de um edifício retórico.
Pouco importa se o autor é do tipo hostil ou amigável, o fato é
que ele estabelece com o leitor uma cumplicidade. Quando os dois chegam ao fim
da viagem — ainda que tenham apenas atravessado a rua, num conto mínimo
—, é preciso que este pequeno passeio esteja pontuado de propósitos.
A poesia, ao contrário, expõe o resultado de uma busca sem testemunhas
ou aquiescências necessárias. O poeta pode fazer a declaração
que seria o suicídio do prosador: "É assim porque eu quero."
A
fala do prosador é outra: "É assim, mas eu disse por quê.
Expus as circunstâncias, os indícios ou os argumentos que obrigaram
esta história ou esta tese a ter este desfecho ou esta conclusão."
Na releitura, a conclusão de uma boa prosa tem de se mostrar previsível,
necessária e fatal. Lembremo-nos de Dom Casmurro, de Machado de
Assis: a Capitu da Praia da Glória estava mesmo dentro da Capitu de Mata-Cavalos,
tal qual a fruta está dentro da casca? A resposta está no percurso,
por mais ambígua que seja.
Começo a trilhar o
caminho de volta. O jornalismo, nas suas mais variadas manifestações
— da narrativa mais objetiva ao texto dissertativo, que é aquele a que
me dedico —, é prosa. Já a frase, a exemplo daquelas que se isolam
ou se destacam neste livro, é parente da poesia: é uma prosa de
silêncios. Não estou tentando enobrecer nem uma coisa nem outra.
Busco paralelos em outras experiências de texto para caminhar junto com
o leitor — esta introdução, afinal, é prosa. Cumpre revelar
neste ponto algum antecedente histórico.
Sou, de hábito,
prolixo. Se me é dado escolher entre escrever mais ou escrever menos, escolho
sempre "mais". Se deixarem por minha conta, escolho é "muito".
Posso estar estupidamente errado sobre isso e aquilo, mas me pego sempre disposto
a esmiuçar cada detalhe do meu pensamento. Minha única arrogância
intelectual está neste esforço de ser compreendido, o que não
quer dizer que eu espere que meus argumentos sejam aceitos ou que vá modular
o que penso de acordo com o gosto e as opiniões de quem me lê. Esforço-me
para ser amigável. Reconheço, não obstante, que domino um
vasto repertório de hostilidades porque os consensos me incomodam. Vivo
numa luta permanente, proseando, buscando a conclusão necessária,
única, fatal, sempre agarrado à lógica. Gosto de descompor
inteirezas, esmiuçar, ver detalhes — isso define, enfim, um analista. Por
isso mesmo, jamais me havia ocorrido fazer um livro de frases. De verdade, os
leitores o fizeram em meu lugar.
Os leitores? Sim, foram eles
que criaram páginas na Internet, isolando trechos dos meus artigos que
dispensavam, e dispensam, as circunstâncias que os trouxeram à luz.
Fizeram-me ver que determinados juízos valiam por aforismos; que certas
percepções da realidade política, consolidadas em frases,
tornavam-se emblemas; que, às vezes, uma opinião longamente exposta
trazia uma síntese que buscava ser o que a chave de ouro é num soneto.
Os leitores me ajudaram a fazer a seleção, e as frases que aqui
estão, de fato, podem sobreviver aos textos que as abrigaram.
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