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Trecho de Marley e Eu, de John Grogan

 

Capítulo 1
Um filhote vezes três

Nós éramos jovens. Estávamos apaixonados. Estávamos nos deleitando naqueles sublimes primeiros dias de casamento quando a vida parece que não pode se tornar mais maravilhosa. Mal conseguíamos ficar longe um do outro.

Então, numa noite de janeiro de 1991, eu e minha mulher, casada há quinze meses comigo, jantamos rapidamente e partimos para responder a um anúncio classificado do Palm Beach Post.

Por que estávamos fazendo isso, eu não tinha certeza. Algumas semanas antes eu despertara logo depois de amanhecer sozinho na cama. Levantei-me e encontrei Jenny sentada, em seu roupão de banho, na mesa de vidro na varanda telada de nosso pequeno bangalô, curvada sobre o jornal com uma caneta na mão.

Não havia nada de inusitado na cena. O Palm Beach Post não era somente o nosso jornal local diário, bem como era a fonte de metade de nossa renda familiar. Ambos escrevíamos para dois jornais. Jenny trabalhava como comentarista de cinema na seção de filmes do Post; e eu era um repórter de notícias do jornal concorrente da região, o Sun-Sentinel no sul da Flórida, a uma hora de viagem sul, em Fort Lauderdale. Começávamos, toda manhã, a perscrutar os jornais, para ver como nossas histórias saíam e como se comparavam com as que saíam nas edições concorrentes. Circulávamos, sublinhávamos e recortávamos sem parar.

Mas, nesta manhã, Jenny não estava com a cara enfiada na página de notícias, mas na seção de classificados. Quando eu me aproximei, notei que ela estava febrilmente circulando anúncios sob o título "Animais de Estimação — Cães".

— Ah... — eu disse, num tom gentil de marido recém-casado, ainda pisando em ovos. — Há algo que eu deveria saber?

Ela não me respondeu.

— Jen... Jen?

— É a planta — ela disse, finalmente, num tom de voz ligeiramente

desesperado.

— A planta? — perguntei.

— Aquela planta estúpida — ela disse. — Aquela que nós matamos.

Aquela que nós matamos? Eu não queria mencionar o assunto, mas, apenas esclarecendo, foi a planta que eu comprei e que ela matou. E a trouxe de surpresa, certa noite, uma imensa comigo-ninguém-pode, com folhas em belos tons bege, amarelo e esmeralda.

— Qual é a ocasião? — ela perguntou.

Mas não havia nenhuma. Eu lhe dei a planta sem nenhum motivo especial além de querer dizer a ela:

— Nossa, não é ótimo estarmos casados?

Ela adorou tanto o meu gesto quanto a planta e agradeceu-me, jogando seus braços em volta do meu pescoço e beijando-me nos lábios. Então, foi imediatamente matar o presente que dei a ela com uma eficiência fria e assassina. Não que ela quisesse matá-la; como se fosse nada, ela aguou a coitadinha até morrer. Jenny não tinha grandes pendores para plantas. Imaginando que todos os seres viventes precisam de água, mas aparentemente se esquecendo que também precisam de ar, ela se pôs a encharcar a planta diariamente.

— Tome cuidado para não aguá-la demais — eu a prevenia.

— Certo — ela respondia e, em seguida, entornava mais um galão de água na coitadinha.

Quanto mais fraca a planta ficava, mais água ela colocava, até praticamente dissolvê-la. Eu olhei desalentado para seu esqueleto esquálido no vaso junto à janela e pensei: "Puxa, se eu acreditasse em presságios, estaria apavorado de ver isto".

E agora aqui estava ela, de algum modo fazendo um salto cósmico de lógica, de uma flora morta em um vaso, a uma fauna viva em um anúncio classificado de animais de estimação. Mate uma planta, compre um cachorrinho. Bem, claro, parecia bem lógico.

Olhei mais atentamente para o jornal à frente dela e vi que um anúncio em especial parecia ter-lhe chamado mais a atenção. Ele desenhara três estrelas vermelhas e gordas do lado. Lia-se: "Filhotes de laboratório, amarelo. AKC raça pura. Todos os matizes. Pais no local".

— Então — eu disse — você vai tentar me enganar nesse negócio de tomar conta de planta e cachorro novamente?

— Você sabe — ela disse, erguendo a cabeça — eu me esforcei tanto e veja só o que aconteceu. Não sei sequer tomar conta de uma planta estúpida. Quero dizer, qual é a grande dificuldade? Tudo que precisamos fazer é jogar água na maldita planta.

Então, ela abriu o jogo:

— Se eu não consigo sequer manter uma planta viva, como vou conseguir manter um bebê com vida?

Ela fez como se fosse começar a chorar.

A "Questão Bebê", como designava, havia se tornado uma constante na vida de Jenny e estava aumentando a cada dia. Quando nos conhecemos, num pequeno jornal do lado oeste do Estado de Michigan, ela tinha saído havia poucos meses da faculdade e uma vida adulta séria ainda parecia algo muito distante. Para nós, era nosso primeiro trabalho profissional fora da escola. Comíamos um monte de pizzas, bebíamos um monte de cervejas, e nem esquentávamos com a possibilidade de algum dia ser qualquer outra coisa senão jovens, solteiros e consumidores inveterados de pizza e cerveja.

Mas os anos se passaram. Nós mal tínhamos começado a namorar, quando várias oportunidades de emprego — e um ano de programa de pós-graduação para mim — nos levaram em direções opostas ao longo da costa leste dos Estados Unidos. No início, estávamos a uma hora de distância de carro. Depois, ficamos a três horas de estrada. Em seguida, oito e, mais tarde, vinte e quatro horas. Na época em que aterrissamos ao mesmo tempo no sul da Flórida e nos amarramos, ela tinha quase trinta. Suas amigas estavam tendo bebês. Seu corpo estava começando a cobrar isso dela. Aquela antiga e aparentemente eterna janela de oportunidade procriativa estava lentamente se fechando.

Eu me aproximei dela por trás, passei meus braços em volta de seus ombros, e beijei o alto de sua cabeça.

— Está bem — eu disse.

Mas eu tive de admitir, ela havia feito uma boa pergunta. Nenhum de nós jamais cuidara de qualquer coisa na vida. Com certeza, tínhamos tido animais de estimação, mas eles não contavam. Sempre soubemos que nossos pais os manteriam vivos e bem. Sabíamos que um dia gostaríamos de ter filhos, mas algum de nós estava realmente pronto para isso? Filhos eram tão... tão... assustadores. Eles eram indefesos e frágeis, e parecia que iriam se quebrar ao meio se caíssem no chão.

Um sorriso irrompeu no rosto de Jenny.

— Pensei que talvez um cachorro nos desse alguma prática — ela arrematou.

Estávamos dirigindo no escuro, seguindo em direção noroeste para fora da cidade, onde os subúrbios de West Palm Beach se transformam em propriedades agrícolas espalhadas por toda parte. Repensei a nossa decisão de trazer um cão para casa. Era uma enorme responsabilidade, especialmente para duas pessoas que trabalhavam em período integral. Apesar disso, sabíamos o que queríamos com isso. Crescêramos com cachorros e os amamos imensamente. Eu tivera São Shaun e Jenny tivera Santa Winnie, sua setter inglesa tão amada por sua família. Nossas mais felizes lembranças de infância quase sempre incluíam nossos cães. Fazendo trilha com eles, nadando com eles, brincando com eles, entrando em fria com eles. Se Jenny apenas queria um cachorro para despertar seus instintos maternais, eu teria tentado convencê-la do contrário e talvez tentasse acalmá-la com um peixinho dourado. Mas como sabíamos que um dia queríamos ter nossos filhos, tínhamos certeza de que o nosso lar não seria completo sem um cachorro deitado aos nossos pés. Quando começamos a namorar, muito antes de filhos surgirem em nossa mente, gastamos horas discutindo os animais de estimação que tivemos na infância, quanto sentíamos falta deles e quanto ansiávamos, algum dia — quando tivéssemos uma casa que fosse nossa e alguma estabilidade em nossas vidas —, ter um cachorro novamente.

Agora tínhamos as duas coisas. Estávamos juntos num lugar que não tínhamos planos de deixar em breve. E a casa era muito nossa.

Era uma perfeita casinha em um lote de terreno perfeito de mil metros quadrados, cercado do tamanho exato para um cachorro. E a localização também era perfeita, com uma vizinhança urbana despojada, a um quarteirão e meio de distância da Intracoastal Waterway, que separava West Palm Beach das mansões elegantes de Palm Beach. No começo da nossa rua, Churchill Road, uma área verde linear e trilhas pavimentadas se estendiam por quilômetros à beira d’água. Era ideal para fazer caminhada, andar de bicicleta e patins. E, acima de tudo, para levar um cachorro para passear.

A casa havia sido construída na década de cinqüenta, e tinha o charme da antiga Flórida — uma lareira, paredes rústicas, janelas grandes, e portas que nos levavam ao nosso canto favorito dentro da casa: ao jardim de inverno na parte de trás. O quintal era um pequeno abrigo tropical, cheio de palmeiras, bromélias, abacateiros e plantas furta-cor. Acima, dominando a propriedade, havia uma mangueira altíssima; todo verão, ela deixava cair as mangas pesadas com um barulho surdo que mais pareciam, talvez estranhamente, corpos que caíam de cima do telhado. Ficávamos deitados na cama, acordados, ouvindo os baques secos da queda.

Compramos o bangalô de dois quartos e banheiro alguns meses depois que voltamos de nossa lua-de-mel e imediatamente começamos a reformá- lo. Os donos anteriores, um funcionário dos correios aposentado e sua mulher, adoravam verde. O lado externo de estuque era verde. As paredes internas eram verdes. As cortinas eram verdes. As venezianas eram verdes. A porta da frente era verde. O carpete, que eles haviam acabado de comprar para ajudar a vender a casa, era verde. Mas não era um verdevivo e alegre ou um verde esmeralda sofisticado, ou até mesmo um verdelimão ousado, mas um verde vômito-de-sopa-de-ervilha com um colorido cáqui. A casa tinha uma aparência de barraca de campo de exército.

Na primeira noite que passamos em casa, arrancamos cada centímetro quadrado do novo carpete verde e o arrastamos até o meio-fio. Sob o carpete, descobrimos um assoalho de tábuas de madeira de carvalho que, pelo que pudemos avaliar, nunca havia sido pisado por um salto de sapato na vida. Nós o lixamos e envernizamos até ficar totalmente brilhante. Então saímos e torramos a maior parte do pagamento de duas semanas de trabalho em um belíssimo tapete persa e o desenrolamos na sala de visitas diante da lareira. Ao longo dos meses, repintamos todas as superfícies verdes e trocamos todas as decorações verdes. A casa do funcionário dos correios estava lentamente se tornando nossa casa.

Quando finalmente conseguimos deixá-la perfeita, era perfeitamente plausível que trouxéssemos para casa um imenso companheiro de quatro patas, com unhas das patas afiadas, dentes enormes e pouco conhecimento da língua inglesa para começar a destruí-la.

— Devagar, querido, ou você vai perder a entrada — caçoou Jenny.

— Ela vai aparecer a qualquer segundo.

Estávamos seguindo ao longo de um charco escurecido, que havia sido drenado após a Segunda Guerra Mundial para irrigar fazendas e depois foi colonizado por moradores dos subúrbios que buscavam um estilo de vida no campo.

Como Jenny predisse, os faróis logo iluminaram uma caixa postal com o endereço que estávamos procurando. Subi a entrada que nos conduziu a uma grande área arborizada com um lago defronte a uma casa com um pequeno celeiro na parte de trás. À porta, uma senhora de meia-idade chamada Lori nos cumprimentou, com um plácido labrador amarelo ao lado dela.

— Esta é Lily, a orgulhosa mamãe — Lori disse, depois que nos apresentamos a ela.

Constatamos que cinco semanas depois de dar à luz, a barriga de Lily ainda estava distendida e suas tetas saltadas. Ajoelhamo-nos e ela alegremente aceitou nossos carinhos. Ela era exatamente como imaginávamos que deveria ser um cão labrador — de natureza doce, afeiçoado, calmo e lindo.

— Onde está o pai? — perguntei.

— Oh — respondeu a mulher, hesitando por uma fração de segundo.

— Sammy Boy? Ele deve estar por aí em algum lugar.

E acrescentou, rapidamente:

— Imagino que devam estar loucos para ver os filhotes.

Ela nos conduziu através da cozinha até um quarto de serviço que fora transformado em berçário. O chão estava coberto de folhas de jornal e, num canto estava uma caixa baixa forrada com antigas toalhas de praia. Mas mal reparamos nesses detalhes. Como poderíamos, ao ver nove filhotes amare os minúsculos, um subindo por cima do outro, tentando ver quem eram os novos estranhos que apareciam ali? Jenny suspendeu sua respiração.

— Meu Deus — ela disse. — Acho que nunca vi algo tão lindinho em

toda a minha vida.

Sentamo-nos no chão e deixamos os filhotes subir por cima de nós, enquanto Lily passeava em volta, vaidosa, balançando a cauda e cheirando cada um deles para ter certeza de que estavam bem. O acordo que fiz com Jenny quando concordei em vir aqui foi de que veríamos os filhotes, faríamos algumas perguntas e verificaríamos se realmente estávamos prontos para trazer um cão para casa.

— Este é o primeiro anúncio que estamos respondendo — eu disse.

— Não vamos tomar nenhuma decisão precipitada.

Mas depois de passados trinta segundos, pude ver claramente que eu havia perdido a batalha. Não tive dúvida de que antes do fim da noite um desses cachorros seria nosso.

Lori era o que se pode chamar de criadora de fundo de quintal. Éramos novatos para comprar cães de raça, mas havíamos lido o suficiente para nos mantermos longe das conhecidas fazendas de filhotes, estas criações comerciais que geram cães de raça como se fossem modelos novos de carro. Diferentemente de carros produzidos em larga escala, no entanto, filhotes com pedigree produzidos em massa podem vir com sérios problemas hereditários, de displasia do quadril a cegueira precoce, trazidos por mistura de múltiplas gerações.

Lori, por outro lado, fazia isso por hobby, mais motivada pelo amor pela criação dos cães do que pelo lucro. Ela tinha apenas uma fêmea e um macho. Eles tinham descendências distintas, e possuía os documentos para comprová-las. Esta seria a segunda e última ninhada de Lily antes de se tornar apenas um animal de estimação que vivia no campo. Com ambos os pais vivendo na casa, o comprador poderia ver, de primeira mão, a sua linhagem.

— embora, no nosso caso, o pai estivesse aparentemente fora de vista.

A ninhada tinha cinco fêmeas e quatro delas já estavam reservadas e quatro machos. Lori estava pedindo US$ 400 pela última fêmea e US$ 375 pelos machos. Um dos machos parecia ter-se apaixonado por nós. Ele era o mais palhaço de todos e avançava sobre nós, pulando no nosso colo e agarrando-nos com as patas para escalar pela roupa e lamber nosso rosto. Ele mordiscava nossos dedos com dentes de leite afiados e andava trôpego em círculos à nossa volta com patas redondas gigantescas, totalmente fora de proporção quanto ao restante do seu corpo.

— Este vocês podem levar por US$ 350 — disse a criadora.

Jenny é uma caçadora de barganhas que traz para casa qualquer coisa que sequer queiramos ou precisemos apenas porque estava sendo vendida a um preço atraente demais para ser deixada para trás.

— Sei que você não pratica golfe — ela me disse um dia, puxando um conjunto de tacos usados do carro. — Mas você não acreditaria no preço que paguei por eles.

Agora eu via seus olhos se iluminarem.

— Ah, amorzinho — ela arrulhou. — Estezinho está a preço de liquidação!

Eu tive de admitir que ele era adorável. E elétrico, também. Antes que eu percebesse o que ele iria fazer, o danadinho havia mastigado metade da correia do meu relógio.

— Temos de fazer o teste do medo — eu disse.

Eu havia contado a Jenny inúmeras vezes a história de como escolhera São Shaun quando era menino, e que meu pai me ensinara a fazer um movimento brusco ou um barulho bem alto para distinguir os tímidos dos mais confiantes. Sentada entre os filhotes, ela revirou os olhos como sempre fazia toda vez que se deparava com um comportamento estranho da família Grogan.

— É sério — eu disse —, isso funciona.

Eu me levantei, me afastei dos filhotes, então me virei rapidamente de novo, avançando de repente na direção deles com um passo largo. Bati o pé e exclamei:

— Ei!

Nenhum deles parecia ter-se abalado com as minhas contorções. Apenas um pulou, encarando-me de frente. Era o Cão de Liquidação. Ele avançou sobre mim, entrando entre meus calcanhares e agarrando os meus cadarços como se fossem perigosos inimigos que precisassem ser destruídos.

— Creio que este seja o escolhido pelo destino — disse Jenny.

— Você acha? — eu perguntei, pegando-o e segurando-o numa das mãos diante do rosto, estudando suas feições.

Ele olhou para mim com olhos marrons chorosos de cortar o coração e então lambiscou o meu nariz. Eu o coloquei nos braços de Jenny e ele repetiu o gesto.

— Com certeza ele parece gostar de nós — eu disse.

E assim foi feito. Entregamos um cheque de US$ 350 à Lori e ela nos disse que poderíamos voltar para levar nosso Cão de Liquidação para casa em mais três semanas, quando ele teria oito semanas de idade e estivesse desmamado. Agradecemos a ela, fizemos um último carinho em Lily e nos despedimos.

Ao nos dirigirmos para o carro, coloquei meu braço em volta do ombro de Jenny e abracei-a forte.

— Você acredita nisto? — eu perguntei. — Nós agora temos um cachorro!

— Mal posso esperar para levá-lo para casa.

No momento em que nos aproximamos do carro, ouvimos um estrondo vindo do meio da floresta. Alguma coisa vinha caminhando entre os arbustos — e respirava pesadamente. Parecia um barulho de filme de terror. E estava vindo em nossa direção. Gelamos, encarando a escuridão. O barulho aumentou e aproximou-se mais ainda. Então, num segundo, alguma coisa surgiu do nada e avançou para cima de nós, uma mancha amarela. Uma imensa mancha amarela. Quando passou galopando por nós, sem parar, sem sequer nos notar, vimos que era um grande labrador. Mas não se parecia em nada com a doce Lily que acabáramos de conhecer lá dentro. Este estava encharcado e tinha o pêlo da barriga coberto de lama e carrapichos. Sua língua dependurava-se, selvagem, de um lado da boca e ele espumava copiosamente ao passar por nós. No segundo em que pude vê-lo, detectei um olhar estranho, um pouco louco, porém divertido em sua expressão. Era como se ele tivesse acabado de ver um fantasma — e estivesse apavorado.

Então, com o bramido de uma horda de búfalos em disparada, ele se foi para a parte de trás da casa, e desapareceu de vista. Jenny engoliu em seco.

— Acho — comentei, com um ligeiro nó na garganta — que acabamos de conhecer o pai.

Capítulo 2

Seguindo o sangue azul

Nossa primeira reação como donos de um cachorro foi brigar.

Começou na volta para nossa casa, e continuou em discussões e rusgas por toda a semana seguinte. Não concordávamos em qual nome iríamos dar ao nosso Cão de Liquidação. Jenny desprezou todas as minhas sugestões e eu recusei as dela. A batalha culminou numa manhã antes de eu sair para o trabalho.

— Chelsea? — eu perguntei. — Esse é um nome tão sofisticado. Nenhum cão macho teria esse nome.

— Como se ele se importasse com o próprio nome — Jenny replicou.

— Caçador — eu disse. — Caçador é perfeito.

— Caçador? Você está brincando, não é? O que deu em você, um ataque de machismo esportivo? É um nome masculino demais. Além disso, você jamais caçou na sua vida.

— Ele é um macho — respondi, espumando. — Ele deve ser masculino. Não transforme isto em um dos seus discursos feministas.

Isso não estava dando certo. Eu estava perdendo a paciência. No momento em que Jenny iria partir para o contra-ataque, eu rapidamente tentei reforçar meu candidato favorito:

— O que tem de errado com Louie?

— Nada, se você for um frentista de posto de gasolina — ela replicou.

— Ei! Olha a língua! Este é o nome do meu avô. Acho que então deveríamos batizá-lo com o nome do seu avô? "O bom cão Bill!"

Enquanto discutíamos, Jenny, num gesto automático, caminhou até o estéreo e apertou o botão do toca-fitas. Era uma de suas estratégias de combate marital. Em dúvida, afogue o oponente. Os acordes reggaes ritmados de Bob Marley começaram a pulsar pelos alto-falantes, produzindo um efeito meloso praticamente instantâneo sobre nós dois.

Havíamos apenas descoberto o cantor jamaicano falecido quando nos mudamos de Michigan para a Flórida. No Meio-Oeste americano apenas ouvíamos Bob Seger e John Cougar Mellencamp. Mas aqui no caldo étnico pulsante do sul da Flórida, a música de Bob Marley, mesmo uma década depois de sua morte, estava por toda parte. Ouvíamos no rádio do carro enquanto descíamos a Biscayne Boulevard. Ouvíamos tomando cafés cubanos na Pequena Havana e comendo carne de galinha à moda jamaicana nos pequenos pés-sujos dos sombrios bairros de imigrantes a oeste de Fort Lauderdale. Ouvíamos enquanto experimentávamos pela primeira vez uma fritada de moluscos no Festival de Bahamian Goombay em Coconut Grove em Miami, e fazendo compras de arte haitiana em Key West.

Quanto mais explorávamos, mais nos apaixonávamos, tanto com o sul da Flórida e um pelo outro. E sempre ao fundo, aparentemente, estava Bob Marley. Ele estava lá enquanto tostávamos na praia, enquanto pintávamos as paredes verdes da nossa casa, quando acordávamos ao amanhecer com os gritos dos papagaios selvagens, e fazíamos amor com a primeira luz que filtrava através da pimenteira brasileira que tínhamos em frente à nossa janela. Nós nos apaixonamos pela música dele pelo que ela era, mas também por aquilo que ela definia, o momento em nossas vidas quando deixamos de ser dois e nos tornamos um. Bob Marley era a trilha sonora de nossa nova vida juntos neste lugar estranho, exótico e mal-ajambrado, tão diferente de qualquer outro onde tivéssemos vivido.

E agora, dos alto-falantes, surgia nossa canção preferida dentre todas, por ser tão pungente e bela, e falar direto ao nosso coração. A voz de Marley tomou a sala, repetindo o refrão várias vezes: "Is this love that I’m feeling?". E, nesse mesmo momento, como se tivéssemos ensaiado por várias semanas, gritamos, em uníssono:

— Marley!

— É isto! — exclamei. — Este é o nome que estávamos procurando.

Jenny sorriu, o que era um bom sinal.

Eu ensaiei:

— Venha, Marley! — ordenei. — Sente, Marley! Bom garoto, Marley!

Jenny se juntou a mim:

— Meu Marley queridinho-inho-inho...

— Ei, eu acho que funciona — disse.

Jenny também achava. Nossa briga acabara. Finalmente tínhamos o nome de nosso filhote.

Na noite seguinte, depois do jantar, entrei no quarto onde Jenny estava lendo e eu disse:

— Acho que precisamos incrementar um pouco o nome dele.

— Do que você está falando? — ela perguntou. — Nós adoramos o nome.

Eu havia lido os papéis de registro do American Kennel Club. Como um labrador puro-sangue com ambos os pais devidamente registrados, Marley tinha direito a um registro da AKC também. Isto apenas seria necessário se planejássemos fazê-lo participar de exposições ou ter uma criação de cães, quando este papel realmente se tornava importante. Para um cão de estimação, no entanto, seria supérfluo. Mas eu tinha grandes planos para o nosso Marley. Esta era a primeira vez que eu tinha a chance de me aproximar da nobreza, incluindo a minha própria família. Bem como São Shaun, o cão da minha infância, de uma linhagem sem distinção. A minha representava mais países do que a União Européia. Este cão era o mais próximo que eu chegaria do sangue azul, e eu não deixaria passar nenhuma oportunidade que me fosse oferecida. Admito que deixei isto me subir à cabeça.

— Vamos imaginar que queiramos inscrevê-lo em competições — eu arrematei. — Alguma vez você já viu o campeão com apenas um nome? Eles sempre têm nomes compridos, como Sir Darworth de Cheltenham.

— E seu dono, Sir Dorkshire de West Palm Beach — replicou Jenny.

— Estou falando sério — respondi. — Poderíamos ganhar dinheiro fazendo-o competir. Você sabe quanto as pessoas pagam por cães de topo de linha? Todos eles têm nomes extravagantes.

— Faça o que você quiser, meu amor — disse Jenny e voltou a ler seu livro.

Na manhã seguinte, depois de queimar a mufa até tarde da noite, peguei-a diante da pia do banheiro e disse:

— Bolei o nome perfeito.

Ela me olhou, cética:

— Diga — ela desafiou.

— Ok. Está pronta? Aí vai.

Pronunciei cada um dos nomes lentamente:

— Grogan’s Majestic Marley of Churchill.

Puxa, pensei, isso soa verdadeiramente nobre.

— Puxa — respondeu Jenny —, isso soa realmente imbecil.

Nem liguei. Eu iria lidar com a papelada, e já tinha escrito o nome. À caneta. Jenny poderia torcer o nariz quanto quisesse. Quando Grogan’s Majestic Marley of Churchill recebesse as honras máximas na Exposição de Cães do Westminster Kennel Club dentro de alguns anos, e eu passeasse gloriosamente com ele em volta do picadeiro diante de uma audiência de televisão internacional simplesmente encantada, veríamos quem iria rir por último.

— Vamos lá, meu duque de nada — disse Jenney —, vamos tomar o café da manhã.

 

 

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