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Trecho de Laowai, de Sônia Bridi

Nihao Beijing! Olá, Pequim!

O chinês alto, jovem, sorridente, segurando uma placa com meu nome, me dá um alívio tão grande que quase corro para abraçá-lo. Ken é o gerente do apart-hotel no qual alugamos um apartamento de três quartos para acomodar a família na chegada. Somos cinco. Mariana, minha filha, veio para ajudar na adaptação do irmão Pedro, nos primeiros dias. Paulo, eu e Fafá – a Maria de Fátima, uma piauiense gordinha, risonha e valente que embarcou na aventura conosco certa de que não seria muito mais difícil ir de avião para a China (32 horas, contando escalas) do que num pau-de-arara de Cristino Castro, Piauí, até São Paulo. Fafá praticamente viu Pedro nascer e seus cuidados se mostrariam fundamentais nos meses seguintes.

A cortesia de Ken, de nos buscar no aeroporto, foi uma surpresa agradável. Estávamos prontos para pegar um táxi, com o endereço em chinês num papel para entregar ao taxista. Se já estava ansiosa, fiquei ainda mais depois de passar por todos os trâmites de imigração com o Pedrinho pulando de colo em colo, exausto. Agora, ouvindo mandarim, os olhos do nosso pequeno arregalados de curiosidade, parece que caiu a ficha. Sim, atravessamos meio mundo e viemos ser estrangeiros numa terra muito estranha. Viramos laowais (gringos). A constatação me faz tremer. Olho para Paulo e Mariana, os dois alegres, relaxados. É confortante.

O sol brilha intenso e o céu exibe um azul profundo, sem nenhuma nuvem. Mas é botar o nariz para fora e acaba a ilusão de tempo bom. Dez graus negativos e vento. Na via expressa que liga o aeroporto ao centro, um choque. A paisagem desolada, seca, muito diferente da que vimos, meses antes, durante o verão, quando viemos produzir um programa do Globo Repórter e acompanhar a visita do presidente Lula. Lembro das flores do verão. Agora, pequenos prédios do subúrbio, casas, tudo tem a mesma cor cinzenta da poeira que tinge tijolos, cobre os carros, gruda nos cabelos e vai colando nas bochechas das crianças quando escorre o nariz ou rola uma lágrima.

Pedrinho ainda é muito pequeno para saber o que o espera. No avião, me perguntou se a gente nunca mais ia voltar ao Brasil, se é verdade que seus olhos vão mudar, como tanta gente disse a ele, brincando, antes de embarcamos.

- Vai morar na China, Pedrinho? Vai ficar de olhos puxados...

Agora está adormecido nos braços do pai enquanto nos aproximamos da cidade. Lá fora, um canteiro de obras, em seguida um trecho de demolição, a poeira subindo em curva por causa do vento forte. Destruição e construção. Nesta China em transformação vertiginosa, viveremos os próximos dois anos e três dias. Junto com minha ansiedade, outro sentimento vai ganhando força: uma crescente excitação, ao pensar que há tanta gente a conhecer, tantas coisas a descobrir.

Nihao, Beijing! Olá, Pequim.

O fuso e a fila

- Mamããe! Já amanheceu?

A pergunta nos tortura há dez noites.

Com o fuso horário 11 horas à frente da hora de Brasília, Pedrinho acorda no meio da madrugada e quer brincar. Como explicar para um carinha de três anos que é preciso ter paciência, ficar quietinho, tentar dormir de novo? Somos quatro nos revezando nas longas noites insones de meu filho, todos lidando com as próprias dificuldades de adaptação ao horário.

O ar seco aumenta o desconforto. Pequim fica a apenas 90 km da margem Sul do deserto de Gobi – que se estende pelo Norte da China e por um terço do território da Mongólia –, o que já responde por muito da secura. E desde novembro com temperatura abaixo de zero, toda a umidade do ar congela e precipita. Por isso, a compra de umidificadores foi a primeira aquisição para o nosso lar chinês.

- Mamãããe!!!! Posso levantar, brincar com o bebezão?

Bebezão é o Lucas, filho de Marissol Romaris e Luís Fernando de Carvalho, diplomatas brasileiros que chegaram uns dias antes e estão hospedados no mesmo apart-hotel. Conheci Marissol e Lucas na recepção, no dia em que chegamos. Ela se apresentou e nos convidou para uma festinha no mesmo dia, ali no restaurante do hotel. Foi o primeiro aniversário do Lucas, um bebê grande e simpático.

Entre brigadeiros e empadinhas, conhecemos boa parte da reduzida comunidade brasileira em Pequim – a maioria diplomatas e funcionários da embaixada. Outro grupo é o de engenheiros e executivos da Embraco, empresa catarinense que foi uma das primeiras do Brasil a investir na China, ao construir uma fábrica em joint-venture com uma companhia chinesa.

O embaixador Luiz Augusto de Castro Neves colocou-se à disposição, se precisássemos de ajuda. Nem imaginávamos o quanto iríamos precisar. E logo.

Os passos para regularizar nossa vida parecem simples. De acordo com a embaixada da China no Brasil, devemos, como primeira providência, tirar a carteira de jornalista no Birô de Jornalistas Estrangeiros do Ministério das Relações Exteriores. Depois, passar por exame médico, alugar um apartamento para termos endereço fixo e, com tudo isso, ir ao setor de Imigração para trocar os vistos temporários por vistos de residentes, válidos por um ano. Com a carteira de jornalista e o passaporte, eu poderia retirar na alfândega o equipamento – câmera, computadores para edição, iluminação etc. – que estava sendo enviado em meu nome, pelo escritório de Londres.


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