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COLEÇÃO SÃO PAULO NO BOLSO

Trecho de José Ermírio de Moraes – A Trajetória de um Empresário Nacional, de Maria Aparecida de Paula Rago

GÊNESE HISTÓRICA DA VOTORANTIM NO "PERÍODO HERÓICO" DA INDUSTRIALIZAÇÃO PAULISTA

A trajetória de José Ermírio de Moraes deita raízes no patriarcalismo pernambucano. Filho de usineiros abastados, nasceu no engenho Santo Antônio, localizado em Nazaré da Mata, a 60 quilômetros de Recife, em 21 de janeiro de 1900. Descendia pelo lado paterno dos Moraes de Inhaman, do município de Igarassu, e, pelo lado materno, era neto de Serafim Matari, chefe da família Pessoa de Albuquerque, citado por Gilberto Freire em Casa-grande e senzala. Após completar os primeiros estudos na região próxima ao Engenho, José Ermírio lhes deu continuidade no Colégio Alemão do Recife, onde estudou até os 16 anos. Sua origem agrária tradicionalista não o impediu de completar a formação na Colorado School of Mine, na cidade de Golden, Estados Unidos, entre 1917 e 1921. Era um período de grandes transformações na realidade norte-americana que, em plena Primeira Guerra Mundial, punha em prática os princípios da

racionalidade capitalista mais avançada e da acumulação fordista, que dariam origem à produção e ao consumo de massas (SCANTIMBURGO, 1975).

Uma das questões que se apresentaram de imediato foi o papel de sua formação como engenheiro de minas e sua experiência na escola de engenharia do Colorado, nos Estados Unidos, no processo de racionalização produtiva por ele implantado nas empresas do grupo. E isso na medida em que essa racionalização propiciou à Votorantim a diversificação da estrutura produtiva e sua transformação em uma empresa moderna, preparando-se para atuar em outras áreas. Sua história empresarial sugere não apenas uma dada concepção de industrialização que norteou a trajetória do grupo e que respaldou seu desempenho como liderança do setor industrial em momentos críticos da economia brasileira; revela também um profundo senso de oportunidade capitalista, como se verá mais à frente.

Ao voltar ao Brasil, em 1921, já como engenheiro de minas, trouxe na bagagem a melhor formação técnica modernizante, a qual o acompanhou toda a vida, influenciando e determinando os rumos de sua trajetória empresarial. Outra forte influência dessa sua estada em terras americanas foram as idéias de Woodrow Wilson. Em 1916, em plena campanha para sua reeleição à Presidência dos Estados Unidos, os discursos nacionalistas daquele que foi reitor da Universidade de Princeton exerceram-lhe forte fascínio, tornando-se um "exemplo a ser seguido" ao longo da vida de José Ermírio de Moraes. A vivência da realidade norteamericana, portanto, seria responsável não só por sua concepção que priorizava a indústria como forma de desenvolvimento econômico como também pela idéia de que o empresário moderno, pragmático e empreendedor deveria ampliar a maneira de produzir, enfrentando os riscos de tal empreitada.

No panorama nacional dos anos 1920, somente o estado de Minas Gerais, dotado de imensas reservas de jazidas minerais, comportava um profissional com aquelas características. E foi para lá que José Ermírio se dirigiu, assumindo o cargo de funcionário técnico do estado, encarregado de realizar um levantamento do perfil geológico da região. Ainda nesse período, durante 1922 e 1923, trabalhou na Saint John del Rey Mining Company, proprietária da mina Morro Velho. Essa experiência e esse conhecimento foram lembrados, inúmeras vezes, em seus discursos no Senado, na década de 1960, como fundamentos dos seus pareceres contrários à entrega do Pico de Itabirito para a Hanna Mining.

Sua carreira como engenheiro de minas que trabalhava para uma empresa estrangeira, no entanto, estava com os dias contados. Em 1923, em face de problemas econômicos enfrentados pela Usina Aliança (de seu cunhado Belarmino Pessoa de Melo), retornou a Pernambuco, seu estado natal. Sua avaliação indicava a necessidade de investimentos e modernização da referida empresa como forma de fazer frente à crise e à concorrência.

Viajou, então, para a Inglaterra e para a França a fim de comprar equipamentos. Prolongou, posteriormente, sua estada na Europa, em Valmont, na Suíça, onde selaria seu destino como empresário no ramo industrial.

Nessa estação de repouso, José Ermírio conheceu Antonio Pereira Ignacio, industrial e proprietário da Votorantim S/A, que atuava nos ramos de tecidos, cal e cimento. Tratando de problemas de saúde de sua família, naquela estação, o empresário português estreitou relações com José Ermírio de Moraes e o convidou para trabalhar com ele. Foi nesse momento que o futuro empresário conheceu Helena, filha de Pereira Ignacio, com quem se casaria mais tarde em São Paulo, no hotel Esplanada, hoje sede do grupo.

Mas de que maneira o enlace de José Ermírio de Moraes com Helena Pereira Ignacio, em 1925, e sua atuação inicial na Votorantim misturaram seu destino com a industrialização paulista e com o time da primeira geração de empresários industriais?

O ponto de partida dessa grande história reside nas origens da Votorantim e na atuação de seu proprietário, Antonio Pereira Ignacio, situados no começo do século XX, período em que estava em curso o desenvolvimento industrial paulista que se arrastava desde o final do século anterior.

O crescimento da produção fabril brasileira acompanhava as transformações econômico-sociais irradiadas pelo pólo mais dinâmico do capitalismo nacional naquele momento: o setor agroexportador centrado no café, que envolvia os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A partir do final do século XIX, necessidades históricas derivadas do modo de ser do capitalismo nativo e de sua inserção na economia mundial impulsionaram um novo modelo econômico, centrado agora no trabalho livre, responsável por uma modernização generalizada. A intermediação comercial-financeira operada pelo capital inglês atendeu de forma considerável aos setores de serviços envolvidos no complexo agroexportador cafeeiro, bem como impulsionou o comércio importador-exportador, fomentando a urbanização. A produção industrial, ainda que necessária para o atendimento das transformações em curso, desenvolveu-se de forma subordinada ao núcleo central das economias capitalistas estrangeiras.

No momento inicial da industrialização brasileira, a produção industrial ocupava um papel secundário na dinâmica desencadeada pela economia do complexo agroexportador, ou seja, sem ultrapassar a produção de bens de consumo operários, com

oficinas de reparo etc. e importando bens de capital e de luxo para o consumo das elites cafeeiras. O perfil assumido pela nascente indústria, que comportava um número razoável de grandes empresas e uma numerosa classe trabalhadora, era peculiar. De um lado, frágil o suficiente e incapaz de garantir sua autonomia; como setor econômico vivia, portanto, na dependência do mercado consumidor e das divisas criadas pelo núcleo cafeeiro. De outro, com relação aos operários, fazia prevalecer sua natureza histórica desenvolvendo mecanismos de controle e dominação da classe trabalhadora. Em um país cujo passado escravista era recente, sem tradição de trabalho livre e de práticas democráticas, a "questão social" era vista como um "caso de polícia", e as relações entre capital e trabalho, controladas pelos regulamentos individuais de cada fábrica. O Estado dos proprietários liberais, força usurpadora das energias sociais, fazia valer sua natureza autocrática cerceando a organização e mobilização das classes subalternas.

A história do que viria a ser o Grupo Votorantim confunde-se com este "período heróico", inicial, da indústria brasileira e, em particular, com a história paulista. Seu núcleo fundador – a fábrica Votorantim de tecidos, localizada na fazenda Cachoeira do Votorantim, distrito de Sorocaba, em São Paulo, cujas primeiras instalações datam de 1891 – pertenceu primeiro ao Banco União, patrimônio originário da família Lacerda Franco, e passou a funcionar em 1904. Sem incentivos, sem créditos e com salários atrasados, os acionistas propuseram em 28 de junho de 1917 o arrendamento da fábrica por 1.140 contos a um empresário incógnito – tratava-se de uma articulação para Pereira Ignacio assumir a empresa.

Mesmo assim, nos primeiros meses de 1918, o Banco União de São Paulo foi liquidado, e todo o seu patrimônio, incluindo a Votorantim, arrematado por Antonio Pereira Ignacio, juntamente com o italiano Francisco Scarpa, outro industrial de Sorocaba que, posteriormente, vendeu sua parte por 200 contos e recebeu ainda a fábrica de óleo Santa Helena. A partir de então o proprietário majoritário e fundador do que viria a ser o Grupo Votorantim acabou se transformando em um dos representantes mais significativos da primeira geração de capitães da indústria paulista, controlando 17% da capacidade da fabricação de tecidos de algodão em todo o estado de São Paulo além de, em um futuro próximo, tornar-se sogro de José Ermírio de Moraes.

Pereira Ignacio, português de Baltar, chegou ao país em 1884, aos dez anos de idade, sem recursos e exercendo inicialmente o ofício de sapateiro em Sorocaba. Antonio Pereira Ignacio, como sapateiro, origem social do empresário que deu início à formação do Grupo Votorantim.

Sua sagacidade para riscos e negócios, além de algum pecúlio, possibilitou-lhe abrir e desenvolver casas de comércio de secos e molhados, nas quais "arriscou a sorte" junto a seus patrícios, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Retornando ao interior paulista, realizou alguns pequenos negócios, fixando-se em Boituva, quando montou seu primeiro maquinismo de descaroçador de algodão. Posteriormente, em 1903, acabou associando-se a José Reinaldo de Farias, empresário de Sorocaba, para explorar industrialmente a fibra do algodão, inaugurando, ainda, uma fábrica e refinaria de óleo de algodão. À frente de seu tempo, Pereira Ignacio entendia seu projeto como inovador, pois o óleo vegetal seria uma alternativa mais econômica; no entanto, sabia que se tratava de uma tarefa difícil, porque no gosto do consumidor predominava ainda o uso da banha animal.

Esse capítulo de sua história de vida guarda elementos de mistérios e "espionagem industrial". Viajou aos Estados Unidos para comprar equipamentos para o empreendimento e teria se empregado como operário em uma grande fábrica, a Wilson North Carolina, em Charlotte, para aprender os segredos dos processos industriais de desodorização do óleo de algodão, versão esta contestada pelo estudioso Antonio Carlos de Godoy. Conta-se que de dia cumpria sua jornada de trabalho, procurando observar e conhecer os misteres daquele processo; à noite, assumia sua outra personalidade, a de empresário brasileiro, hospedando-se num bom hotel e freqüentando a vida cultural. Esse fato foi revelado à direção da empresa onde trabalhava, quando recusou a promoção para um cargo de chefia da fábrica, regressando ao Brasil em seguida (GODOY apud MARCOVITCH, 2005, p. 235; SCANTIMBURGO, 1975, pp. 108-18).

Posteriormente, Pereira Ignacio, "empresário de posses" e de experiência, adquiriu, como já referido, a massa falida da Votorantim, colocando-a em funcionamento em 1918, de início com "um capital de cinco mil contos de réis, 1.300 teares, sete máquinas de estamparia e 6 mil pessoas morando em sua vila industrial" (NASSAR, 1976, p. 56); produzia morins, chitas, algodões, brins, cassas, lenços, toalhas e flaneletas. No momento de constituição do capitalismo industrial no Brasil, a precariedade das condições para o seu desenvolvimento fazia com que as unidades fabris incluíssem como parte dos "salários" a moradia, uma pequena assistência etc. para atender precariamente às necessidades dos seus trabalhadores. No entanto, esses elementos tinham tanto como objetivo controlar e disciplinarizar a classe trabalhadora como também acabavam rebaixando os já precários salários.

O Complexo Votorantim era ligado a Sorocaba por um ramal particular de estrada de ferro que "contava com quatro locomotivas de 14 toneladas, sete vagões de passageiros e 44 vagões de cargas", circulando "anualmente por ela 65 mil passageiros e 50 mil toneladas de carga" (GODOY apud MARCOVITCH, 2005, p. 235). Envolvia, ainda, uma área de 100 mil metros quadrados de área construída, sem contar outros 1.500 alqueires de terras cultiváveis e matas. Além do núcleo têxtil, incluía jazidas de mármore e uma pequena fábrica de cimento, a primeira a funcionar no Brasil, em 1807, por iniciativa de Antonio Proost Rodovalho. Com uma capacidade de produção pequena e inconstante, foi fechada definitivamente em 1920 (REVISTA EXAME, 1976, p. 56).

Naquele momento, o imigrante português Antonio Pereira Ignacio, sem dúvida, constituía-se numa das principais fortunas da primeira geração de industriais paulistas. Centrava seus investimentos no ramo de descaroçamento de algodão, possuindo 14 máquinas, e ainda havia feito investimentos no setor têxtil, adquirindo a fábrica Paulistana – antiga fábrica de tecido e fiação Anhaia; a fábrica Lucinda – antiga fábrica de São Bernardo; e a fábrica Lusitânia – antiga Cia. Industrial de São Paulo, com 330 teares movidos por motores de 500 HP e com capacidade de produzir 4 milhões de metros de tecidos anuais. Todas as três fábricas pertenceram aos herdeiros de Anhaia e Diogo de Barros. Contando com o auxílio de seus dois filhos na administração de seus negócios, a Pereira Ignacio & Cia. enlaçava-se, a partir daquele momento, às fábricas Votorantim, projetando ainda mais a ascensão do imigrante português (MARCOVITCH, 2005, p. 234).


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