| Trecho de Gentlemen, de Klas Östergren
Talvez
seja uma serena chuva de primavera o que se ouve cair sobre Estocolmo neste Ano
Internacional da Criança, ano das eleições de 1979. Não
a vejo nem tenho qualquer intenção de fazê-lo. As cortinas
estão bem fechadas diante das janelas que dão para Hornsgatan, e
a atmosfera deste apartamento é no mínimo lúgubre. Há
dias em que não vejo a luz do sol, apesar de, lá fora, a cidade
inteira se agitar no último delírio primaveril dos anos 1970, mas
isso pouco me importa.
Este grande apartamento
assemelha-se a um museu erigido em glória a alguma coisa qualquer, a um
ideal antigo ou, quem sabe, a um espírito cavalheiresco já extinto.
A biblioteca é silenciosa e impregnada de fumaça; os corredores
de serviço, com seus aparadores sombrios e armários altos, são
aterrorizantes; a cozinha está suja, os quartos não foram arrumados,
a sala de estar é fria. De cada lado da lareira — onde passamos tantas
horas sentados em cadeiras Chippendale, bebendo toddies e entretendo-nos um ao
outro com anedotas bizarras — encontram-se duas esculturas de porcelana da ilha
de Paros, fabricadas pela Companhia Gustafsberg em finais do século XIX.
As peças têm cerca de meio metro de altura e a porcelana ostenta
exatamente o aspecto do mármore que pretende imitar. Uma representa "A
Verdade", e retrata um homem musculoso sem qualquer peça de roupa
no corpo, cujas feições maravilhosamente esculpidas não conseguem,
no entanto, disfarçar-lhe algo de indeterminado e vago no olhar. A outra
figura representa, com muita precisão, "A Falsidade", um ébrio
reclinado com desleixo sobre um barril de vinho, segurando um instrumento de cordas
e, sem dúvida, contando uma história maliciosa protagonizada por
um pastor.
Não é difícil
estabelecer certas associações com os dois homens que até
muito recentemente viviam neste apartamento. Abandonaram-no com a rapidez de quem
ouve uma sirene antibombas. Ninguém tocou em nada e, a propósito,
esta casa que se assemelha a um museu está repleta de objetos extraordinários,
coisas de eras remotas. Meus pensamentos são inevitavelmente conduzidos
ao passado.
Repulsivo é o que sou. Sob
este ridículo chapéu inglês de tweed, minha cabeça
raspada e maltratada tenta lentamente recuperar seu aspecto antigo, na medida
do possível. Envelheci a uma velo cidade estonteante ao longo deste Ano
Internacional da Criança e das eleições suecas de 1979. Adquiri
novas rugas e uma espécie de tique nervoso sob os olhos, o que confere
a meu rosto um aspecto estranho, embora não completamente repulsivo. Ainda
que tenha apenas 25 anos, envelheço como um Dorian Gray. Jamais teria acreditado
na possibilidade de alguém se esgotar e murchar tão cruelmente enquanto
estivesse imerso na escuridão antiquada e protetora deste apartamento.
A qualquer momento, convocando minhas últimas forças, eu poderia
desfazer a barricada que obstrui a porta do vestíbulo — um enorme e sólido
armário de mogno que me mantém em segurança — e sair daqui.
Mas não o faço. Não é possível voltar atrás.
Acho que tudo o que aconteceu me fez enlouquecer.
Tenho
um ferimento no crânio e inimigos na garganta. Todo mundo tem algum inimigo
insignificante. Eu costumo partilhá-los com meus amigos, mas eles desapareceram.
Nunca me apresentaram a meu inimigo e desconheço a aparência dele
ou dela. Posso apenas imaginar. Provavelmente não me parecerá tanto
um inimigo, uma descrição do Mal, quanto um amigo, uma descrição
daquilo que é bom e de todas as suas possibilidades. Será uma história
negra, porque estou inclinado a acreditar que o bem é inviável.
Devemos nos permitir o desespero, pelo menos uma vez ou outra. Se tivermos sido
vítimas de ataques e agressões graves que quase nos tiraram a vida,
é no mínimo desculpável.
Em
respeito à minha situação — minha cabeça não
pode se sujeitar a pressões fortes, de acordo com as recomendações
dos médicos que me trataram — e considerando os tempos, que parecem cada
vez mais intoleráveis, é melhor começar de uma vez. Minha
ideia é erigir um templo, um monumento aos irmãos Morgan. É
o mínimo que posso fazer por eles, onde quer que estejam neste momento.
Estar
diante de um espelho no Clube Atlético Europa, perto de Hornstull, Estocolmo,
em uma tarde de setembro de 1978, assobiando o solo de uma antiga melodia que
ecoa ruidosamente de uma vitrola de plástico e dando um meticuloso nó
de Windsor na gravata já seria ruim o bastante. Mas gritar da porta, ao
sair, com voz tonitruante "Até logo, meninas!" foi realmente
ir longe demais.
Ninguém disse uma palavra.
Apenas Juan riu, e Willis, claro. Juan não era seu nome verdadeiro, mas
ele usava uma camisa de basquete com um grande sete amarelo e, como era iugoslavo
e parecia espanhol, o chamavam assim. Ria de quase tudo, não porque quisesse
despertar simpatia, mas porque, a seus olhos negros, havia muito do que rir neste
país. Willis também possuía um grande senso de humor. Gargalhava
com insolência dentro de seu escritório. Era o dirigente do Clube
Atlético Europa desde a fundação e conhecia o homem que fora
longe demais.
Entretanto, todos os outros do Europa
o levaram a mal. Um estranho entrara ali, os chamara de meninas, e isso era muito
baixo, isso simplesmente não se fazia. Era excessivo, especialmente para
Gringo, que fora o rei sem coroa do Europa durante os últimos anos e a
quem fora permitido reinar de maneira pacífica e sem perturbações.
Ninguém se atrevia a desafiá-lo. A não ser naquela noite,
em que foi posto à prova pelo estranho. Haviam começado a lutar,
mais por distração, julgando que fariam três rounds. Gringo
começara calmamente a demonstrar seus famosos ganchos de direita — que,
certa vez, lhe haviam granjeado um Campeonato da Suécia —, mas o estranho
respondera com um estilo de boxe nada ortodoxo: inventivo e variado, como se pertencesse
a uma quarta dimensão que ninguém jamais imaginara. Até que
Gringo decidiu parar, usando como desculpa o terrível hálito do
adversário. O desconhecido exalava um fedor de alho que o impedia de se
aproximar com seus mortais ganchos de direita. Gringo capitulara diante de um
pouco de alho!
Todos quase morreram de rir, percebendo
que aquilo não passava de uma desculpa, pois logo no segundo round Gringo
começara a ter problemas. Os pontos foram contados, Gringo sentara-se no
banco sob os cabideiros e, mesmo depois de uma ducha e de beber muita água,
parecia ter levado uma boa surra. Tinha as maçãs do rosto vermelhas
e inchadas, e retirara a gaze das mãos sem conseguir disfarçar a
dor. Pela primeira vez, não dizia uma palavra. Mantinha-se calado, mas
ia se vingar do homem, todo mundo sabia. Gringo ruminava sua vingança.
—
Quem diabos era aquele? — perguntou um dos rapazes, um peso-pena que se mantivera
colado às cordas enquanto Gringo era golpeado por um estranho totalmente
destreinado que parecia ter nascido para o boxe.
—
Aquele — respondeu Willis atravessando as portas de vidro do escritório
decorado com fotografias de luta — era o Henry. Henry Morgan. Um dos meus melhores
rapazes, faz vinte anos. Há muito tempo que partiu. É pianista.
Mas tem estado fora.
Os rapazes ouviram fascinados
e depois começaram a golpear os sacos de areia tentando imitar sem êxito
os golpes de Morgan. Agora dispunham de mais um tema de conversa, além
de Ali vs. Spinks. Todo mundo no Clube Atlético Europa falava dessa
luta. A desforra de Ali e Spinks.
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