O buquê
Lauren Myracle
Atenção, leitores! A história
que se segue foi
inspirada em um conto que me assustou à
beça quando eu era adolescente. Ele foi publicado
em 1902 por W.W. Jacobs e chama-se
"A pata do macaco". Muito cuidado com o
que você deseja! — Lauren Myracle
Lá fora, o vento chicoteava a casa de Madame
Zanzibar, fazendo com que a calha batesse contra a parede. O céu
estava escuro, apesar de ainda serem 16h. Dentro da sala decorada
de forma extravagante, três abajures brilhavam densamente,
cada um envolto por cachecóis perolados. Um tom de rubi
iluminava o rosto redondo de Yun Sun, enquanto que a luz sarapintada
de roxo e azul conferia a Will um ar de morte recente.
— Está parecendo que você acabou de
sair do caixão — disse eu para ele.
— Frankie — me repreendeu Yun Sun. Ela inclinou
a cabeça na direção da porta fechada do escritório
da Madame Z, indicando que não queria que o meu comentário
fosse ouvido. Um macaco vermelho de plástico estava pendurado
na maçaneta, o que significava que Madame Z estava com
clientes. Nós éramos os próximos.
Will deixou que seu olhar se perdesse no vazio.
— Eu sou um alienígena — disse ele, gemendo.
Ele esticou os braços na nossa direção. —
Quero seus corações e fígados.
— Ai, não! Um alienígena tomou o
corpo do nosso querido Will! — Apertei o braço de Yun Sun.
— Rápido, dê o coração e o fígado
para que ele deixe Will em paz!
Yun Sun puxou o braço.
— Isso não tem graça nenhuma — disse
ela com um tom de voz melodioso e ameaçador. — E se vocês
não me obedecerem, eu vou embora.
— Deixe de ser tão certinha — respondi.
— Eu e minhas coxas gigantescas vamos nos retirar.
Não duvide.
Yun Sun tem achado que as suas pernas estão
muito gordas, só porque o vestido super justo que ela escolheu
para a formatura precisou ser um pouco afrouxado. Pelo menos ela
tinha um vestido de formatura. E uma grande chance de usá-lo.
— Blablablá — eu disse de volta. O mau humor
dela estava colocando o nosso plano, o único motivo para
estarmos ali, em risco. A noite da formatura estava cada vez mais
perto, e eu não ia ficar que nem uma infeliz sentada sozinha
em casa enquanto todos estariam cheios de brilho dançando
alegremente com seus saltos altos espetaculares. Eu me recusava
a passar por isso, ainda mais porque eu sabia lá no fundo
do coração que Will ia me chamar. Ele só
precisava de um empurrão.
Abaixei o tom da voz para falar com Yun Sun e sorri
para Will como se dissesse lá lá lá, conversa
entre meninas, nada importante!
— Nós duas tivemos esta ideia, Yun Sun? Lembra?
— Não, Frankie, a ideia foi sua — disse ela
sem abaixar a voz. — Eu já tenho o meu par, mesmo
que as minhas coxas o esmaguem. Você é quem está
esperando por um milagre.
— Yun Sun! — Olhei para o Will. Ele estava encabulado.
Menina má, abrindo o jogo dessa forma. Má, má,
e muito malcriada.
— Ai! — gritou ela depois de receber o meu tapa.
— Eu estou muito chateada com você — eu disse.
— Chega de timidez. Você realmente quer
que ele chame você, não quer?
— Ai!
— Hum, meninas — disse Will. Ele estava fazendo
aquela coisa fofa que ele faz quando fica nervoso. O seu pomo
de Adão balança para cima e para baixo rapidamente.
Na verdade... essa imagem era meio desagradável, pois ela
me fazia pensar em Adão no Paraíso com Eva, e isso
me lembrava maçãs, abocanhar maçãs...
Enfim, Will tinha mesmo um pomo de Adão,
e quando ele movia a garganta para cima e para baixo era muito
fofo. Ele ficava vulnerável.
— Ela bateu em mim — delatou Yun Sun.
— Ela mereceu — eu retruquei. Eu não queria,
porém, que essa conversa continuasse. Aquela frase já
havia revelado o suficiente. Achei melhor fazer carinho na perna
nem um pouco gorda de Yun Sun e disse:
— Mas eu perdoo você. Agora cale a boca.
O que Yun Sun não entendia — ou, provavelmente,
o que ela entendia mas não compreendia — era que nem todas
as coisas precisavam ser ditas em voz alta. Sim, eu queria que
Will me chamasse para o baile de formatura, e eu queria que ele
fizesse isso logo, porque a "A primavera dos apaixonados"
ia acontecer em duas semanas.
Tudo bem, o nome do baile era brega, mas a primavera
era para os apaixonados. Isso era uma verdade inquestionável.
Assim como era inquestionável que Will era o meu amor eterno
e que seria bom se ele conseguisse superar a timidez e tomar uma
droga de atitude. Chega de tapinhas no ombro, risadinhas e guerras
de cosquinhas! Chega de ficar se agarrando e tremendo, colocando
a culpa nos filmes de terror que assistimos, como Vampiros
de Almas e O Iluminado. Será que Will não
via éramos feitos um para o outro?
Ele quase fez a pergunta na semana passada, eu tive
95,5 por cento de certeza. Nós estávamos assistindo
Uma linda mulher — um filme um tanto superestimado,
porém divertido. Yun Sun tinha ido à cozinha para
pegar biscoitos, deixando nós dois sozinhos.
— Hum, Frankie? — disse Will. Os pés dele
estavam batendo no chão, e seus dedos apertaram a calça
jeans.
— Posso perguntar uma coisa para você?
Qualquer idiota entenderia o que estava por vir.
Se ele quisesse que eu aumentasse o volume, ele apenas diria "Ei,
Franks, aumente o volume." Casual. Direto. Sem necessidade
de perguntas preliminares. Contudo, já que houve uma
pergunta preliminar... bem, que mais ele poderia querer me perguntar
além de "Você vai à formatura?"
A alegria eterna estava ali, a poucos segundos de mim.
E aí eu estraguei tudo. Seu nervosismo palpável
me fez perder o controle, e em vez de deixar que o momento chegasse
naturalmente, mudei de assunto de forma brusca. PORQUE EU SOU
UMA IDIOTA.
— Ta vendo? É assim que se faz! — falei,
apontando para a televisão. Richard Gere estava galopando
em seu cavalo branco, que na verdade era uma limusine, até
o castelo de Julia Roberts, que na verdade era um apartamento
velho no terceiro andar. Na cena que assistíamos, Richard
Gere aparecia no teto solar do carro e subia pelas escadas de
emergência a fim de conquistar sua amada.
— Nada de papinho furado, de "eu acho que você
é bonitinha" — continuei. Estava falando besteira,
e eu sabia disso. — O negócio é agir, querido. O
negócio é dar demonstrações de amor.
Will engoliu a saliva e murmurou um "Ah."
Ele olhou para Richard Gere com uma carinha de urso de pelúcia,
pensando, certamente, que nunca conseguiria ser como ele, nunca
mesmo.
Olhei para a televisão, ciente de que eu
havia sabotado a minha noite de formatura com a minha própria
estupidez. Eu não estava nem aí para "demonstrações
de amor"; eu apenas ligava para o Will. Porém eu,
brilhante que sou, o assustei. Porque no fundo, no fundo, eu estava
sentindo mais medo do que ele.
No entanto, não seria mais assim — e era
por isso que nós estávamos ali na Madame Zanzibar.
Ela leria o nosso futuro, e, a não ser que ela fosse uma
farsa, ela diria o que era óbvio para uma observadora imparcial:
que eu e Will fomos feitos um para o outro. Ouvir isso de uma
forma bem sóbria daria coragem a Will para tentar de novo.
Ele me chamaria à formatura, e, dessa vez, eu daria espaço,
mesmo que isso me deixasse nervosa.
O macaco de plástico se mexeu na maçaneta
do consultório.
— Olhe, está se movendo — sussurrei.
— Ih... — disse Will.
Um homem negro com cabelo cor de neve saiu do consultório
arrastando os pés. Ele não tinha os dentes, o que
fazia com que a metade inferior de seu rosto ficasse muito enrugada,
como uma ameixa seca.
— Crianças — disse ele, tocando em seu chapéu.
Will se levantou e abriu a porta da frente, porque ele era uma
pessoa muito gentil. Uma rajada de vento quase derrubou o senhor,
e Will o segurou.
— Nossa — disse Will.
— Obrigado, filho — respondeu o senhor. As palavras
saíam um pouco abafadas, por causa da falta de dentes.
— Melhor eu me apressar antes que a tempestade comece.
— Parece que já começou — disse Will.
Do outro lado da rua, galhos se moviam violentamente, fazendo
muito barulho.
— Este ventinho de nada? — disse o senhor. — Ah,
convenhamos, isso é só um bebezinho querendo mamar.
Vai ficar muito pior quando anoitecer, pode escrever. — Ele olhou
para nós. — Inclusive, crianças, não era
para vocês estarem em casa, na segurança do lar?
Era difícil ficar ofendida quando um senhor sem dentes
lhe chamava de "criança — mas por favor, era a segunda
vez em vinte segundos.
— Nós estamos no primeiro ano do ensino médio
— respondi, — nós sabemos nos cuidar.
A risada dele me fez pensar em folhas mortas.
— Tudo bem, então — disse ele. — Vocês
que sabem.
— Ele deu passinhos pequenos até a varanda.
Will acenou e fechou a porta.
— Pessoa maluca — disse uma voz atrás de
nós. Ao nos virarmos, vimos Madame Zanzibar na porta do
consultório. Ela usava calças de moletom rosa choque
da Juicy Couture com um top da mesma cor, cujo zíper estava
aberto até a altura das clavículas. Seus seios eram
redondos, firmes e incrivelmente enxutos, considerando que ela
não estava vestindo sutiã. Ela usava um batom laranja
claro que combinava com as suas unhas e com a guimba do cigarro
que já estava terminando entre os seus dedos.
— Então, nós vamos entrar ou vamos
ficar aqui fora? — perguntou ela para nós três. —
Vamos desvendar os mistérios da vida ou deixá-los
quietos onde estão?
Eu me ergui da cadeira e puxei Yun Sun comigo. Will
fez o mesmo. Madame Z nos mandou entrar logo, e nós três
sentamos juntos em uma poltrona estofada. Will percebeu que não
cabíamos ali e foi sentar-se no chão. Me mexi para
que Yun Sun me desse mais espaço.
— Viu? Elas são duas salsichas — disse ela,
referindo-se as suas pernas.
— Chega para lá — comandei.
— Então — disse Madame Z, passando por nós
e sentando- se atrás da mesa —, o que vocês querem?
Mordi o lábio. Como eu poderia explicar?
— Bem, você é médium, não
é?
Madame Z soltou uma nuvem de fumaça.
— Nossa, Sherlock, o anúncio nas páginas
amarelas lhe deu essa informação?
Fiquei encabulada, ainda que estivesse sentindo
raiva. Minha pergunta havia sido uma forma de começar uma
conversa. Ela tinha algum problema com inícios de conversas?
Enfim, se ela realmente era médium, devia saber por que
eu estava ali, certo?
— Bem... OK. Sim, claro, sei lá. Então
eu acho que eu queria saber se...
— É mesmo? Fale logo.
Eu uni forças.
— Bem... eu queria saber se uma certa pessoa vai
me fazer uma certa pergunta. — Não olhei para o Will, de
propósito, mas ouvi a inspiração surpreendida
dele. Ele não havia previsto aquilo.