Trecho de Filhos do Éden, de Eduardo Spohr
Apresentação
Uma mensagem aos leitores de A Batalha do Apocalipse
Na madrugada do dia 9 de julho, despertei agitado. Não conseguia voltar a dormir, preocupado com o roteiro ainda pendente da minha viagem de férias, marcada para dali a duas semanas. Depois de um mano e meio de privações, e após ter entregado à editora os manuscritos finais de Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida, resolvi tirar um curto período de descanso na França, onde pretendia iniciar as pesquisas para o segundo volume desta série, Anjos da morte.
Vencido pela insônia, tomei o elevador e caminhei algumas quadrasaté a praia de Copacabana, para apreciar um espetáculo que há tempos não via – o nascer do sol. Sentado nas areias brancas, divaguei sobre todas as coisas que aconteceram desde o primeiro lançamento de A Batalha do Apocalipse.
O sucesso do livro, tão improvável quanto a perspectiva de uma esfera incandescente vir a abrigar formas de vida, deve-se inegavelmente aos anjos – não aos alados da fantasia, tampouco às figuras mitológicas,mas às pessoas comuns que, sem esperar nada em troca, divulgaram a obra entre os colegas de trabalho, os amigos da faculdade, os companheiros de escola, os familiares. O poder desses celestiais é magnífico, e, se A Batalha do Apocalipse tem um herói, são os leitores, os verdadeiros responsáveis por fazer os querubins alçarem voos mais elevados.
A repercussão das caminhadas de Ablon lançou às minhas mãos um dilema. Embora apaixonado pelos antigos personagens, algo me dizia que era preciso renová-los, que o retorno de Orion, Shamira ou Amael, neste momento, seria uma jogada incoerente e oportunista – a trajetória deles se encerra em A Batalha, não seria justo desgastá-los.
O cenário apresentado, no entanto, ainda poderia gerar permutações. Por ser um renegado, Ablon esteve por séculos alheio à política celeste, e esse era o ponto que eu queria explorar. Como se relacionam as diferentes castas no céu? Quem são os agentes na linha de frente? Qual é o reflexo da guerra civil na vida dos seres humanos? Quais são os reinos que se escondem além do tecido da realidade, aos quais o Primeiro General era incapaz de se transportar?
No fim das contas, a decisão de principiar uma nova saga, em vez de simplesmente reciclar os elementos do livro anterior, foi espontânea, um traço, a meu ver, essencial para que qualquer história dê certo. A ideia era expandir esse “universo”, abrindo um novo leque de possibilidades, de novas tramas e acontecimentos. Portanto, ainda que Filhosdo Éden guarde semelhanças com o enredo pregresso, ele constitui uma obra única, que propõe questões mais humanas e apresenta heróis mais vulgares, menos infalíveis.
Herdeiros de Atlântida é o primeiro tomo de uma série, com cada parteencerrando uma aventura, uma missão. Velhas perguntas serão respondidas, à medida que outras surgirão, para então se fecharem à conclusão do último ato.
Este livro é, sobretudo, uma homenagem aos antigos leitores, um romance livre de oportunismos, que respeita a cronologia original, ao passo que introduz novos conceitos. É, ainda, um tributo aos personagens clássicos, uma forma de dar a eles o descanso devido e ao mesmo tempo guardá-los para sempre em nossas memórias.
Olhei para o céu. Ao leste, o anil do crepúsculo havia assumido tons carmesins, num incrível espetáculo de nuvens alaranjadas. O sol havia nascido.
Era o início de um novo dia.
O Manuscrito Sagrado dos Malakins
Poucos sabem como começou. Ou o que havia antes. Não que isso importe, realmente. Porque não houve um antes. Aconteceu em um tempo em que o próprio tempo não existia, e a matéria não passava de um grão de energia, flutuando na sombra do espaço.
Guerra. Luz e trevas. Lei e ordem. Claro e escuro. Bem e mal. Sobreveio a explosão. Indescritível. Inimaginável. Ensurdecedora. O universo se expandiu, lançando fragmentos na negritude, formando ondas de poeira cósmica, dando origem às dimensões paralelas. Mundos inteiros foram criados. Estrelas nasceram e morreram, nebulosas surgiram nos oceanos de plasma. Galáxias se condensaram.
Por bilhões de anos, os alados vagaram sozinhos, intocáveis no santuário infinito. E, quando o sexto dia terminou, Deus estava orgulhoso de seu trabalho. De todas as maravilhas, a espécie humana foi a que ele mais adorou: sua criação podia aprender, evoluir e amar.
Yahweh partiu para o descanso do sétimo dia e deixou aos cinco arcanjos a tarefa de comandar os celestes, reger o paraíso e servir à humanidade, sem interferir em seu curso. Mas, inflados de ciúme e luxúria, os primogênitos invejaram a raça mortal. Miguel, o Príncipe dos Anjos, decidiu que os homens não eram herdeiros dignos de Deus e resolveu tomar a terra de assalto. Enviou assassinos, fomentou cataclismos, explodiu vulcões, provocou terremotos e congelou o planeta.
O paraíso se dividiu. A primeira revolta foi esmagada, e os conspiradores, expulsos. A tensão entre os gigantes cresceu, culminando numa batalha devastadora, que secionou para sempre as hostes divinas. Lúcifer,o Arcanjo Sombrio, desafiou a autoridade do onipotente Miguel, atraindo um terço das legiões para sua causa. Mas suas ambições eram igualmente malignas e, vencidos, os anjos caídos foram atirados ao inferno, onde aguardam o momento oportuno para completar sua vingança.
Milênios mais tarde, os focos da rebelião, sufocados no princípio, se reacenderiam numa nova chama. O arcanjo Gabriel, servo mais leal do Príncipe Celeste, recebeu a missão de descer à Haled para planejar uma nova catástrofe. Mas, em seus corpos terrenos, os anjos são vulneráveis aos sentimentos carnais. Pela primeira vez, ele provou o calor da alma humana e entendeu o amor que sentia por Deus. Repudiou as ordens do irmão e assim começou uma nova guerra, a guerra civil, a eterna disputa pelo paraíso, que persiste até hoje.
Reunidos no Primeiro Céu, Gabriel e os exércitos rebeldes iniciaram uma gigantesca campanha contra as forças legalistas, estacionadas na quinta camada. O Quarto Céu, Acheron, transformou-se numa violenta zona de combate, onde os querubins lutam dia e noite há mais de dois mil anos.
Quando os revoltosos avançaram, derrubando fortalezas e ganhando posição, Miguel, temeroso de perder o trono, ordenou o Haniah, o Retorno, determinando que todos os seus aliados que atuavam ou estivessemno plano material regressassem imediatamente. Com o contingente inimigo aumentando, Gabriel fez o mesmo, e a Haled foi abandonada. Os vórtices de acesso às dimensões superiores foram fechados, restando alguns poucos, guardados por poderosos vigias.
A casta dos elohins, cuja natureza é viver entre os homens, obteve permissão especial para continuar no mundo físico, assim como outros desgarrados, que se recusaram a voltar. A única condição era que não interviessem no rumo da guerra e estivessem prontos para servir a seus arcanjos quando o dever os chamasse.
Enquanto o paraíso queima num embate de sangue e espadas, os dois lados estabeleceram um armistício na terra – uma trégua frágil e delicada, que pode desmoronar a qualquer instante.
Isolada no Sexto Céu, a ordem dos malakins traçou suas previsões.
Aquela não seria mais uma guerra. Havia começado. Era o princípio do fim.

