A Grande Lição
Adoro os homens. Gosto de estar com eles, e não conheço
homem feio. Todos são bonitos: cada um com seu cheiro característico,
seu andar, seu modo de olhar. Alimentam um amor imenso pela mãe
e pelo próprio corpo. Magros ou gordos, todos têm
um belo corpo, mesmo quando são barrigudinhos. Às
vezes me pergunto como eles fazem para andar: será que
o pau no meio das pernas não atrapalha? Essa pergunta eu
(ainda) não tive coragem de fazer.
Outra coisa que adoro é falar o que penso. Sem papas na
língua. Quem ler este livro vai perceber isso. Aprendi
uma porção de coisas nessa temporada na Terra. Uma
delas é a importância de se ter uma opinião,
de reclamar quando não se está gostando de algo.
Demorei muito para adquirir esse direito e, por isso mesmo, não
abro mão dele. Passei um pedaço da minha vida lutando
por ele. Estou gastando um outro bom naco tentando convencer minhas
colegas prostitutas de que esse direito também é
delas.
Existe uma terceira coisa que eu prezo muito. Talvez seja a que
mais prezo, aliás. É a liberdade. Liberdade de pensar
diferente, de vestir diferente, de se comportar diferente... Não
sei direito de onde veio essa minha paixão pela liberdade
(minha vida é feita de muitas certezas, mas também
de infinitas dúvidas e contradições), mas
ela veio para ficar.
Meu destino até aqui foi norteado por esses três
amores. E, como todos nós sabemos, o amor não traz
só felicidade. Ele gera muita dor também, em nós
mesmos e em quem está perto. Sei que, por causa dessa minha
obsessão por romper amarras (sejam elas políticas,
culturais, morais ou psicológicas), feri algumas pessoas
queridas. Mas acredito que também ajudei um sem-número
de prostitutas a ter uma vida mais digna. Fui, sou e vou continuar
sendo responsável pelos meus atos. O que pensar sobre eles
é resultado do conceito de vida de cada um. Enquanto eu
puder continuar exercendo minha liberdade, não tenho com
o que me preocupar.
É a maior lição que aprendi. Eu: filha,
mãe, avó e puta.
Primeiro Mandamento da Puta:
Serás discreta.
Jamais apontarás um homem na rua e dirás que ele
é teu cliente.
COCA-COLA COM BOLINHA
"Desce! Desce!", a prostituta gritava para o sujeito.
"Desce!" A cena era inacreditável. Visivelmente
fora de si, a mulher puxava um homem pelo braço, tentando
tirá-lo de dentro de um elevador lotado. Ele era um cliente
de um prédio inteiramente dedicado à prostituição,
na São Paulo dos anos 70. Ela...Ela era eu.
As drogas sempre rondaram o universo das putas, de uma forma
ou de outra, mas nunca fizeram a minha cabeça. Naquela
época, porém, não sei bem por quê,
acabei me viciando em bolinha. Talvez tenha sido falta de informação
ou vontade de experimentar tudo. As meninas daquele edifício,
o número 134 da rua Barão de Limeira, costumavam
tomar Pervetin ou bolinha. Um dia eu estava cansada e uma colega
me perguntou se eu não queria provar metade de uma bolinha.
Adorei. Gostei da eletricidade, da ligação. E fui
aumentando. Todo dia aumentando. Quando eu parei, já estava
numa média de cinco por dia.
Toda manhã eu chegava no prédio, comia um pãozinho
fresco com manteiga e tomava um café puro que a Cecília,
nossa cafetina, preparava no apartamento onde transávamos
com os clientes. Tinha um rapaz que fazia as comprinhas para as
meninas; assim a gente não precisava ficar trocando de
roupa toda hora para ir na padaria. Eu pedia para ele me trazer
uma coca-cola grande. Lá não podia entrar bebida,
droga, nada. Mas tinha um homem que passava pelos corredores vendendo
bolinhas. Eu amassava a bolinha com o fundo do copo, misturava
na coca-cola e mandava para dentro.
Trabalhava ligada. Muitas vezes os clientes diziam para mim:
"Tá com os olhos parados, menina! Tá fazendo
bobagem?" Depois do trabalho, ia num restaurante próximo
comer, na maioria das vezes, uma saladinha de agrião. E
ficava pela noite, chapada.
Num domingo, a zona tava meio parada e acabei tomando várias
bolinhas. De repente, vi o elevador parar no meu andar completamente
lotado de homens; eles estavam espremidos lá dentro. Peguei
um deles pelo braço e disse: "Desce!" Ele disse
que não queria descer e eu comecei a puxar o sujeito pelo
braço: "Desce!" O homem tentava se soltar de
mim, todo mundo começou a gritar comigo para soltá-lo.
E eu, que tomava minhas bolinhas na intenção de
fazer mais e mais clientes, botei na minha cabeça que ia
tirar aquele homem do elevador de qualquer jeito. O sujeito era
um cara qualquer, não tinha nada de especial. Eu estava
movida simplesmente por uma obsessão profissional. O ascensorista
começou a gritar comigo, dizendo que ia fechar a porta,
e eu respondi: "Fecha que eu vou quebrar o braço desse
desgraçado." Coitado do homem!
Depois do escândalo, eu vi o que estava acontecendo comigo.
Muitas meninas já tinham passado por coisa parecida, batido
nos seus clientes, e algumas chegaram mesmo a surtar. Resolvi
parar. Não era uma história de tanto tempo e eu
já estava me desconhecendo. O que poderia vir adiante?
Eu não sabia, ninguém sabia. Mas provavelmente coisa
boa não era. Com muito esforço, parei.
No começo a produtividade caiu um bocadinho. Mas valeu
a pena. Sem as bolinhas, eu conseguia bater papo com os clientes.
E conversar com eles é um dos segredos da boa prostituta.
No princípio, é difícil entender como funciona
o nosso mundo. Com o passar dos anos, porém, consegui decifrá-lo.
Ou, pelo menos, parte dele.
Cliente não se trata como namorado. Mas foi dando ouvido
a eles, que sempre dizem o que gostam e o que querem, que comecei
a aprender os segredos da profissão. Homens são
extremamente frágeis e toda a história de que são
grandes conhecedores da sexualidade feminina é uma grande
mentira. Eles sabem de suas vontades urgentes e suas fantasias.
E estas, na maioria das vezes, são tratadas como algo a
ser escondido, uma fraqueza que não deve ser dividida com
ninguém. Inclusive e principalmente com as mulheres que
eles amam.
Aprendi com os clientes que devemos sempre fingir orgasmo, porque
é assim que eles querem. Gostam de acreditar que a mulher
que eles estão comendo goza com eles, mesmo a prostituta.
Mesmo que seja numa trepadinha de cinco minutos. Existem aqueles
que gostam de pensar que pagando um pouco mais a prostituta goza.
Como se o orgasmo dependesse de dinheiro.
O episódio do elevador foi um dos mais marcantes da minha
história. Uma história que começou muito
antes, quando meus pais, Oswaldo e Mathilde, se conheceram.