Os livros mais vendidos / Trechos de livros

Trecho de Diário de uma paixão, de Nicholas Sparks

 

MILAGRES

Quem sou eu? E como será que acabará esta história?

O sol já raiou e estou sentado junto a uma janela que se embaçou com o sopro de uma vida passada. Nesta manhã estou um espetáculo digno de ser admirado: duas camisas, calças grossas, um cachecol enrolado duas vezes em torno do pescoço e enfiado dentro de um suéter grosso tricotado pela minha filha, 30 aniversários atrás. O termostato no meu quarto está no máximo, e bem atrás de mim há outro aquecedor, menor. Ele estala e geme e vomita ar quente feito um dragão de conto de fadas, mas mesmo assim meu corpo continua tremendo por causa de um frio que nunca vai embora, um frio que vem se produzindo há 80 anos. Oitenta anos, penso às vezes, e embora tenha aceitado a minha idade, ainda me surpreendo com o fato de que nunca mais consegui sentir-me aquecido desde que George Bush era presidente. E me pergunto se isso também ocorre com as pessoas que têm a minha idade.

A minha vida? Não é fácil de explicar. Nunca foi o deslumbrante mar de rosas que eu imaginava que seria, mas também não comi o pão que o diabo amassou. Creio que minha vida tenha acabado por se parecer mais com um título do Tesouro ou uma ação de primeira linha bem cotada na Bolsa de Valores: razoavelmente estável, com mais altas do que baixas, e tendendo a subir gradualmente com o tempo. Uma boa compra, uma compra sortuda, e aprendi que nem todo mundo pode dizer o mesmo sobre a própria vida. Mas não se iluda. Não sou nada especial; disso estou certo. Sou um homem comum, com pensamentos comuns e vivi uma vida comum. Não há monumentos dedicados a mim e o meu nome, em breve, será esquecido, mas amei uma pessoa com toda a minha alma e coração e, para mim, isso sempre bastou.

Os românticos chamariam isto de uma história de amor, os cínicos diriam que é uma tragédia. Na minha cabeça é um pouquinho de ambas, e no fim das contas qualquer que seja a maneira como você escolha encarar este relato, nada altera o fato de que ele abrange uma grande parte da minha vida e do caminho que escolhi trilhar. Não tenho nenhuma queixa a fazer quanto ao meu percurso e aos lugares aonde ele me levou; talvez sobre outras coisas eu tenha reclamações, suficientes para encher uma tenda de circo, mas o caminho que escolhi tem sido sempre o certo, e tampouco gostaria que tivesse sido de outro jeito.

O tempo, infelizmente, em nada facilita a tarefa de manter o curso. O caminho continua reto como sempre, mas agora está atravancado com as pedras e o cascalho que vão se acumulando ao longo de uma vida. Até três anos atrás isso teria sido fácil de ignorar, mas agora é impossível. Há uma doença invadindo e percorrendo meu corpo; já não sou forte nem saudável, e os meus dias se consomem feito uma velha bexiga de festa: inertes, esponjosos, cada vez mais flácidos com o passar do tempo.

Eu tusso e, apertando um pouco os olhos, consulto meu relógio de pulso. Constato que já é hora de ir. Levanto-me da minha cadeira junto à janela e, arrastando os pés, atravesso o quarto, só parando para pegar sobre a escrivaninha o diário que já li centenas de vezes. Eu não olho sequer de relance para o caderno. Em vez disso, enfio-o debaixo do braço e sigo meu caminho na direção do lugar aonde tenho que ir.

Ando sobre um piso ladrilhado branco e salpicado de cinza, como os meus cabelos e os da maioria das pessoas daqui, embora nesta manhã eu seja o único no corredor. Os outros ainda estão nos seus respectivos quartos, sozinhos a não ser pela companhia da televisão, mas eles, assim como eu, já estão acostumados com isso. Com o tempo, uma pessoa pode se habituar a tudo.

À distância ouço sons abafados de choro e sei exatamente quem está fazendo esses sons. Então as enfermeiras me veem, trocamos sorrisos e cumprimentos. Elas são minhas amigas e muitas vezes conversamos, mas tenho certeza de que ficam conjecturando teorias sobre mim e as coisas que faço diariamente. Posso ouvir os cochichos quando passo por elas. “Lá vai ele de novo”, escuto, “Espero que corra tudo bem”. Mas elas nunca me dizem nada sobre isso diretamente. Tenho certeza de que pensam que eu ficaria chateado se me falassem disso logo de manhã tão cedo, e conhecendo-me como me conheço, acho que talvez estejam certas.

Um minuto depois, chego ao quarto. A porta já foi aberta para mim, como usualmente acontece. Dentro há duas outras enfermeiras, que também sorriem para mim quando entro. “Bom dia”, elas dizem com voz animada, e aproveito para perguntar como vão as crianças, a escola e as férias que se aproximam. Conversamos e nossa voz se sobrepõe ao som do choro, durante um minuto ou um pouco mais. Elas parecem nem perceber a choradeira; ficaram insensíveis, mas, pensando bem, eu também fiquei.

Depois me sento na cadeira que agora acabou adquirindo a minha forma. Elas já estão quase terminando; ela já foi vestida, mas continua chorando. Depois que a duas forem embora, tudo vai ficar mais tranquilo, eu sei. A agitação da manhã sempre a incomoda, e hoje não é exceção. Por fim, as enfermeiras abrem a cortina e saem do quarto. Ambas me tocam e sorriem ao passar por mim. Eu me pergunto o que isso significa.

Eu me sento só por um segundo e a observo fixamente, mas ela não retribui o olhar. O que é compreensível, pois não sabe quem eu sou. Para ela sou um estranho, um desconhecido. Depois, virando o corpo, eu abaixo a cabeça e rezo em silêncio, pedindo as forças de que sei que irei precisar. Sempre acreditei com firmeza e convicção em Deus e no poder da oração, ainda que, para ser honesto, minha fé tenha suscitado uma lista de perguntas que, definitivamente, só quero que sejam respondidas depois que eu já tiver partido.

Agora estou pronto. Já pus os óculos, e tiro do bolso uma lupa. Coloco-a sobre a mesa por um instante, enquanto abro o diário. Preciso de duas lambidas no meu dedo áspero para fazer a capa, gasta pelo uso, se abrir na primeira página. Depois posiciono no lugar certo a lente de aumento.

Há sempre um momento, imediatamente antes de eu começar a ler a história, em que a minha mente se agita, e eu me pergunto, Será que vai acontecer hoje? Não sei, pois nunca dá para saber de antemão, e no fundo isso nem é importante. É a possibilidade que me faz continuar, não a certeza, uma espécie de aposta da minha parte. E embora você possa me chamar de sonhador, de tolo ou de qualquer outra coisa, acredito que tudo é possível.

Sei que as probabilidades e a ciência estão contra mim. Mas a ciência não é a única e definitiva resposta; disso eu sei e aprendi ao longo da vida. E isso me faz acreditar que os milagres, por mais inexplicáveis ou inacreditáveis, são reais e podem acontecer sem levar em consideração a ordem natural das coisas. Então, mais uma vez, assim como faço todos os dias, começo a ler em voz alta o diário, para que ela possa ouvir, na esperança de que o milagre que acabou dominando a minha vida possa levar a melhor de novo. E talvez, apenas talvez, isso aconteça.

 

FANTASMAS

Era o início de outubro de 1946; da varanda que circundava sua casa em estilo de fazenda sulista Noah Calhoun contemplava o sol poente, que ia afundando cada vez mais até se perder de vista. Ele gostava de ficar sentado ali nos fins de tarde, especialmente depois de ter trabalhado com afinco o dia todo, e deixar os pensamentos vagarem sem direção consciente. Era assim que ele relaxava, um hábito que tinha aprendido com o pai.

Ele gostava particularmente de observar as árvores e seus reflexos no rio. As árvores da Carolina do Norte são bonitas quando o outono está no auge: tons de verde, amarelo, vermelho, alaranjado e todos os matizes intermediários. Com o sol as cores deslumbrantes das árvores brilham intensamente, e pela centésima vez Noah Calhoun se perguntou se os proprietários originais da casa também passavam seus fins de tarde pensando nas mesmas coisas.

A casa fora construída em 1772, o que fazia dela uma das mais antigas, bem como uma das maiores residências de Nova Berna. Originalmente tinha sido a casa-grande de uma fazenda; ele a comprara logo depois do fim da guerra e passara os últimos 11 meses consertando tudo, tarefa que consumiu uma pequena fortuna. Semanas antes o repórter do jornal de Raleigh, havia escrito uma matéria sobre a casa afirmando tratar-se de um dos melhores trabalhos de restauração que tinha visto na vida. Pelo menos a casa era. O restante da propriedade era outra história, e era nela que Noah passava a maior parte do dia.

A casa ocupava uma área de cinco hectares adjacentes ao riacho Brices, e nesse dia ele tinha trabalhado na cerca de madeira que cingia os outros três lados da propriedade, verificando se havia caruncho ou cupim, substituindo mourões quando era preciso. Noah ainda tinha muito trabalho pela frente, em particular no lado oeste, e um pouco mais cedo, enquanto guardava as ferramentas, ele tinha feito uma nota mental para telefonar e pedir que lhe entregassem mais madeira. Entrou em casa, bebeu um copo de chá doce e foi tomar uma chuveirada. Ele sempre tomava banho no fim do dia, e deixava a água lavar a sujeira e o cansaço.

Depois penteou os cabelos para trás, vestiu calças jeans desbotadas e uma camisa azul de mangas compridas, serviu-se de outro copo de chá doce e foi para a varanda, onde agora estava sentado, onde se sentava todos os dias a essa mesma hora.

Ele estendeu os braços acima da cabeça, depois para os lados, girando os ombros quando completou o exercício. Agora se sentia bem e limpo, revigorado. Seus músculos estavam cansados e sabia que no dia seguinte teria um pouco de dor, mas estava contente por ter conseguido terminar boa parte do que queria fazer.

Noah esticou-se para pegar seu violão, lembrando-se do pai, pensando no quanto sentia sua falta. Dedilhou um acorde, ajustou a tensão em duas das cordas, depois dedilhou de novo. Agora parecia afinado, e ele começou a tocar. Uma música suave, música calma. No início cantarolou baixinho, depois começou a cantar de verdade, enquanto ao seu redor a noite ia adensando e caindo de vez. Ele tocou e cantou até o sol desaparecer e o céu ficar escuro.

Passava um pouco das 19 h quando ele desistiu, acomodou-se na cadeira e começou a balançar. Por hábito, olhou para cima e viu Órion e a Ursa Maior, Gêmeos e a Estrela Polar, tremeluzindo no céu outonal.

Começou a pensar em números e a fazer contas, depois parou. Ele sabia que já gastara quase todas as suas economias na casa, e que em breve teria que arranjar novamente um emprego, mas afastou esse pensamento e decidiu aproveitar com prazer os meses de restauração que ainda faltavam sem se preocupar com o assunto. Essa era a solução que funcionava para ele, e ele sabia; funcionava sempre. Além disso, pensar em dinheiro geralmente o deixava entediado. Desde menino ele aprendera a desfrutar de coisas simples, coisas que não podiam ser compradas, e tinha grande dificuldade de entender as pessoas que pensavam de outra maneira. Era outro traço herdado do pai.

Clem, a sua cadela de caça, aproximou-se e afagou com o focinho sua mão antes de deitar-se aos seus pés. “Oi, menina, como vai?”, ele perguntou, dando-lhe carinhosas palmadinhas na cabeça, e ela ganiu baixinho, erguendo para o dono seus olhos redondos e curiosos. Ela perdera uma das patas em um acidente de carro, mas ainda conseguia andar muito bem e fazia companhia a Noah em noites calmas como a de hoje.

Ele estava com 31 anos agora, não era velho demais, mas velho o bastante para se sentir só. Desde que regressara, ainda não tinha saído com ninguém, não tinha encontrado ninguém que lhe interessasse, nem de leve. A culpa era somente sua, ele sabia. Havia algo que mantinha uma distância entre ele e qualquer mulher que começasse a se aproximar, algo que ele não sabia ao certo se era capaz de mudar, por mais que tentasse. E, às vezes, nos momentos que antecediam a chegada do sono, se perguntava se estaria destinado a ficar sozinho para sempre.

O crepúsculo passou, e a noite continuou quente, agradável. Noah ouvia os cricrilar dos grilos e o farfalhar das folhas, pensando que o som da natureza era mais real e suscitava mais emoção do que coisas como carros e aviões. As coisas da natureza davam mais do que tiravam, e os seus sons sempre o traziam de volta para aquilo que o homem deveria ser. Durante a guerra havia ocasiões, especialmente depois de uma batalha mais feroz, em que ele muitas vezes se punha a pensar nesses sons simples. “É isso que não vai deixar você enlouquecer”, disse seu pai no dia em que embarcara. “É a música de Deus, e é isso que vai trazer você de volta para casa”.

Ele terminou seu chá, entrou, pegou um livro, saiu de novo e acendeu a luz da varanda. Depois de se sentar outra vez, olhou para o livro. Estava velho, com a capa rasgada e as páginas manchadas de lama e água. Era um exemplar de Folhas da Relva, de Walt Whitman*, que ele carregara consigo de um lado para o outro durante toda a guerra. O livro chegou inclusive a receber uma bala por ele.

Esfregou a capa, tirando só um pouco da poeira. Depois deixou que o livro se abrisse aleatoriamente e leu as palavras à sua frente:

Esta é a tua hora, ó Alma, do teu livre voo para lá
das palavras,
Para além dos livros, da arte,apagado o dia,
concluída a lição,
Quando tu emerges plenamente, silenciosa, olhar
fixo, meditando sobre os temas que mais amas,
A noite, o sono, a morte e as estrelas.1**

Noah sorriu de si para si. Por alguma razão, Whitman sempre o fazia lembrar-se de Nova Berna, e ele estava feliz por ter voltado. Embora tivesse estado longe por 14 anos, ali era o seu lar, ali ele conhecia um punhado de gente, a maioria desde os seus tempos de juventude. O que não era surpresa nenhuma. Como em tantas outras cidadezinhas sulistas, as pessoas que ali viviam nunca mudavam, só envelheciam um pouco.

Atualmente seu melhor amigo era Gus, um negro de 70 anos que morava descendo a estrada. Os dois tinham se conhecido algumas semanas depois de Noah comprar a casa, quando Gus apareceu trazendo um pouco de licor caseiro e um ensopado Brunswick, e passaram sua primeira noite juntos embebedando-se e contando histórias.

Agora Gus aparecia duas noites por semana, normalmente por volta das 20 h. Morando com quatro filhos e 11 netos, de vez em quando ele sentia necessidade de sair de casa, e Noah não podia culpá-lo. Normalmente Gus trazia sua gaita, e depois de conversarem um pouco os dois tocavam juntos algumas canções. Às vezes ficavam tocando por horas a fio.

No fim das contas Noah já considerava Gus como uma pessoa da sua própria família. Na verdade não havia mais ninguém, pelo menos não desde que seu pai tinha falecido, um ano antes. Ele era filho único; a mãe havia morrido de gripe quando ele tinha dois anos, e embora em certo momento ele até tenha tido vontade, nunca se casara.

Mas ele tinha se apaixonado uma vez. Uma e única vez, muito tempo atrás. E isso o mudara para sempre. O amor perfeito faz isso com a pessoa, e aquele tinha sido perfeito.

Nuvens costeiras começaram a deslizar lentamente pelo céu noturno, tornando-se prateadas com o reflexo da lua. Enquanto elas iam ficando cada vez mais espessas, Noah inclinou a cabeça para trás e encostou-a na cadeira de balanço. As pernas se mexiam automaticamente, mantendo um ritmo constante, e, como acontecia quase toda noite, ele sentiu o pensamento devanear e recuar no tempo, até uma noite igualmente quente, 14 anos antes.

Foi logo depois da formatura do ensino médio da turma de 1932, na noite de abertura do Festival do Rio Neuse. A cidade inteira tinha saído às ruas, divertindo-se com um churrasco e jogos de azar. Era uma noite úmida – por algum motivo ele se lembrava claramente disso. Noah chegou sozinho, e enquanto passeava entre a multidão procurando amigos, viu Fin e Sarah, duas pessoas com quem tinha crescido, conversando com uma garota que ele nunca tinha visto antes. Ela era bonita, ele se lembrou de ter pensado, e quando finalmente se juntou a eles, ela olhou na direção dele com um par de olhos enevoados que não saíram mais da sua memória. “Oi”, ela disse simplesmente, estendendo a mão, “O Finley me falou muito de você”.

Um começo comum, algo que teria sido esquecido se fosse qualquer outra pessoa que não ela. Mas quando Noah apertou aquela mão e encarou de perto aqueles extraordinários olhos de esmeralda, ele soube, antes de conseguir respirar de novo, que ela era a mulher que ele poderia passar o resto da vida procurando e nunca mais encontraria. A impressão que ele teve, enquanto uma brisa de verão soprava em meio às árvores, foi a de que ela era absolutamente boa e perfeita.

A partir daquele momento, tudo foi como um furacão. Fin disse que ela estava passando o verão em Nova Berna com a família porque o pai trabalhava para a R. J. Reynolds, e embora ele tenha se limitado a fazer apenas um meneio com a cabeça, a maneira como ela olhava para ele fazia com que seu silêncio nada tivesse de errado. Fin então riu, pois percebeu o que estava acontecendo, e Sarah sugeriu que fossem comprar Coca-Cola; os quatro ficaram até o fim da festa, quando a multidão rareou e tudo fechou.

Os dois se encontraram no dia seguinte, e também um dia depois, e não demorou muito para se tornarem inseparáveis. Todas as manhãs, exceto aos domingos, quando tinha de ir à igreja, ele acabava as suas tarefas o mais depressa possível e depois ia direto para o Parque do Forte Totten, onde ela já estava à espera. Uma vez que era recém-chegada e nunca estivera antes em uma cidade pequena, os dois passavam os dias fazendo coisas que para ela eram completamente novas. Ele a ensinou a prender a isca no anzol para pescar, nos baixios, a perca de boca grande, e a levou em missões de exploração aos confins da Floresta de Croatan. Juntos andavam em canoas e contemplavam as tempestades de verão, e ele pensava que era como se os dois se conhecessem desde sempre.

Mas ele também aprendeu coisas. No baile da cidade, no celeiro de tabaco, foi ela quem o ensinou a dançar a valsa e o charleston, e embora durante as primeiras canções os dois tenham tropeçado, a paciência dela acabou valendo à pena, e o casal dançou até a música acabar. Depois ele a levou para a casa dela, e quando pararam na varanda após se despedirem, beijou-a pela primeira vez e ficou se perguntando por que havia esperado tanto tempo para fazer isso. Mais tarde, naquele verão, Noah levou-a para conhecer o casarão onde morava hoje; sem se importar com a decadência do lugar, ele disse que um dia compraria e consertaria aquela casa arruinada. Os dois passavam horas conversando sobre os sonhos de cada um – o dele de ver o mundo, o dela de ser uma artista –, e, em uma noite úmida de agosto, os dois perderam a virgindade. Quando ela partiu, três semanas mais tarde, levou consigo um pedaço dele e o resto do verão. Através de olhos que na noite anterior sequer tinham dormido, ele a viu abandonar a cidade, durante uma manhã chuvosa, depois foi para casa e fez a mala. Passou a semana seguinte sozinho na Ilha de Harkers.

Noah passou as mãos pelos cabelos e consultou o relógio de pulso. Oito e doze. Levantou-se, foi até a entrada da casa e olhou a estrada. Nem sinal de Gus, e imaginou que o amigo não viria. Voltou para a cadeira de balanço e se sentou de noEle se lembrava de ter falado com Gus sobre ela. Na primeira vez em que a mencionou, Gus começou a balançar a cabeça e rir. “Então esse é o fantasma de que você tem fugido”. Quando ele perguntou o que o amigo queria dizer com aquilo, Gus respondeu: “Você sabe, o fantasma, a memória. Eu ando de olho em você; você trabalha dia e noite, feito um escravo, tanto que nem tem tempo para parar e respirar. As pessoas fazem isso por três motivos. Ou são loucas, ou são estúpidas, ou estão tentando esquecer. E no seu caso eu sabia que era para tentar esquecer. Só não sabia o quê”.

Pensou no que Gus havia dito. Gus tinha razão, é claro. Nova Berna agora era uma cidade assombrada. Assombrada pelo fantasma da lembrança dela. Ele a via no Parque do Forte Totten, o lugar deles, cada vez que passava por lá. Sentada no banco ou de pé junto ao portão, sempre com um sorriso no rosto, os cabelos loiros roçando de leve os ombros, os olhos cor de esmeralda. Quando, à noite, ele se sentava na varanda com o violão, ele a via ao seu lado, ouvindo em silêncio enquanto ele tocava a música da sua infância.

Ele sentia a mesma coisa quando ia à lojinha do Gaston, ou ao Cinema Maçônico, ou mesmo quando passeava a pé pelo centro da cidade. Para qualquer lado que olhava, via a imagem dela, via coisas que a traziam de volta à vida.

Era estranho, e ele sabia. Ele tinha crescido em Nova Berna. Ali tinha passado seus primeiros 17 anos. Mas quando pensava na cidade, parecia lembrar-se apenas do último verão, do verão que os dois tinham passado juntos. Outras lembranças eram meros fragmentos, pedaços espalhados aqui e ali, e quase nenhum evocava qualquer tipo de sentimento.

Uma noite ele tinha contado a história a Gus, e Gus não apenas tinha entendido tudo como fora o primeiro a explicar-lhe o porquê. O amigo disse simplesmente: “O meu pai me contava que a primeira vez que a pessoa se apaixona isso muda a vida dela para sempre, e por mais que você tente, o sentimento nunca desaparece. Essa garota de quem você me falou foi o seu primeiro amor. E não importa o que você faça, ela vai ficar com você para sempre”.

Noah balançou negativamente a cabeça, e quando a imagem dela começou a desvanecer, retomou a leitura de Whitman. Leu durante uma hora, tirando os olhos do livro de vez em quando para ver os guaxinins e gambás correndo perto do regato. Às 21h30, fechou o livro, subiu a escada e foi para o quarto, onde ficou escrevendo no seu diário, tanto observações pessoais quanto coisas sobre o trabalho que tinha feito na casa. Quarenta minutos depois, estava dormindo. Clem perambulou escada acima, farejou o dono adormecido, depois deu algumas voltas sobre si mesma antes de, por fim, enrodilhar-se ao pé da cama.

* * *


Mais cedo, naquela mesma noite e a 180 quilômetros dali, ela estava sentada, sozinha e com uma perna cruzada, no banco de balanço da varanda da casa de seus pais. O banco de madeira estava ligeiramente úmido quando ela se sentara; havia chovido antes, uma chuva pesada, com gotas que pareciam ferroadas, mas agora as nuvens estavam desaparecendo e o seu olhar subiu além delas, na direção das estrelas, enquanto ela se perguntava se tinha tomado a decisão certa. Ela tinha passado vários dias brigando consigo própria – e lutara um pouco mais também naquela noite –, mas no fim sabia que nunca se perdoaria se deixasse passar a oportunidade.

Lon não sabia a verdadeira razão pela qual a noiva tinha partido. Na semana anterior ela insinuara que talvez quisesse visitar alguns antiquários perto da costa. “É só por alguns dias”, alegou, “e, além disso, preciso de uma folga dos preparativos do casamento”. Sentiu-se mal com a mentira, mas sabia que não havia como contar a verdade. A partida dela nada tinha nada a ver com ele, e não seria justo de sua parte pedir ao noivo que a compreendesse.

Foi uma viagem de carro tranquila desde Raleigh, pouco mais de duas horas, e ela chegou um pouco antes das 11 h. Registrou-se em um hotelzinho do centro da cidade, foi para o quarto e desfez a mala, pendurando os vestidos no armário e guardando o resto das coisas nas gavetas. Almoçou rapidamente, pediu à garçonete informações sobre a localização dos antiquários mais próximos, depois passou algumas horas fazendo compras. Por volta das 16h30 já estava de volta ao quarto.

Sentou-se à beira da cama, pegou o telefone e ligou para Lon. Ele não podia falar muito, pois tinha hora para chegar ao tribunal, mas antes de desligar ela deu-lhe o número de telefone do hotel onde estava hospedada e prometeu ligar no dia seguinte. Que bom, pensou ela enquanto desligava. Conversa de rotina, nada fora do normal. Nada que o deixe desconfiado.

Ela já o conhecia fazia quase quatro anos; o primeiro encontro dos dois havia sido em 1942, quando o mundo estava em guerra, e um ano depois da entrada dos Estados Unidos no conflito. Todos estavam fazendo sua parte, e ela trabalhava como voluntária no hospital no centro da cidade. Lá era necessária e estimada, mas o trabalho era mais difícil do que havia esperado. As primeiras levas de jovens soldados feridos estavam voltando para casa, e ela passava os dias com homens destruídos e corpos despedaçados. Quando Lon, com todo o seu charme afável, se apresentou a ela em uma festa de Natal, ela viu nele exatamente aquilo de que precisava: alguém com confiança no futuro e um senso de humor que afugentava todos os seus temores.

Lon era bonito, inteligente e ambicioso; advogado de sucesso e oito anos mais velho, fazia seu trabalho com paixão, não apenas ganhando causas, mas também fazendo um nome, construindo uma reputação. Ela compreendia essa vigorosa busca do sucesso, pois o pai dela e a maioria dos homens que conhecia, em seu círculo social, eram iguais. Como eles, ele tinha sido educado daquela maneira, e no sistema de castas do Sul o nome da família e as realizações e conquistas pessoais eram invariavelmente as coisas mais importantes a serem levadas em consideração em um casamento. Em alguns casos, eram as únicas.

Embora desde a infância ela tivesse se rebelado silenciosamente contra essa ideia e tivesse saído com alguns homens cuja melhor descrição seria “inconsequentes”, ela se viu atraída pelo jeito calmo de Lon, e aos poucos acabou por amá-lo. Apesar da enorme quantidade de tempo que ele passava trabalhando, era bom para ela. Era um cavalheiro, maduro e responsável, e durante aquele terrível período da guerra, quando ela precisava de alguém para abraçá-la, ele nunca lhe deu as costas. Ela se sentia segura com ele e sabia que ele também a amava, e foi por isso que aceitou seu pedido de casamento.

Pensando nessas coisas, ela se sentia culpada de estar ali, e sabia que o que devia fazer era enfiar suas coisas na mala e ir embora antes que mudasse de ideia. Ela já tinha feito isso uma vez, muito tempo atrás, e se partisse agora, tinha certeza de que nunca mais teria forças para voltar ali de novo. Ela pegou sua bolsa e quase se encaminhou para a porta. Mas a coincidência
a tinha impelido até ali. Pousou a bolsa, novamente constatando que se desistisse agora ficaria para sempre pensando no que teria acontecido. E ela achava que não suportaria viver com isso.

Entrou no banheiro e preparou a banheira. Depois de verificar a temperatura da água, foi até a penteadeira, tirando os brincos de ouro ao atravessar o quarto. Pegou seu estojo de maquiagem, abriu, tirou uma gilete e um sabonete, depois se despiu diante da cômoda.

Desde menina todos diziam que ela era muito bonita; assim que ficou nua, se olhou no espelho. Seu corpo era firme e proporcional, os seios ligeiramente arredondados, a barriga reta, as pernas finas. Da mãe herdara as maçãs do rosto altas, a pele macia e os cabelos loiros, mas seu melhor traço característico era só dela: tinha “olhos como as ondas do mar”, como Lon gostava de dizer.

Munida da gilete e do sabonete, voltou para o banheiro, fechou a torneira, deixou uma toalha ao alcance da mão e entrou cuidadosamente na banheira.

Ela gostava do modo como o banho a relaxava, e deixou-se afundar um pouco mais na água. O dia fora longo e suas costas estavam tensas, mas ela se sentia contente por ter acabado as compras tão rápido. Tinha de voltar para Raleigh levando algo de tangível, e as coisas que escolhera cumpririam perfeitamente essa função. Ela fizera uma nota mental para procurar
nomes de mais algumas lojas na área de Beaufort, mas depois, de súbito, duvidou de que isso seria preciso. Lon não era o tipo de homem que se disporia a averiguar seus atos.

Pegou o sabonete, fez espuma com as mãos, passou nas pernas e começou a raspá-las. Enquanto se depilava, pensou nos pais e no que pensariam a respeito do seu comportamento. Não havia dúvida de que o desaprovariam, especialmente a mãe. Sua mãe nunca tinha conseguido realmente aceitar o que acontecera no verão que a família tinha passado ali, e não seria agora que aceitaria, qualquer que fosse a razão que ela alegasse.

Ela ficou um pouco mais de molho dentro da banheira antes de finalmente se levantar e se enxugar com a toalha. Foi até o armário e procurou um vestido, escolhendo por fim um amarelo comprido, cuja frente era ligeiramente decotada, o tipo de vestido bastante comum no Sul. Experimentou-o e olhou-se no espelho, virando-se de um lado e do outro. O vestido caía-lhe
bem e dava-lhe um ar bastante feminino, mas ela acabou desistindo e devolveu-o novamente ao armário.

Escolheu um vestido mais casual e menos revelador, azul-claro com um toque de renda, que se abotoava na frente até em cima; embora não tenha ficado tão bom como o primeiro, transmitia uma imagem que ela julgou ser mais apropriada

Usava pouca maquiagem, só um toque de sombra e rímel para acentuar os olhos. Depois, perfume, não muito. Encontrou e pôs um par de brincos pequenos, de argolas, e calçou as sandálias marrom-claras de salto baixo que estava usando antes. Escovou e prendeu os cabelos loiros, e olhou-se no espelho. Não, era demais, pensou, e soltou os cabelos. Melhor.

Quando acabou de se arrumar, deu um passo para trás e se avaliou. Estava bonita: nem muito elegante ou vistosa, nem muito informal. Ela não queria exagerar. Afinal de contas, não sabia o que esperar. Já fazia muito tempo – tempo demais, talvez – e muitas coisas diferentes podiam ter acontecido, até mesmo coisas sobre as quais não queria pensar.

Olhou para baixo e viu que suas mãos estavam trêmulas, e riu. Era estranho; normalmente não ficava assim tão nervosa. Como Lon, sempre fora uma pessoa confiante, mesmo quando criança. Ela se lembrava de que, às vezes, isso havia sido até um problema, especialmente quando saía com alguém, porque intimidava a maioria dos garotos da sua idade.

Pegou a bolsa e as chaves do carro, depois a chave do quarto. Remexeu a chave na mão algumas vezes, pensando, “Você chegou até aqui, não vá desistir agora”, e nesse momento quase saiu porta afora, mas, em vez disso, sentou-se na cama outra vez. Olhou para o relógio de pulso. Quase l8 h. Ela sabia que tinha de sair dali a alguns minutos – não queria chegar depois de anoitecer, mas precisava de um pouco mais de tempo.

— Droga, murmurou, — o que estou fazendo aqui? Eu não devia estar aqui. Isso não tem razão de ser, mas assim que essas palavras saíram de sua boca ela soube que não era verdade. Havia alguma coisa ali. No mínimo, pelo menos encontraria a resposta que procurava.

Abriu o caderninho e folheou-o até encontrar um recorte de jornal dobrado. Depois de retirar lentamente o papel, quase com reverência, com cuidado para não rasgá-lo, desdobrou-o e por alguns momentos ficou olhando fixamente para ele. “É este aqui o motivo”, ela disse por fim, para si mesma. “É disto aqui que se trata”.


* * *

Noah levantou-se às 5h e foi andar de caiaque durante uma hora riacho Brices acima, como sempre fazia. Quando acabou, vestiu suas roupas de trabalho, esquentou alguns biscoitos do dia anterior, agarrou duas maçãs e engoliu o café da manhã com duas canecas de café.

Trabalhou novamente na cerca, consertando a maioria dos mourões que precisavam de reparos. Eram os últimos dias quentes do outono, com a temperatura acima dos 27°, e na hora do almoço Noah estava com calor, cansado e feliz por fazer um intervalo.

Comeu junto ao regato, porque havia peixes saltando. Ele gostava de vê-los saltando três ou quatro vezes e planando no ar antes de sumirem na água salobra. Por alguma razão Noah sempre ficara feliz de saber que o instinto deles não tinha se alterado em milhares, talvez milhões de anos.

Às vezes se perguntava se os instintos do homem também haviam mudado durante todo esse tempo, e concluía sempre que não. Pelo menos nos aspectos básicos, mais primais. Até onde sabia o homem sempre fora agressivo, sempre lutando para dominar, tentando controlar o mundo e tudo que nele existe. A guerra na Europa e no Japão era prova disso.

Parou de trabalhar um pouco depois das 15h e caminhou até um pequeno barracão que ficava junto à sua doca. Entrou, pegou uma vara de pescar, um punhado de iscas e alguns grilos vivos que mantinha sempre à mão, saiu, pôs a isca no anzol e lançou a linha.

Pescar era algo que sempre o fazia refletir sobre a sua vida, e era isso que estava fazendo agora. Depois da morte da mãe, se lembrava de ter passado seus dias em uma dúzia de casas diferentes; sabe-se lá por que motivo, quando era pequeno ele gaguejava muito, e por isso era alvo de gozação. Começou a falar cada vez menos, e quando fez cinco anos já não falava nada. Quando começou a frequentar a escola os professores pensavam que era retardado e recomendaram que fosse tirado da escola.

Em vez disso, o pai resolveu cuidar do problema com as próprias mãos. Manteve o menino na escola e depois da aula o fazia ir para o depósito de madeira onde trabalhava para arrastar e empilhar toras. “É bom a gente passar algum tempo juntos”, dizia, enquanto trabalhavam lado a lado, “como meu pai e eu fazíamos”.

Durante o tempo que passavam juntos o pai falava de pássaros ou animais e contava histórias e lendas conhecidas na Carolina do Norte. Em poucos meses Noah já estava falando de novo, embora não muito bem, e o pai decidiu ensiná-lo a ler por meio de livros de poesia. “Aprenda a ler isto aqui em voz alta e você vai conseguir dizer tudo o que quiser”. Mais uma vez o pai estava certo, e no ano seguinte Noah havia perdido a gagueira. Mas continuava indo para o depósito de madeira todos os dias simplesmente porque o pai estava lá, e no fim da tarde lia em voz alta obras de Whitman e Tennyson, enquanto o pai se balançava na cadeira a seu lado. Desde então, nunca mais deixara de ler poesia.

Quando ficou um pouco mais velho Noah passava sozinho a maior parte das férias e finais de semana. Explorava a Floresta de Croatan na sua primeira canoa, seguindo pelo riacho de Brices cerca de 30 quilômetros até não poder avançar mais, depois percorria a pé a distância remanescente até a costa. Acampar e explorar haviam se tornado a sua paixão, e passava horas na floresta, sentado debaixo de carvalhos negros, assoviando baixinho e tocando violão para os castores, gansos e garças-reais azuis selvagens. Os poetas sabiam que o isolamento na natureza, longe das pessoas e das coisas feitas pelo homem, era bom para a alma, e ele sempre tinha se identificado com os poetas.

Embora fosse uma pessoa reservada e de hábitos sossegados, os anos que passara levantando peso no depósito de madeira ajudaram Noah a se destacar nos esportes, e o seu sucesso atlético lhe garantira popularidade. Ele gostava de jogos de futebol americano e de corridas, e embora seus colegas de time saíssem juntos quanto tinham tempo livre, raramente se juntava a eles. Havia uma ou outra pessoa que o achava arrogante; a maioria achava simplesmente que era um sujeito que tinha crescido um pouco mais depressa que os demais. Na escola, teve algumas namoradas, mas nenhuma mulher jamais conseguira impressioná-lo. Exceto uma. E essa foi depois da formatura do ensino médio.

Allie, a sua Allie.

Ele se lembrava de ter conversado com Fin a respeito de Allie depois de terem ido embora do festival naquela primeira noite, e Fin caiu na risada. Depois o amigo fez duas previsões: primeiro, que eles se apaixonariam; segundo, que não daria certo.

Noah sentiu um leve puxão na linha e ficou na expectativa de que fosse uma perca de boca grande, mas logo depois os puxões pararam; ele rebobinou a linha, verificou a isca e lançou outra vez.

Fin acabou tendo razão nas duas coisas. Ela passou a maior parte do verão se desdobrando para arranjar desculpas aos pais cada vez que queria se encontrar com ele. Não que não gostassem dele – o fato é que vinha de uma classe social diferente, era pobre demais, e eles jamais aprovariam que a filha tivesse alguma coisa séria com alguém assim. “Não dou a mínima para o que os meus pais pensam, eu amo você e sempre vou amar”, ela dizia. “A gente vai dar um jeito de ficar juntos.

Mas, no fim das contas, não conseguiram. No início de setembro o tabaco já havia sido ceifado e ela não teve alternativa a não ser retornar com a família a Winston-Salem. “Só o verão acabou, Allie, nós não”, ele disse na manhã em que ela partiu. “Nós nunca acabaremos”. Mas acabaram. Por alguma razão que ele nunca pôde entender completamente, as cartas que escreveu ficaram sem resposta.

Por fim, Noah decidiu ir embora de Nova Berna para ver se isso ajudava a arrancá-la do pensamento, mas também porque com a Depressão estava quase impossível ganhar a vida ali. Primeiro, ele foi para Norfolk e trabalhou em um estaleiro durante seis meses até ser despedido, depois se mudou para Nova Jersey, porque tinha ouvido dizer que lá a situação econômica não estava tão ruim.

Acabou encontrando trabalho em um depósito de sucata, separando sobras de metal do resto do refugo. O proprietário do ferro-velho, um judeu chamado Morris Goldman, tinha a intenção de recolher a maior quantidade possível de fragmentos de metal, convencido de que na Europa teria início uma guerra para a qual os Estados Unidos seriam mais uma vez arrastados. Noah, porém, não se importava. Estava apenas feliz por ter um emprego.

Os anos passados no depósito de madeira haviam fortalecido Noah para aquele tipo de labuta, e ele trabalhava pesado. Isso não apenas o ajudava a manter Allie longe do pensamento durante o dia, mas também era algo que sentia que tinha de fazer. Seu pai sempre lhe dissera: “Dê um dia de trabalho por um dia de pagamento. Qualquer coisa menos que isso é roubo”. Essa atitude agradava seu patrão. “É pena que você não seja judeu”, dizia Goldman. “Tirando isso, em todas as outras coisas você é um ótimo rapaz”. Era o maior elogio que ele sabia fazer.

Noah continuava pensando em Allie, especialmente à noite. Escrevia-lhe uma carta por mês, mas jamais recebia resposta. Por fim escreveu uma última, e viu-se obrigado a aceitar o fato de que aquele verão que haviam passado juntos seria a única coisa que os dois compartilhariam na vida.

Apesar disso, porém, ela continuava com ele. Três anos depois da última carta, ele foi a Winston-Salem, na esperança de encontrá-la. Foi até a casa dela, descobriu que tinha se mudado, e depois de conversar com alguns vizinhos, por fim telefonou para a RJR. A moça que atendeu era nova na firma e não reconheceu o nome, mas esquadrinhou os arquivos pessoais para
ele. Descobriu que o pai de Allie tinha saído da empresa e não tinha deixado o novo endereço. Essa viagem foi a primeira e última vez que ele procurou por ela.

Ao longo dos oito anos seguintes Noah trabalhou para Goldman. No início era apenas um dos 12 empregados, mas à medida que os anos foram passando a firma cresceu e ele ganhou uma promoção. Em 1940 já dominava completamente o negócio, fechando acordos de compras e vendas e gerenciando uma equipe de 30 pessoas. O ferro-velho tinha se tornado a maior empresa no ramo de sucata na Costa Leste.

Durante esse tempo, saiu com várias mulheres diferentes. Teve um caso mais sério com uma delas, garçonete do restaurante local, de olhos azuis e cabelos negros sedosos. Embora tivessem ficado juntos por dois anos com uma boa dose de momentos agradáveis, ele nunca chegou a sentir por ela o que sentira por Allie. Mas também não se esqueceu dela, que era alguns anos mais velha e foi quem o ensinou como dar prazer a uma mulher, os lugares do corpo que devia beijar e tocar, os lugares onde devia se demorar, e as coisas que devia murmurar. Às vezes, os dois passavam o dia inteiro na cama, abraçando-se e fazendo o tipo de amor que satisfazia plenamente a ambos.

Ela já sabia que os dois não ficariam juntos para sempre. Uma vez, já perto do fim do relacionamento, ela disse: “Eu queria poder te dar aquilo que você está procurando, mas não sei o que é. Há uma parte de você que se mantém fechada para todo mundo, inclusive para mim. É como se você não estivesse de verdade comigo. Tem outra pessoa no seu pensamento”.

Ele tentou negar, mas ela não acreditou. “Sou mulher – eu sei essas coisas. Às vezes, quando você olha para mim, sei que vê outra. É como se você ficasse esperando que ela surja do nada para te levar embora, para longe de tudo isto aqui...” Um mês depois ela o visitou no trabalho e disse que tinha encontrado outra pessoa. Ele compreendeu. Os dois se separaram como amigos, e no ano seguinte ela enviou-lhe um cartãopostal dizendo que tinha se casado. Desde então ele nunca mais tivera notícias dela.

Quando estava em Nova Jersey, Noah visitava o pai uma vez por ano, perto do Natal. Juntos iam pescar, ficavam conversando, e de vez em quando viajavam até o litoral para acampar nos Outer Banks, as estreitas ilhas em forma de barreira ao largo da costa, perto de Ocracoke.

Em dezembro de 1941, quando Noah tinha 26 anos, começou a guerra, exatamente como Goldman havia previsto. No mês seguinte Noah entrou no escritório do patrão e informou-o da sua intenção de se alistar, depois voltou para Nova Berna a fim de se despedir do pai. Cinco semanas mais tarde estava no campo de treinamento de recrutas. Lá recebeu uma carta de Goldman agradecendo-o pelos anos de trabalho, junto com a cópia de um certificado que lhe dava direito a uma pequena porcentagem do depósito de sucata caso algum dia o lugar fosse vendido. “Eu jamais teria conseguido sem você”, dizia a carta. “Você é o melhor rapaz que já trabalhou para mim, mesmo não sendo judeu”.

Noah passou os três anos seguintes no Terceiro Batalhão de Patton, marchando com 13 quilos nas costas através dos desertos do Norte da África e das florestas da Europa, a sua unidade de infantaria nunca estava muito longe da ação. Ele via os amigos morrendo à sua volta, e alguns deles ficavam enterrados a milhares de quilômetros de casa. Uma vez, escondido em uma trincheira junto ao rio Reno, imaginou que Allie o protegia.

Ele se lembrava do fim da guerra na Europa e, poucos meses depois, no Japão. Pouco antes de dar baixa, recebera uma carta de um advogado de Nova Jersey, representando Morris Goldman. Na reunião que teve com o advogado descobriu que Goldman havia morrido um ano antes e que seu patrimônio tinha sido liquidado. A empresa fora vendida, e Noah recebeu um cheque de quase 70 mil dólares. Estranhamente, por alguma razão, não se sentiu nem um pouco empolgado.

Na semana seguinte retornou a Nova Berna e comprou a casa. Ele se lembrava de depois ter trazido o pai para ver o lugar, mostrando a ele o que ia fazer, apontando as mudanças que tinha intenção de levar a cabo. Achou que o pai estava debilitado, pois não parava de tossir e espirrar enquanto andava pela casa. Noah ficou preocupado, mas o pai disse que não se preocupasse, assegurando que era apenas uma gripe.

Menos de um mês depois o pai morreu de pneumonia e foi enterrado ao lado da esposa no cemitério local, que Noah tentava visitar regularmente para deixar flores; de vez em quando deixava também um bilhete. E todas as noites, sem falta, reservava um momento para recordar o pai, depois dizia uma oração pelo homem que o ensinara tudo que era importante.

Depois de rebobinar a linha, Noah guardou suas coisas e voltou para casa. Sua vizinha, Martha Shaw, estava lá, esperando para agradecê-lo, munida de três pães caseiros e alguns biscoitos em sinal de gratidão. O marido tinha morrido na guerra, deixando-a com três crianças e uma choça em péssimo estado para morar. O inverno estava se aproximando, e na semana anterior Noah dedicara alguns dias fazendo reparos no casebre da viúva, trocando janelas quebradas e vedando outras, consertando o fogão à lenha. Com sorte, seria o suficiente para que a família segurasse as pontas.

Assim que ela foi embora, Noah entrou na sua velha picape Dodge e foi visitar Gus. Ele sempre parava na casa do amigo quando ia fazer compras, porque a família de Gus não tinha carro. Uma das filhas subiu e foi com ele. Foram ao supermercado de Capers. Quando voltou para casa Noah não desempacotou de imediato os mantimentos. Em vez disso, tomou uma chuveirada, pegou uma cerveja Budweiser e um livro de Dylan Thomas, e foi se sentar na varanda.


* * *

Ela ainda não conseguia acreditar, mesmo segurando a prova nas mãos.

A prova tinha sido descoberta no jornal, na casa dos pais, três domingos antes. Ela tinha ido à cozinha buscar uma caneca de café, e quando voltou para a mesa o pai abriu um sorriso e mostrou a ela uma pequena fotografia. “Lembra disto aqui?”.

Ela pegou o jornal da mão do pai; depois de uma primeira olhadela desinteressada, algo na foto chamou sua atenção e ela olhou mais de perto. “Não pode ser” murmurou, e quando o pai fitou-a com ar de curiosidade ela o ignorou, sentou-se e leu o artigo sem dar um pio. Lembrava-se vagamente de que a mãe tinha chegado e se sentado do outro lado da mesa; quando por fim pôs o jornal de lado, a mãe encarou-a com a mesma expressão que vira no rosto do pai momentos antes.

— Você está bem?, perguntou a mãe por cima da caneca de café. — Você está um pouco pálida. Ela não respondeu de imediato; não poderia. E então percebeu que suas mãos estavam trêmulas. E foi assim que a coisa tinha começado.

— E é aqui que vai acabar de um jeito ou de outro, ela murmurou outra vez. Dobrou novamente o recorte do jornal e guardou-o, trazendo à memória o fato de que naquele dia ela tinha ido embora da casa dos pais levando o jornal, para recortar o artigo. Na mesma noite leu-o outra vez antes de ir para a cama, tentando aprofundar a coincidência, e leu-o outra vez na manhã seguinte, como se quisesse se assegurar de que não fora um sonho. E agora, depois de três semanas de longas caminhadas a sós, depois de três semanas de distração, essa era a razão pela qual ela tinha viajado até ali.

Quando alguém perguntava, ela dizia que o seu comportamento esquisito se devia ao estresse. Era a desculpa perfeita; todo mundo compreendia, inclusive Lon, e por isso ele não discutiu nem reclamou quando ela quis desaparecer por alguns dias. Os preparativos para o casamento eram desgastantes para todos os envolvidos. Haviam sido convidadas quase 500 pessoas, incluindo o governador, um senador e o embaixador do Peru. Era gente demais, na opinião dela, mas o noivado deles era notícia e tinha dominado as colunas sociais desde que fora anunciado, seis meses antes. De vez em quando, ela tinha vontade de fugir com Lon e casarse sem aquela confusão, aquele exagero. Mas sabia que o noivo não iria concordar; aspirante a político, ele adorava ser o centro das atenções.

Ela respirou fundo e levantou-se outra vez. “É agora ou nunca”, murmurou, depois pegou suas coisas e foi até a porta. Fez apenas uma breve pausa antes de sair e descer as escadas. O gerente sorriu quando ela passou, e enquanto caminhava até o carro, pôde sentir que os olhos dele a seguiam. Deslizou para trás do volante, olhou para si uma última vez, depois ligou o motor e virou à direita, rumo à Front Street.

Ela não se surpreendeu com o fato de que ainda conhecia todos os caminhos do lugar. Embora tivesse passado anos sem voltar ali, a cidade não era muito grande e ela dirigiu facilmente pelas ruas. Depois de atravessar o rio Trent, passando por uma velha ponte levadiça, pegou uma estrada de cascalho e iniciou o último trecho da sua jornada.

A planície estava muito bonita, como sempre fora. Ao contrário da área de Piedmont onde ela tinha crescido a terra ali era plana, mas tinha o mesmo solo fértil e sedimentoso, ideal para o algodão e o tabaco. Essas duas culturas, além da madeira, mantinham vivas as cidades nessa parte do Estado; dirigindo ao longo da estrada, fora do trecho urbano, ela viu a beleza que tinha atraído as pessoas para a região.

Para ela, o lugar não tinha mudado em nada. Raios de sol esparsos passavam através dos carvalhos e nogueiras de 30 metros, iluminando as cores do outono. À esquerda, um rio cor de ferro mudava de curso na direção da estrada e depois se afastava de novo, antes de abrir mão de sua vida desaguando em outro rio, maior, um quilômetro e pouco adiante. A estrada de cascalho também serpenteava entre fazendas erguidas antes da Guerra Civil, e ela sabia que para alguns dos agricultores a vida de fato não mudara desde antes do tempo em que os avôs dela tinham nascido. A constância do lugar evocou um jorro de recordações, e sentiu um aperto no coração e um nó na garganta à medida que, um a um, ia reconhecendo todos os pontos de referência que ela havia esquecido tanto tempo atrás.

À sua esquerda o sol pendia acima das árvores, e depois de uma curva ela passou por uma velha igreja, abandonada havia anos, mas que ainda teimava em ficar de pé. Naquele verão ela tinha explorado o lugar, à procura de suvenires do tempo da guerra entre os Estados; agora, ao passar de carro pela igreja as lembranças daquele dia de outrora se tornaram mais fortes, como se tudo tivesse acontecido ainda ontem.

Depois avistou um carvalho majestoso às margens do rio, e as memórias tornaram-se mais intensas. A árvore parecia ser a mesma de antes, os galhos baixos e grossos estendendo-se horizontalmente ao longo do chão, drapejados de musgo, como um véu. Ela se lembrava de ter se sentado debaixo daquela árvore, em um dia quente de julho, com alguém que a olhava com um desejo que fazia todo o resto desaparecer. E havia sido naquele momento que ela tinha se apaixonado pela primeira vez.

Ele era dois anos mais velho que ela, e dirigindo por aquela estrada rumo ao passado a imagem dele também foi lentamente entrando em foco. Ela se lembrou de ter pensado que ele sempre pareceu ser mais velho do que era de fato. Ele tinha a aparência de alguém ligeiramente desgastado, quase como um lavrador chegando a casa depois de horas arando o campo. Tinha as mãos calosas e os ombros largos, características dos que precisam trabalhar duro para viver, e as primeiras e finas rugas já começavam a se formar em volta dos olhos escuros que pareciam capazes de ler todos os pensamentos dela.

Ele era alto e forte, com cabelos castanho-claros e bonitos à sua maneira, mas o que ela mais se recordava era da sua voz. Naquele dia ele tinha lido em voz alta para ela; leu enquanto estavam deitados na relva debaixo da árvore, com uma dicção doce e fluente, uma entonação quase musical. Era o tipo de voz que devia estar no rádio, e que parecia ficar suspensa no ar enquanto lia para ela. Ela se lembrava de ter fechado os olhos, ouvindo atentamente e deixando que as palavras que ele ia lendo tocassem sua alma:

Ela me seduz para a névoa e para o crepúsculo.
Eu me vou feito o ar, agito minhas madeixas
brancas ao sol fugidio...2*

Ele folheava livros velhos, páginas marcadas com os cantos dobrados, livros que ele já tinha lido centenas de vezes. Ele lia um pouco, depois parava e os dois conversavam. Ela contava o que queria fazer na vida – as suas esperanças e sonhos para o futuro – e ele ouvia atentamente, depois prometia que faria tudo aquilo tornar-se realidade. E falava de um jeito que fazia com que ela acreditasse nele, e nesse instante ela sabia o quanto ele significava para ela. De vez em quando, quando ela pedia, ele falava de si mesmo, ou explicava por que razão tinha escolhido esse ou aquele poema e o que pensava dele; outras vezes, ele se limitava apenas a olhar para ela, daquele seu jeito intenso.

Naquele dia os dois ficaram contemplando o pôr do sol e comeram juntos sob as estrelas. Estava ficando tarde, e ela sabia que seus pais ficariam furiosos se tivessem ideia de onde ela estava. Naquele momento, porém, isso não importava. Ela só conseguia pensar em como aquele dia tinha sido especial, em como ele era especial, e minutos depois, quando os dois já estavam voltando para casa, ele segurou a mão dela, e por todo o caminho ela sentiu a maneira como o toque dele a aquecia.

Outra curva na estrada e ela por fim avistou a casa ao longe. O lugar tinha mudado drasticamente em relação à recordação que ela tinha. Conforme foi se aproximando, diminuiu a velocidade e pegou a comprida trilha de terra ladeada de árvores que levava ao farol que a tinha convocado a vir de Raleigh.

Guiou devagarinho, olhando para a casa, e respirou fundo quando o viu na varanda, fitando o carro. Ele estava vestido de modo informal. À distância, ele parecia exatamente igual ao que tinha sido naqueles dias. Em certo momento, quando a luz do sol ficou por detrás dele, teve a impressão fugaz de que ele tinha sido engolido pelo cenário.

Ela continuou em frente, devagar, até que por fim parou junto a um carvalho que abrigava com sua sombra a frente da casa. Ela virou a chave, sem em momento algum tirar os olhos dele, e o motor espirrou até parar.

Ele desceu da varanda e começou a se aproximar dela, caminhando com tranquilidade, depois congelou assim que a viu sair do carro. Durante um longo tempo tudo o que os dois conseguiram fazer foi se entreolharem fixamente, imóveis.

Allison Nelson, 29 anos e noiva, uma pessoa da alta sociedade, à procura de respostas que ela precisava saber, e Noah Calhoun, o sonhador, 31 anos, visitado pelo fantasma que acabara dominando a sua vida.


1 * Poema “A Clear Midnight”, do livro Leaves of Grass (Folhas da Relva), edição de 1900. (N. da T.)

2 * Fragmento de “Song of Myself”, de Walt Whitman. (N. da T.)

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados