Trecho de De Volta à Cabana, de C. Baxter Kruger
A história por trás da história
A cabana é uma história que não foi criada para virar livro. Foi escrita por William P. Young (Paul, para os amigos), para seus filhos. Paul tinha dois objetivos: primeiro, presenteá-los com algo que expressasse seu amor por eles; segundo, ajudá-los a “entender o que se havia passado em seu mundo interior”, tal como disse seu amigo Willie. O objetivo de Paul era imprimir 15 exemplares para dar no Natal aos filhos, à mulher e a uns poucos amigos. Achou tempo para fazer isso em meio a três empregos que mal lhe garantiam a sobrevivência. Os exemplares ficaram prontos e a história circulou na família e entre amigos. Ele foi incentivado a publicá-la, mas todos os editores com quem fez contato a recusaram, ora considerando-a “muito fora dos padrões”, ora achando que a história “tinha Jesus em excesso”. Para Paul, a publicação em forma de livro – hoje um dos mais vendidos de todos os tempos – não passa de um bônus, um brinde. Seu sonho já tinha sido realizado quando os primeiros exemplares foram produzidos e seus filhos puderam conhecer uma história capaz de explicar um pouco da jornada do pai deles pelo mundo “real”.
Eu ouvi Paul dizer que sua vida alcançou o ápice quando ele clamou: “Papai, nunca mais vou lhe pedir que abençoe algo que eu faça, mas se houver alguma coisa que você esteja abençoando e que eu possa partilhar, eu adoraria. E tanto faz que seja limpar banheiros, abrir e fechar portas ou lustrar sapatos.” E Papai respondeu: “Paul, que tal se eu abençoasse essa historinha que você está escrevendo para seus filhos? Você a dá de presente aos seus e eu a dou aos meus.” O resto, como se costuma dizer, é história.
Mas será? Muito mais coisas se passam na vida de uma pessoa comum do que alguém ousaria sonhar. E isso certamente vale para Paul Young. A cabana não é um romance escrito por um acadêmico que aprendeu, afinal, a se comunicar com gente comum. Há uma história por trás da história – várias histórias, na verdade – mas eu fico com o que disse Willie: ajudá-los a “entender o que se havia passado em seu mundo interior”. O mundo interior, o mundo do invisível, o mundo de dor e turbulência, de vergonha, de corações partidos e sonhos frustrados é o que rege todos nós e conduz a fábula de A cabana. A história por trás da história é o inferno opressivo que Paul Young viveu em pessoa. Eu vi uma foto de Paul com 6 anos de idade. Parecia um velho – cansado, infeliz, acabado e terrivelmente triste. Seus olhos eram como um apelo desesperado. A imagem me fez chorar. Mas ela é o início dessa história que a maioria de nós apreciou tanto.
Aos 6 anos, Paul já tinha sofrido abandono emocional, agressão física e verbal e violência sexual – repetidas vezes. Para usar um eufemismo, ele foi mutilado internamente desde os primeiros dias de vida. Não há criança – ou pessoa – que consiga superar um trauma desses, que produz uma dose letal de vergonha, medo, insegurança, ansiedade e culpa. Todas essas forças invisíveis se fundem para convencer a vítima: “Eu não sou legal. Não sou bom, não valho nada, não tenho a menor importância, não sou amado, não sou humano”1 – e assombram todos os momentos da vida. Como uma criança, ou qualquer pessoa, seria capaz de lidar com um mundo interior tão angustiado? Ninguém consegue.
Assim como o peixe não foi feito para viver na Lua, nós não fomos concebidos para viver envergonhados. Mas o que você faz? Aonde vai? A maioria enterra tudo isso numa lata de lixo no fundo da alma e segue em frente – ou tenta. Mas as coisas que enterramos nos governam. Aquilo que desconhecemos irá nos destruir. E, para escapar da destruição, sonhamos com uma série de coisas que poderiam nos realizar. “Ah, se eu me casasse e tivesse filhos”; “Ah, se eu conseguisse esse emprego ou essa promoção, aquele dinheiro, aquele carro, aquela casa, aquele poder, aquela posição, aquele novo relacionamento”... E assim vamos indo. Mas essas “coisas” nunca resolvem o sofrimento espiritual. Então nos medicamos, ligamos o piloto automático, fazemos exames ou nos ocupamos, nos envolvemos em alguma grande causa, pregamos, orientamos pessoas, vivemos através dos filhos, ou simplesmente ficamos bêbados nos mais variados sentidos. Isso é demais.
Paul Young voltou-se para a religião, em parte porque era o ambiente em que ele crescera e, por isso mesmo, estava sempre à mão, em parte porque representava um caminho possível para ele mostrar seu valor. Paul nasceu em Alberta, Canadá, mas antes de completar 1 ano foi levado para uma comunidade missionária nas montanhas da Nova Guiné Holandesa (Papua Ocidental). Por volta dos 6 anos, por exigência da direção da missão, foi enviado para o colégio interno. Antes que ele completasse 10 anos, a família regressou de repente para o Canadá, de modo que, ao concluir o ensino médio, Paul havia frequentado 13 escolas diferentes. Seu pai passara de missionário a pastor.
Esses fatos não expressam suficientemente o sofrimento de tentar se ajustar a diferentes culturas, não falam das perdas vitais e quase absurdamente insuportáveis, de caminhar pelos trilhos do trem à noite, em pleno inverno, chorando em meio à tempestade, de conviver com uma vergonha tão grande e profunda que constantemente ameaçava todos os graus da sanidade, de ver os sonhos não apenas destruídos mas apagados pelo fracasso pessoal, de ter uma esperança tão tênue que só apertar o gatilho parecia trazer uma solução.2
A religião era o único mundo que Paul conhecia, as cartas que lhe couberam. Então ele as jogou. Acreditou na versão “religiosa” da cristandade. Tinha que acreditar. Com o “Eu não sou bom” sussurrando em seus ouvidos a todo momento, ele decidiu provar que era. Formou-se na faculdade como um dos primeiros da turma, virou uma estrela brilhante, um artista em ascensão na esfera religiosa. Mas em todos os instantes estava entregue à tarefa exaustiva de ficar alerta e vigilante, observando permanentemente cada grupo, cada conversa e cada encontro para saber qual a impressão das pessoas a seu respeito. E ele fazia isso numa tentativa desesperada de esconder dos outros sua morte interior.
Fechando com força a tampa de sua lata de lixo com uma das mãos, ele sorria, ensinava a Bíblia, tornava-se “o cara legal”, o conselheiro, sempre mantendo todo mundo a uma distância segura. Mas não encontrava alívio para a perplexidade atroz que havia em seu mundo interior. Clamava a Deus que o curasse, dedicando centenas de vezes a própria vida, até que, finalmente, tanta dedicação se esgotou. Sua vida transformou-se num meio de se esconder enquanto continuava buscando desesperadamente alívio e auxílio em todos os lugares possíveis. Mas não há cura na religião. A cura ocorre quando você encontra Jesus na sua cabana – um lugar cuja existência Paul, como a maioria de nós, fez de tudo para negar.
Ele exerceu seu papel no ministério, nos negócios, no casamento, na paternidade, tentando desesperadamente tornar-se um ser humano autêntico, ao mesmo tempo escondendo a vergonha e as falhas pessoais. Um simples telefonema derrubou para sempre seu mundo. Na verdade, apenas duas palavras: “Eu sei.” Kim, a mulher de Paul, descobriu que ele estava tendo um caso amoroso com uma de suas amigas. Um caso é uma das formas pelas quais a vergonha instila seu veneno em nossas vidas. Há milhões de outras, claro, mas essa nos transforma em outra pessoa, um “outro mágico”3 que será nosso tudo, nossa vida, nossa salvação. Desconfio que Paul descobriu o que William Congreve quis dizer quando escreveu: “No inferno não há fúria maior do que a de uma mulher desprezada.” Essa, porém, não é toda a verdade. “No céu não há um aliado maior do que uma mulher que sabe amar.” Na dedicatória do livro lê-se: “A Kim, minha amada – obrigado por salvar minha vida.”
Embora o fim de semana de Mackenzie na cabana represente 11 anos da vida de Paul – 11 anos de sofrimento e tortura emocional, depressão e momentos fugazes de esperança –, foi o amor heroico de Kim, envolto em fúria, que preservou a união. Numa perspectiva humana, sem Kim e a generosidade de seu coração, Paul Young provavelmente teria morrido, ou estaria jogado em algum asilo frio, ou seria um homem vazio ainda representando. Não haveria história para contar, pelo menos essa do encontro com a Santíssima Trindade na lata de lixo.
Do outro lado do inferno, à medida que a liberdade e a vida reais começaram a surgir no horizonte, foi a insistência de Kim que levou Paul a escrever algo para os filhos, a fim de explicar sua jornada e a recém-obtida libertação. Ela não tinha pensado num livro, nem Paul, mas a maior parte dos amigos empenhou- -se nesse sentido. Em mais de uma ocasião, eu o escutei falar de Kim e das crianças enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto. O livro nasceu na complexidade da vida, do trauma e do abuso, da religião vazia, da miséria e da traição, da piedade, do amor e da reconciliação. Lutero disse, não me lembro onde, que Deus faz os teólogos mandando-os para o inferno. No inferno, claro, ninguém está interessado em teologia. No vazio da dor, na tristeza, no trauma do sofrimento nós não estamos interessados em promessas falsas, em masturbação intelectual, ou no “Cristo-maravilha”, como diz meu amigo Ken Blue. O que aprendemos no inferno é que queremos sair de lá. Aprendemos o desespero pela vida, pela verdadeira salvação, por um Salvador que nos salve aqui e agora, que nos reconcilie, que cure nossa fraqueza e nos livre da vergonha. Necessitamos de algo que funcione.
Essa é a história por trás da história. A cabana poderia perfeitamente se intitular “Do inferno ao céu”, ou “Da vergonha insuportável a ser amado por toda a vida”, ou ainda “De como Jesus curou um homem arrasado”, ou talvez “Com deuses como os nossos, não admira sermos tão tristes e destroçados”. A história é sobre inferno e céu, trauma, vergonha e encontro do amor, o homem destroçado sendo aceito pelo verdadeiro Jesus, e sobre o Pai, o Filho e o Espírito nos encontrando no país distante de nossa terrível e impotente mitologia – para repartir conosco suas vidas. A verdade por trás do Universo é que Deus é Pai, Filho e Espírito, e que o único e defi nitivo propósito da Santíssima Trindade é que venhamos a saborear e sentir, conhecer e experimentar a genuína vida trina.
O que Paul e Kim viveram e o que descobriram no amor de Papai, Jesus e Sarayu foi a alegria indizível, gloriosa, à qual Pedro se referiu,4 e a vida plena que Jesus prometeu.5 Não puderam mais voltar para a mesma religião – velha, infl exível e superexigente – com seus versículos bíblicos corretamente cotejados. Como C. S. Lewis, no meio da maior miséria, eles foram “surpreendidos pela alegria”.6
Há quem se ofenda com a teologia de A cabana. Paul reage, não com argumentos teológicos, nem buscando fundamentos em citações bíblicas, apesar de ser adepto ferrenho de ambos. Sua resposta consiste em sua própria vida e suas próprias relações. Ele diria: “Eu tenho uma camiseta do inferno, aliás, tenho várias. A religião não funciona em todos os lugares, especialmente lá, mas o Pai, o Filho e o Espírito vieram ao meu encontro no inferno. Eles me aceitaram, me amaram, me abraçaram e estão me curando com seu amor.” Acho que Paul faria uma única pergunta a quem o atacasse: “Como a sua teologia está funcionando para você?” E prosseguiria: “Como a sua mulher, ou seu marido, e seus amigos acham que a sua teologia está funcionando para você?” Então, embora A cabana seja uma história que ele escreveu para os filhos, a coisa é um pouco mais complicada. Essa história é uma questão de vida ou morte. Paul Young é um cara sério. Ele quer que seus filhos percebam a desastrosa incompetência da religião para curar nossas almas destroçadas. E quer que eles conheçam a espantosa libertação do abraço de Papai.
O Pai, o Filho e o Espírito, que ele chama de Papai, Jesus e Sarayu, não são mitos como o Papai Noel, o Jesus branco de olhos azuis e a fadinha do dente. Eles são absolutamente reais. Vão ao nosso encontro na dor, no ódio, na amargura e no ressentimento, na nossa vergonha, na nossa culpa e na nossa impotência, nas nossas relações trágicas, infelizes – e na nossa religião moribunda –, e aí eles nos amam em nome da vida e da liberdade. Vem daí a segunda dedicatória: “... todos nós, falhos, que acreditamos que o Amor governa. Levantemo-nos e deixemos que ele brilhe.”7

