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Trecho de Cabeza de Vaca, de Paulo Markun

Atlântico Sul, certa manhã de maio de 1545. Mais veloz entre os navios com remos, o bergantim de dois mastros, ideal para viagens curtas, sofre sob o temporal que já dura quatro dias. Espalhados pelos onze bancos da embarcação inundada, 27 homens aguardam o naufrágio iminente. Acorrentado ao catre, num pequeno abrigo sobre a popa, está o 28o passageiro: o governador do Rio da Prata, Álvar Núñez Cabeza de Vaca, um alquebrado fidalgo de 57 anos.

De repente, o inspetor de minas Alonso Cabrera ordena a um marinheiro que lime a corrente que prende o fidalgo. Está convencido de que o temporal é uma resposta de Deus aos maus-tratos infligidos ao prisioneiro. Assim que o sujeito cumpre a ordem, o tesoureiro real Garci Venegas ajoelha-se, beija os pés do governador e pede perdão. Pouco depois, cessa a tormenta.

Os detalhes da cena, que mais parece ficção, estão registrados no Arquivo das Índias, em Sevilha, num pacote de folhas amareladas e soltas. Ali é possível acompanhar as palavras de arrependimento dos oficiais, a calmaria subsequente e a conturbada viagem do bergantim; mais um lance fantástico numa vida atribulada.

Quando o mar serenou, os oficiais libertaram três partidários do governador — o capitão Juan Salazar de Espinosa, que ele indicara como sucessor; seu secretário particular, Pero Hernández; e seu primo, Pedro Estopinán —, todos viajando, igualmente, na condição de traidores do imperador. Depois de novos pedidos de perdão, os oficiais reais propuseram ao quarteto esquecer o passado e voltar ao Rio da Prata, onde o governador seria reempossado. Cabeza de Vaca não concordou.

Dispostos a encerrar de qualquer maneira a pendenga, Cabrera e Venegas prometeram lançar ao mar o dossiê sobre os supostos crimes do governador, desde que os demais fizessem o mesmo com todos os papéis existentes a bordo. Nada feito. A dupla tentou usar a força para impor a ideia, mas um grupo encastelou-se na popa e os rechaçou com a ajuda de um arpão e de uma lança.

E assim seguiram viagem, carregando a papelada reunida por Cabrera e Venegas e os documentos escondidos por seus rivais no bergantim, antes do embarque, e que apresentavam uma versão bem diferente do que ocorrera no Rio da Prata.

Por três longos meses driblaram a fome, até alcançarem o arquipélago dos Açores. Na ilha Terceira, Cabeza de Vaca desembarcou, a pretexto de recobrar as forças em terra, e tomou outro navio, certo de que desse modo chegaria primeiro à Espanha, determinaria a prisão de seus adversários e recuperaria o governo do Rio da Prata.

Nada aconteceu como ele imaginara. Álvar Núñez pode ter ficado aborrecido, mas não surpreso. Afinal, reveses e decepções tinham sido a tônica de sua vida até então.

Soldado e camareiro Tem-se como certo que o terceiro filho (e primeiro varão) do casal Francisco de Vera e Teresa Cabeza de Vaca nasceu entre os anos de 1485 e 1507 — em plena época das grandes navegações portuguesas e espanholas.

Recentemente, com base numa série de aproximações apoiadas em documentos legais, os pesquisadores norte-americanos Rolena Adorno e Charles Pautz reduziram bem a imprecisão em torno da data de nascimento de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, estimando-a entre 1487 e 1488 (o que lhe daria 57 ou 58 anos no momento em que seus inimigos pediram perdão a ele em alto-mar).

Sua árvore genealógica registra um entrelaçamento pouco comum: depois da morte de Pedro Fernández Cabeza de Vaca, seu avô materno, a viúva, Catalina de Zurita y Figueroa, casou-se novamente, dessa vez com o avô paterno de Álvar Núñez, Pedro de Vera Mendoza, que também enviuvara. União que fez deles, simultaneamente, avós legítimos e postiços dos seis filhos de Francisco e Teresa.

Na pia batismal, nosso personagem recebeu o sobrenome da mãe, tornando-se o terceiro Álvar Núñez Cabeza de Vaca em três séculos e treze gerações. Na época, filhos que não fossem primogênitos podiam herdar o nome de família materno, para reforçar direitos de herança ou homenagear um ancestral ilustre ou renomado, como no caso.

A origem do sobrenome insólito costuma ser relacionada à batalha de Navas de la Tolosa, decisivo confronto entre cristãos e muçulmanos ocorrido em 16 de julho de 1212 ao sul de Madri. As tropas de Castela, Navarra, Aragão e Portugal corriam sério risco de ser varridas para sempre da península Ibérica. Encastelados no topo da serra, os "infiéis" tinham vantagem numérica e geográfica. Sem comida e cercados pelos adversários, os cristãos tiveram sua sorte mudada quando avistaram na montanha, pendurado numa vara, o crânio de uma vaca devorada pelos lobos. A cabeça de vaca fora colocada ali por Martín Alhaja, um pastor de ovelhas, para indicar aos europeus o caminho mais seguro. É o que afirma Diego Hernández de Mendoza, no manuscrito Nobiliário Antiguo, de 1570.

[...] e veio um homem em hábito de vaqueiro que lhe disse: "eu posso, com ajuda de Deus, levá-los a um lugar seguro, por onde podem passar, sem perigos, se puder voltar ao lugar onde ontem os lobos me comeram uma vaca". Dizem alguns que esse homem se chamava Martín Alhaja. O rei lhe prometeu que, se fizesse o que dizia, lhe daria tais mercês que ele se tornaria um dos grandes do reino. Enfim, o homem passou a guiar as tropas e chegou ao lugar onde haviam matado sua vaca e apontou com a lança dizendo: "senhor, esta é a cabeça da vaca que me comeram os lobos"; e que por isso o chamaram de Cabeza de Vaca [...] Depois da vitória, honrando-o o quanto pôde, o rei o tornou cavalheiro e lhe deu aquele sobrenome e um escudo de armas axadrezado [cor] de ouro. O ouro pela nova nobreza e o vermelho pelo sangue que ali se derramou e uma cabeça de vaca da linhagem. Há em Castela e em muitas partes, muitos cavalheiros [com esse sobrenome], embora tenha sido em Zamora onde ele teve seu primogênito.

Apesar do sobrenome que foi pespegado a Álvar Núñez na pia batismal — e de sua nobre origem —, a figura masculina mais relevante da infância dele não foi um Cabeza de Vaca, mas um Mendoza. Ou melhor, um Vera Mendoza: seu avô, Pedro de Vera Mendoza, cujos feitos militares o neto reuniria numa probanza.

Como boa parte desta história tem como fonte primária esse tipo de documento, é bom explicar: probanza era uma espécie de relatório preparado por um escrivão tomando como princípio as respostas, dadas por testemunhas escolhidas a dedo, a perguntas igualmente selecionadas para comprovar um pressuposto. Não tinha, portanto, nenhum compromisso com a isenção. A que Álvar Núñez mandou fazer tinha o objetivo explícito de demonstrar a lealdade do patriarca de sua família com a Coroa espanhola.

O papel decisivo desempenhado por Pedro de Vera nas ilhas Canárias resultou de um acordo formal com os "reis católicos", Fernando e Isabel. O avô de Álvar Núñez assumiu a responsabilidade, os ônus e os eventuais bônus da reconquista do arquipélago, essencial para que a Espanha pudesse comerciar com a África. O sucesso da operação contra os muçulmanos fez com que essa parceria público-privada, ou "terceirização", fosse repetida em

1492, com as famosas Capitulações de Santa Fé, que permitiram a Cristóvão Colombo partir em busca de um caminho para as Índias, dando com os costados no Novo Mundo.

Sustentado legalmente pela capitulação, e graças a uma mistura de habilidade política e força bruta, Pedro de Vera derrotou os "infiéis", levando um cronista da época a classificá-lo como "o mais valente guerreiro e chefe de toda a ilha". O avô de Cabeza de Vaca batalhou seis anos até controlar a ilha de Gran Canária.1 Nesse período, cooptou infiéis, explorou dissensões e tomou o lugar do governador, depois de matá-lo com suas próprias mãos.


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