LIVROS  

Trecho de Beber Jogar Fazer, de Andrew Gottlieb

3

A primeira vez que fiquei bêbado foi aos 13 anos. Estava na festa de 16 anos de minha irmã e uma hora o bar ficou sem ninguém. Enchi uma garrafinha com uma mistura de rum, vodca, Jack Daniel’s, Mountain Dew e Cointreau e mandei bala. Um vídeo gravado pelo meu tio documentou que, depois disso, eu fiquei pelado, soquei o cachorro do vizinho e me joguei na piscina. Apesar de não me lembrar de nada disso, a evidência em vídeo é incontestável. Fui punido severamente e fiquei com vergonha, mas, por outro lado, me lembro com orgulho de não ter desmaiado (e de ter derrubado um pastor alemão com um soco).

Depois dessa iniciação pelo fogo, mantive certa distância deste meu gosto por cevada e uvas fermentadas. Gostava de uma visita ocasional ao covil de Dioniso, mas nada muito extremo. Uma cerveja aqui, uma tequila acolá. A única vez que fiz 82 no golfe, celebrei com meia dúzia de shots de Jägermeister. Acordei na parte de areia do campo com um taco de ferro torcido na minha cintura, como um cinto. Aparentemente, diferente de quanto tinha 13 anos, com 22 eu desenvolvi a habilidade de desmaiar.

Minha esposa não era fã de bebidas. Ou, sendo mais específico, ela não era fã de se ficar bêbado. Ela adorava ficar discutindo vinhos e o seu nariz, corpo, pernas, buquê, tórax e toques de carvalho. Mas se você tentasse tomar mais do que uma taça, ela ia olhálo como se você acabasse de peidar na salada de batatas. Então, durante os oito anos em que fui casado, mantive uma dieta de suco de frutas, água com gás e pequenos goles de Pinot Noir rapidamente cuspidos em jarros de metal.

Enquanto ouvia a novidade de que a minha chorona mulher queria se divorciar, estranhamente, fui acometido por uma enorme sede de rum, vodca, Jack Daniel’s, Mountain Dew e Cointreau. Foi bom que não houvesse um bar liberado por perto, senão dessa vez não seria o cão do vizinho que seria socado.

Mas controlei as minhas vontades. Fiquei absolutamente sóbrio enquanto minha esposa enumerava as minhas infinitas falhas. Estava com a cabeça limpa enquanto ela arrumava as malas e saía de casa tempestuosamente. Fui até calmo demais quando o advogado que ela já havia contratado me ligou no dia seguinte para tratar do divórcio. Mas, no dia seguinte a esse, quando descobri que ela já havia ido morar com um cara chamado David, eu saí e enchi a cara.

Há vários jeitos diferentes de encher a cara. Há aquele em que você fica alegrinho, aquele em que fica pensativamente triste, aquele em que fica revoltado, aquele em que fica excitado – mas o pior é quando se enche a cara por causa de amor. Cheguei a esse estado em um bar de Manhattan, cujo nome é melhor não ser mencionado devido a problemas legais e de bom gosto. Eu estava no meu escritório por volta das dez da manhã quando recebi uma mensagem de texto em linguagem da molecada de hoje e não entendi nada. Primeiro pensei que meu celular havia sido hackeado por algum retardado. Depois percebi que era uma mensagem de minha esposa e, com a ajuda de um moleque de 8 anos, decifrei o código, que era: "Vou pegar as joias amanhã. Não esteja lá. Estou morando com o David. Até mais". As 10h03, eu estava no único bar que achei aberto e pedido ao barman para encher um copo grande com bourbon. Às 10h26, estava no terceiro copo. Às 10h34, estava jogando os três copos vazios na parede. Às 10h35, estava tomando um soco na cara do barman.

Por volta de 10h50, enquanto colocava gelo na minha cara e cantava Gypsy Rover junto com Kevin (o barman), cheguei à conclusão de que o estágio bêbado por causa de coração partido não estava funcionando para mim. Continuava achando que precisava me embebedar e me manter bêbado, mas sabia que deveria ser de uma maneira mais saudável, segura e divertida.

Precisava dar um choque no meu coração para que ele voltasse ao que era antes. Não como era quando fui escolhido e depois destruído por minha mulher. Não como era quando tinha de suar com trabalhos e me preocupar com provas. Eu queria – não, eu precisava – sentir de novo aquela sensação que tive aos 13 anos, logo depois de socar o cachorro e um pouco antes de perder a memória. Precisava achar um jeito de me divertir de novo. Foi quando pensei, pela primeira vez, em dar um tempo de um ano em minha vida atual e ir procurar uma outra melhor. E então decidi começar o meu ano de folga de vida estúpida enchendo a cara na Irlanda, todo feliz.


Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados