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Trecho Adeus, China,
de Li Cunxin
SAINDO DE CASA
Eu tinha quase 11 anos quando, certo dia, na escola, enquanto estávamos
ocupados memorizando algumas frases do chefe Mao, o diretor entrou
na sala gelada acompanhado de quatro pessoas com um ar distinto,
todas usando jaquetas ao estilo Mao e casacos com golas de pele
sintética.
O que havia de errado, desta vez? Para minha surpresa, porém,
o diretor apresentou as visitas como representantes de madame Mao,
de Pequim. Estavam ali a fim de selecionar estudantes talentosos
para estudar balé e servir à revolução
do chefe Mao. Ele, então, nos pediu que levantássemos
e cantássemos "Amamos o chefe Mao".
O Leste está vermelho, o sol está nascendo.
Mao Zedong nasceu na China.
Veio para nos trazer felicidade.
Hu lu hai ya.
A estrela da sorte nos salvou.
Enquanto cantávamos, os quatro representantes percorriam
as fileiras de carteiras. Eles selecionaram uma menina de olhos
grandes, dentes certinhos e rosto bonito. Passaram sem me notar
e já iam saindo, quando a professora Song, depois de certa
hesitação, tocou no ombro de um dos senhores de Pequim
e perguntou, apontando para mim:
– Que tal aquele ali?
O representante de Pequim olhou em minha direção.
– Está certo. Ele pode vir também – respondeu o senhor,
sem muito empenho, expressando-se em um perfeito dialeto mandarim.
A menina de olhos grandes e eu fomos atrás dos representantes
de madame Mao até a sala do diretor. Era a única que
dispunha de um aquecedor a carvão, uma engenhoca meio tosca,
feita artesanalmente de um balde de onde saíam canos em várias
direções, como as patas de uma aranha. Com tudo isso,
a sala continuava extremamente fria.
Ao chegar, já encontramos lá outras crianças
– éramos dez escolhidos. Todos vestíamos calças
e casacos de algodão acolchoado feitos em casa. Juntos na
sala gelada, parecíamos uma fileira de bolas de neve.
– Tirem a roupa toda, menos as roupas de baixo – ordenou um homem
de óculos. – Depois, dêem um passo à frente,
um a um. Vamos medir o corpo de vocês e testar a sua flexibilidade.
Nós nos entreolhamos nervosamente e ninguém se mexeu.
– Qual é o problema? Não ouviram? Tirem a roupa!
– vociferou o diretor.
– Desculpe – um dos garotos começou timidamente –, mas eu
não tenho roupa de baixo.
Para minha surpresa, eu era o único a usar roupa de baixo,
embora remendada pela niang, minha mãe, já
que tinha servido a todos os meus irmãos mais velhos. Então,
fui emprestando-a a um por um dos colegas, para que pudessem se
apresentar.
Os oficiais do serviço público avaliaram nosso corpo:
parte superior do tronco, pernas, comprimento do pescoço
e até os dedos dos pés. Todos os que foram chamados
antes de mim reagiram ao teste de flexibilidade com gritos e reclamações.
Quando chegou a minha vez, um dos oficiais se aproximou e flexionou
minhas pernas para fora; outro ajeitou meus ombros e um terceiro
pressionou o joelho contra a parte inferior das minhas costas e,
ao mesmo tempo, puxou com força meus joelhos para trás,
para verificar a mobilidade das articulações dos quadris.
A dor foi tanta que tive a impressão de que todos os meus
ossos iam se quebrar ao mesmo tempo. Queria gritar, mas por alguma
razão não o fiz. Estava obstinadamente decidido a
manter a dignidade e o orgulho. Só o que fiz foi cerrar os
dentes.
Quando os testes terminaram, eles haviam escolhido apenas um menino
e uma menina. O menino era eu. Fui tomado por ansiedade e medo.
Não sabia o que estava para acontecer. Os oficiais falaram
em balé, mas eu só conhecia o que tinha visto no filme
O Destacamento Vermelho de Mulheres. Não tinha
a menor idéia do que se tratava.
Nos dias seguintes, só se falava no teste, tanto na escola
como em toda a vila. A princípio, meus pais não deram
muita atenção. Em nossa família, não
havia o menor sinal de talento artístico. Vários dos
meus irmãos e colegas implicavam comigo:
– Faz um passo de balé! Faz um passo de balé!
Mas eles sabiam que eu nada entendia do assunto. Para mim, o aspecto
mais emocionante era a possibilidade de ir a Pequim e me aproximar
do admirado chefe Mao. E a possibilidade, embora improvável,
de sair do poço.
Algumas semanas mais tarde, fui ao escritório da comuna
para novos testes. Dessa vez, eles avisaram aos pais com antecedência,
para que os candidatos usassem roupa de baixo.
O segundo teste foi muito mais difícil. A garota de olhos
grandes não passou: gritou quando teve as costas dobradas
para trás e foi desclassificada por falta de flexibilidade.
Então, chegou a minha vez. Uma professora levantou uma das
minhas pernas, enquanto outras duas seguravam a perna que estava
no chão, mantendo-a reta e firme. Elas iam levantando a perna
cada vez mais alto e perguntavam se doía. É claro
que doía. E muito! Mas eu estava determinado a ser escolhido.
Mantive o sorriso e respondi:
– Não. Não dói nada.
"Seja forte! Seja forte! Você pode suportar a dor!",
repetia para mim mesmo. O mais difícil, porém, foi
andar normalmente depois. Elas tinham lacerado meus tendões.
Depois do teste entre os estudantes da comuna, fomos submetidos
a outros, em nível de cidade, município e província.
A cada vez, havia mais crianças, e o número de eliminados
aumentava sempre. No exame físico em nível de município,
a marca de queimadura que tenho no braço quase me desclassificou.
Um dos professores de Pequim reparou na cicatriz e mostrou ao médico.
– Como foi isso? – perguntou o médico.
Minha vida começou com uma quase tragédia para meus
pais. Com apenas quinze dias de nascido, a niang me embrulhou
em uma colcha de algodão, deitou-me sobre o kang (uma
plataforma de alvernaria que de noite é cama e de dia serve
para fazer as refeições) e foi para a cozinha preparar
os pãezinhos de ano-novo. Na China, as mães sempre
envolviam os bebês em cobertas, deixando os braços
junto do corpo, e os deitavam de costas, de modo que a cabeça
crescesse normalmente. Naquele dia, a niang tinha tantos
pães para assar, que o kang em que eu estava deitado
ficou quentíssimo. Provavelmente a ponto de sufocar, debatendo-me,
consegui soltar o braço direito, que encostou no kang
e sofreu uma séria queimadura.
Quando a niang ouviu meu choro, pensou que fosse fome. Como
os seios estavam vazios, ela não atendeu logo. Ao chegar
para verificar, encontrou toda a área de meu cotovelo direito
em bolhas, gravemente queimada. Ficou uma grande cicatriz, que sempre
toco em momentos difíceis. Ela se tornou minha ligação
com a niang e um modo de lembrar seu amor. Como não
queria que a niang fosse responsabilizada pelo acidente,
menti, dizendo que me cortara em um caco de vidro e o ferimento
tinha infeccionado.
– Nos dias de chuva, você sente coceira neste local?
– Não, nunca – respondi, encarando o médico com firmeza.
Eu rezava para não ser eliminado. Rezava pela niang.
Ela ficaria tão triste e se sentiria tão culpada,
se eu fosse eliminado por causa da cicatriz!... A niang não
precisava passar por mais um sofrimento.
Depois do exame, eu estava me vestindo quando ouvi o médico
conversando com um homem alto, professor da Academia de Dança
de Pequim. O professor se chamava Chen Lueng. Era exatamente o senhor
a quem a professora Song tinha me indicado.
– A cicatriz vai aumentar de tamanho à medida que ele crescer
– o médico dizia.
Meu coração se apertou. Minha única possibilidade
de sair do poço estava indo embora. Eu ia ser desclassificado.
Decidi jamais contar à niang que tinha sido por causa
da cicatriz. Aquilo fora um acidente. A niang era a melhor
mãe do mundo, com o coração cheio de amor.
Ninguém mancharia sua reputação.
Terminados os testes físicos, começamos a ser testados
em outras habilidades: sensibilidade musical e compreensão
da ideologia de Mao. Eles também investigaram nossa história
familiar até três gerações anteriores.
A teoria comunista de Mao acerca das chamadas "três classes
de pessoas" era decisiva para a seleção. Todas
as três classes deviam estar representadas – camponeses, proletários
e soldados. As crianças cujas famílias até
a terceira geração anterior tivessem qualquer ligação
com saúde ou educação eram consideradas inimigas
da classe e sumariamente dispensadas. Como madame Mao queria que
fôssemos treinados para ser guardas fiéis, precisávamos
ter uma bagagem pura, segura e confiável.
A barreira final para que eu fosse aprovado no processo de seleção
foi o encontro dos profissionais com minha família. Eles
queriam conhecer todos – pais, irmãos e avós – para
verificar suas proporções físicas. Eu estava
preocupado que criassem algum problema pelo fato de a niang ser
muito baixinha, mas a personalidade marcante dela e a boa figura
do dia, meu pai, salvaram a situação.
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