1 Beduínos no deserto
Meca, 619
6 anos
Foi o meu último dia de liberdade. Mas teve início
mais ou menos 1.001 dias antes disso: um raio de sol e o meu grito
de alarme, atrasada de novo, o salto de minha cama, a fuga
pelos cômodos sem janelas da casa do meu pai, minha espada
de madeira na mão, meus pés descalços batendo
no piso frio de pedras, estou atrasada estou atrasada
estou atrasada.
Lampiões tremeluziam sua luz fraca nas paredes, uma pobre
substituta do sol que eu amava. Quando passei pela cozinha, o
cheiro forte e fermentado de mingau de cevada me enjoou. Mais
rápido, mais rápido. O Profeta vai chegar logo.
Se ele me vir, vai querer brincar, e sentirei falta de Safwan.
Mas eu devia saber que minha mãe me encontraria. Ela era
mais vigilante que o demônio.
Aonde pensa que está indo? gritou ela quando, no meio
do caminho, dei de encontro com a parede sólida formada
por seu corpo com as mãos nos quadris.
Eu ia recuar, recuperar o fôlego e contorná-la,
mas ela me agarrou com mãos fortalecidas por anos fazendo
pão. Seus dedos seguraram meus ombros como garras de um
falcão. Ela correu os olhos como mãos rudes sobre
meu cabelo emaranhado pelo sono, minha camisola cor de areia marcada
como um mapa da brincadeira do dia anterior: borrões arredondados
onde eu havia me ajoelhado na terra, escondendo-me de inimigos
beduínos. Um rasgão na manga causado na luta contra
meus captores, Safwan e nossa amiga Nadida. Manchas vermelhas
do suco de romã da refeição da véspera.
Riscos de poeira da pedra imensa que Safwan e eu tínhamos
rolado, silenciosamente, para debaixo da janela do nosso vizinho
Hamal, o mais novo recém-casado de Meca.
Você está imunda disse minha mãe. Não
vai sair de casa desse jeito.
Por favor, ummi, estou atrasada! repliquei, mas ela
chamou minha irmã.
Nenhum filho meu vai a lugar algum parecendo um animal selvagem
disse ela. Vá vestir uma roupa limpa e se encontrar
com Asma no pátio. Ela vai domar esses seus cabelos desordenados
enquanto busco água para lavar o cabelo da rainha de Sabá.
Ela estava se referindo à sua irmã de harém,
Qutailah. Hatun de meu pai, a "Grande Dama",
ou primeira esposa, Qutailah distribuía todas as tarefas
no harém. Alta, pele morena, e cada vez mais gorda,
ela invejava a pele clara e as mechas ruivas e revoltas de minha
mãe, além de temer seu gênio temperamental.
Desse modo, Qutailah estava sempre lhe lembrando quem era a primeira
na casa, chamando minha mãe de durra, ou "papagaio",
o nome para a segunda esposa. E designava à minha ummi
as tarefas que geralmente cabiam às criadas, tais como
puxar imensos alforjes de couro cheios de água do poço
de Meca. Era uma tarefa humilhante, pois o poço de Zamzam
fi cava no centro da cidade e todos podiam ver minha mãe
voltando para casa irritada, com os alforjes pendendo de uma vara
sustentada em seus ombros estreitos, respingando água.
Enfrentar esse trabalho sempre deixava minha mãe mal-humorada.
Não era a hora apropriada para discutir com ela.
Ouvir e obedecer eu disse, fazendo uma mesura, mas quando
ummi desapareceu, de volta ao escuro, escapei para a cozinha.
Nossa vizinha Raha, sentada em um canto na sombra, se abanava
com uma palma de tamareira. Ao me ver, sorriu, mostrando suas
covinhas, e tirou de sua sacola uma romã tão brilhante
e vermelha quanto suas bochechas.
Mas primeiro tem de me dar um beijo me provocou, quando
tentei pegar a fruta da sua mão. Sentei-me em seu colo
só por um instante, o tempo sufi ciente para pressionar
meu rosto no dela e sentir o cheiro de alfazema no cabelo trançado.
Ela esfregou a ponta do seu nariz na ponta do meu, me fazendo
rir e esquecer minha pressa, até Asma entrar. Parti a romã
ao meio, sem me importar com as sementes que caíam no chão,
fazendo um barulhinho como o de água, enquanto disparava
porta afora, escapando das mãos de minha irmã.
Yaa Aisha, aonde está indo? ouvi Asma chamar,
como se ela não soubesse a resposta. Ela e Qutailah, sua
mãe, estavam sempre me repreendendo por causa da minha
"obsessão" por Safwan. Ele só vai lhe
causar problemas. Brincar com seu futuro marido incita o mau-olhado.
Fugi, ignorando os gritos de minha irmã, agitando minha
espada de brinquedo, levantando a areia quente e macia ao passar
pela confusão de casas altas de pedras escuras, com terraços,
entradas em arcadas e telhados de palmas descoradas pelo sol;
casas amontoadas, que me observavam como velhos fofoqueiros com
falhas nos dentes. Para além delas, a caravana de Meca
avançava pela cordilheira, rochosa aqui e ali, sob o olho
implacável do sol.
Encontrei Safwan abraçado com Nadida dentro da tenda
de brinquedo dela, falando em sussurros.
Marhaba, pombinhos falei. O rosto comprido e fino
de Nadida enrubesceu. Comecei a rir, mas Safwan deu um pulo e
me puxou para dentro da tenda.
Silêncio! falou ele, irritado. Quer que nos ouçam?
Indicou com um movimento da cabeça a janela do recém-casado
Hamal e, debaixo dela, a pedra que tínhamos rolado para
lá na noite anterior.
Eles estão lá, agora disse Nadida. Você
tinha de vê-la. Tem a minha idade e se casou com aquele
bode velho. Tocou na pequena fi gura vermelha que pendia de
um cordão em seu pescoço. Que Hubal me proteja
do mesmo destino. Naquele tempo, seus pais ainda adoravam ídolos,
não o Deus de verdade, como eu e Safwan fazíamos.
Safwan pôs um dedo nos lábios e puxou uma de suas
orelhas grandes, escutando. Um grito agudo, penetrante, como o
lamento das carpideiras de Medina, me arrepiou. Em seguida, ouvimos
o resmungo de um homem, e sua risada tão áspera
quanto pele arranhada.
Por Alá, ele a está matando? perguntei.
Safwan e Nadida abafaram um risinho.
Ela provavelmente queria estar morta respondeu Nadida. Safwan
foi até a entrada da tenda e fez sinal para que eu o seguisse.
Agachados, fomos em silêncio até a grande rocha.
Safwan levantou o pé para subir nela, e um gemido alto
vindo lá de dentro me atordoou: esse Hamal era um gigante.
Se nos pegasse olhando, nos esmagaria com uma só mão.
Puxei a manga de Safwan, mas ele se soltou e espiou pela ponta
da janela, depois sorriu com malícia para mim.
Venha sussurrou ele. Não aja como um bebê.
Estendeu a mão para me ajudar a subir, mas subi depressa
como um lagarto, ignorando as batidas do meu coração,
que, tinha certeza, seriam ouvidas por Hamal. Quando meus olhos
se ajustaram à penumbra lá dentro, consegui ver
somente roupas espalhadas pelo chão, depois bandejas com
comida pela metade, pratos sujos e um narguilé caído
de lado. O cheiro de cevada, carne deteriorada e maçã
apodrecida misturavam-se ao odor úmido de suor.
Um gemido grave e regular atraiu meu olhar para a cama. Um fio
de suor escorria pelas costas largas e nuas de Hamal enquanto
ele erguia e depois baixava o corpo na cama, com força,
repetidamente. Olhei espantada para o seu traseiro coberto de
pelos, tão grande quanto a bexiga de um bode, enquanto
ele o tensionava e relaxava, a cada impulso. Por baixo o velho,
braços e pernas muito fi nos se projetavam como as patinhas
de um besouro debaixo de uma sandália, se debatendo e tentando
segurá-lo. Uma voz de menina parecia soluçar, e
seus calcanhares batiam nos quadris dele. Arfei e segurei o braço
de Safwan: ele a estava matando!
Mas ao olhar para Safwan, ele estava sorrindo largo, e quando
a voz de Hamal foi soando mais alta e seu corpo batendo mais rápido,
Safwan me fez abaixar. Sem sermos vistos por eles, ouvimos Hamal
gritar "Ai! Ai! Ai!", como uma hiena. Tapei minha boca
com a mão e olhei assustada para Safwan, mas ele estava
reprimindo o riso. Fingi rir também, sem querer que ele
percebesse o meu horror, enquanto a imagem do corpo da menina
espremido debaixo daquele animal peludo não saía
da minha cabeça.
Recostei-me na parede, tentando manter a respiração
regular e rezando para que Safwan não ouvisse meu estômago
se revirando. Um dia eu me casaria com ele e faríamos
isso? O seu sorriso era feroz, seus olhos pareciam debochar
de mim, como se estivesse pensando no mesmo. Mas, ao contrário
de mim, parecia gostar da ideia. É claro, ele seria aquele
que esmagava, enquanto eu seria a pobre menina embaixo, soluçando
e agitando meus braços e pernas.
Isto é o casamento, Aisha disse ele num sussurro,
e tive vontade de fugir. Pensei na minha mãe: não
era de admirar que quase sempre estivesse de cara feia.
E então, como se eu a tivesse invocado, ummi surgiu
virando a esquina, sua túnica escura esvoaçante
como asas de um corvo agitado.
O que está fazendo aqui? berrou ela. Gritos vindos
de dentro do quarto a fizeram olhar para cima, para a janela,
e ela deu um grito esganiçado, como se tivesse sido queimada.
Olhei para Safwan, mas o seu lugar na pedra estava vazio. Ele
tinha desaparecido como um djinni, me deixando enfrentar
sozinha os insultos furiosos de minha mãe. Não somente
eu a tinha desafi ado saindo de casa sem me lavar, como ela havia
me encontrado na janela do quarto de Hamal ibn Affan, com o atordoamento
e o medo tateando, como mãos, o meu rosto. Sorri para ela,
a imagem pura da inocência, imaginei. Seu rosto pareceu
se partir e se refazer, como pedaços de massa de pão.