LIVROS  

Trecho de A Artista de Xangai,
de Jennifer Cody Epstein

Montparnasse, 1957

QUANDO A SESSÃO TERMINA, Yuliang dirige-se à pia descascada no canto do ateliê. Uma das duas modelos vai embora de imediato. A outra, Leanne, fica um pouco mais, ajeitando a roupa íntima e reacomodando a cinta-liga no alto da coxa. Ao prender novamente as meias, inclina-se para observar o quadro de Yuliang e os frutos ainda úmidos do trabalho das últimas cinco horas: uma árvore, um lago. Ela ajoelhada ao lado de outra mulher nua.

Limpando as mãos salpicadas de tinta no avental, Yuliang observa Leanne observar a moça em que se transformou. Ela trabalhou direitinho hoje, pensa a pintora. As modelos novas costumam precisar de mais tempo para se despir e ficar nuas diante de estranhos. Mas Leanne a surpreendeu, pois tirou o vestido-túnica de orlom e a roupa íntima de forma despreocupada, como se tivesse se despido em público a vida inteira. Não se perturbou com a exposição do corpo; nem pediu desculpas ou tentou esconder a espinha na coxa esquerda. A cada pausa ao longo da sessão de cinco horas, porém, ela atravessava o ateliê e, ainda despudoradamente nua, checava em silêncio o progresso de Yuliang.

A pintora, que costuma continuar trabalhando durante o descanso das modelos, achou aquela atitude desconcertante. Não chegou a interromper o trabalho, mas prosseguiu de um jeito distinto do planejado, hesitando retocar o corpo pintado da moça sob seu olhar na vida real. Procurou dedicar-se a outros elementos — ao salgueiro, à manta amarrotada —, sentindo, o tempo todo, o aroma da observadora: uma mescla de perfume barato com cheiro de cigarro e um ligeiro suor agridoce. Além de um odor de limpeza e cravo, como o de

lençóis arejados. Leanne contou que o pai administra uma lavanderia, próximo à Gare de Lyon.

A água começa a sair veloz da torneira enferrujada. Yuliang aguarda, as pontas dos dedos ainda pressionando a bica gelada, coberta por restos de sabão.

Quando o líquido sai limpo, ela coloca os pincéis sob ele. As cores fluem, misturando-se a seus equivalentes neutralizantes: o azul-ultramar virou cádmio, que virou azul comum, que virou amarelo-ocre, e as cores vivas adquiriram um tom amarronzado ao escorrer no ralo.

Yuliang começou a lavar as mãos quando Leanne espirrou, uma pequena explosão, quase melodiosa de tão aguda.

Pardon — desculpa-se Leanne.

Non, non — diz Yuliang. — Lamento que esteja tão frio aqui. — Ela se dirige à modelo em francês, pois o chinês falado pela jovem é bastante limitado, pelo que pôde perceber.

—Talvez seja o gato. Às vezes faz meu nariz coçar. — A moça leva um lenço ao lábio superior.

—Ah. — Yuliang volta a se concentrar nos pincéis, visualiza o tecido do lenço por um momento: a brancura reluzente, com brilho produzido por ferro quente e goma. A família de Leanne, procedente de Guangxi, administrou um dos bancos chineses de Hanói até 1954. Afora isso, a jovem não revelou muito mais; Yuliang supõe que os comunistas se apoderaram do banco quando conquistaram o norte.

Será que Leanne tem saudades de lá?, pergunta-se a pintora. Pois ela própria sente muita falta da China — apesar de tudo. "Você tem vontade de voltar para sua terra?", indagou um jornalista em sua última exposição. "Naturellement, parfois", respondeu ela, embora, na verdade, tenha essa "vontade" o tempo todo. A questão é que sua "terra" lhe parece agora menos um lugar e mais uma parte integrante de si mesma, um órgão cancerosamente afetado pela saudade. A ferida diminui quando ela pinta. Mas a dor, em virtude de tudo o que perdeu, jamais se foi. Lugares e pessoas continuam a surgir num piscar de olhos, tão incrivelmente reais que ela pode tocá-los. O encanto parisiense de Fouzhou Road, com suas ruas ladeadas de olmos e mansões estilo Tudor. Um mercado em Xangai, o ambiente saturado de dialetos e o odor forte de carne chamuscada. Mulheres lavando alimentos e pratos às margens de um rio, cuidando de seus bebês rosados, que choram. A algazarra do comércio realizado no Yang Tsé, com suas infindáveis maldições criativas.

Yuliang cerra os olhos. Em instantes, ela volta à atracação do navio a vapor, Zanhua abraçando-a com força, desesperado, com a ridícula bengala golpeando seu ombro. Parecia tão claro para ela naquele momento — em 1937 — que a suposta Vida Nova pregada por Chiang Kai-shek já estava meio morta. Chaipei havia sido arruinada. Os soldados de Hirohito rodeavam Xangai como lobos circundam a caça antes de atacá-la de novo. Mas o verdadeiro perigo vinha dos próprios compatriotas de Yuliang, os Camisas-Azuis de Chiang Kai-shek e os criminosos da Gangue Verde — a própria paleta opressora do generalíssimo. Todos sabiam, àquela altura, que a pintora era um alvo — se não seu corpo, certamente seu trabalho. Ainda assim, Zanhua implorou-lhe que reconsiderasse.

"Você pode ficar", insistiu ele. "Não é tarde demais. A situação aqui está prestes a mudar. Posso sentir." Até mesmo agora — já se passaram mesmo vinte anos? — Yuliang ainda pode ouvir sua voz. E, por um instante, enche- se de dúvidas. Será que deveria ter ficado?

Não seja ridícula. Abrindo os olhos, ela descarta o sentimento de forma tão brusca quanto fecha a torneira. Seu trabalho é sua vida. É certo que está sozinha aqui. Mas conta com os quadros, os gatos. Os clientes e os admiradores. O pequeno círculo de amizades. Todos atestariam que tomou a decisão certa. Sua amiga Junbi fez um comentário nesse sentido outro dia, ao examinar seu autorretrato mais recente: "Tem algo novo neste aqui."

—Está se referindo ao fato de eu ter me retratado fumando, jogando e bebendo?

— A pintora nem mencionou a nudez. Evidentemente, não era novidade.

—Não é isso. — Junbi parou para pensar por alguns instantes, franzindo a sobrancelha delicada. — Ah! Já sei. Você está sorrindo. Na verdade, você parece feliz.

— Acha mesmo? — Porém, ao contemplar a si mesma, a face rubra, os contornos arredondados, a postura excepcionalmente relaxada, foi obrigada a admitir que o via também: parecia, por fim, uma mulher que apreciava apropria vida.

Seu devaneio é interrompido pelos toques dos sinos da Chapelle des Auxiliatrices. Olha para o relógio, em seguida levanta o olhar para Leanne, que ainda está apenas de meia, em pé, perto da mesa. Será que ela permaneceu ali durante todos aqueles 30 minutos?


Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados