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Trecho de 1000 Lugares Para Conhecer Antes de Morrer, de Patrícia Shultz

A história deste livro

É a necessidade ou um impulso natural o que faz com que uma pessoa bote o pé na estrada que sussurra em seus ouvidos que é hora de levantar âncora e buscar novos horizontes apenas para descobrir o que existe lá do outro lado?

A vontade de viajar de abrir nossa mente e ir além daquilo a que estamos habituados é tão velha quanto a própria humanidade. Era isso o que levava os romanos da Antiguidade a visitar a Acrópole em Atenas e o anfiteatro de Verona. Foi isso o que fez com que Marco Polo embarcasse na crucial jornada rumo ao Oriente e o que motivou Santo Agostinho a escrever: "O mundo é um livro, e os que não viajam acabam lendo só uma página." Não importa se estamos partindo para umas férias em Londres ou para um lugar extremamente exótico: viajar nos transforma às vezes de modo superficial, às vezes de maneira profunda. É como uma sala de aula sem paredes.

Não posso falar por ninguém, mas posso contar algo a respeito da minha própria mania de viajar. Há uma lenda familiar (jamais comprovada) de que temos um parentesco com Mark Twain, um dos principais escritores nort e - americanos e também um dos grandes viajantes do seu tempo. Então, como explicar a reação da minha mãe quando eu vivi minha primeira Grande Aventura?

Foi no fim dos anos 1950. Atlantic City me parecia tão estranha e distante quanto Shangri-lá só havia areia, o mar, os hotéis, a passarela feita de tábuas e o pressentimento de que existiam coisas mais grandiosas para além do estreito campo de visão oferecido pela toalha de praia da família. Escapuli na primeira oportunidade. Mas, depois do que me pareceram alguns poucos e preciosos minutos (na verdade, passaram-se várias horas) de incríveis descobertas, fui agarrada pela minha mãe furiosa e por vários salva-vidas, visivelmente aliviados, que me levaram de volta ao ninho. Essa é minha lembrança mais antiga: escutei o canto da sereia me chamando para o que estava mais adiante e respondi a ele. Havia sido fisgada. Eu tinha quatro anos.

Saltemos alguns anos para minha festa de formatura. Enquanto alguns colegas de faculdade seguiram direto dali para estágios em Wall Street , tomaram parte em programas internacionais promovidos por bancos ou assumiram compromissos ligados a negócios de família, eu corri para a fila do aeroporto, pronta para embarcar na minha própria grande viagem em meio às maravilhas da Itália e dos países vizinhos. Seria possível fazer da dolce vita um meio de vida? Fiquei espantada quando meus primeiros artigos foram publicados, mas compreendi: sim, isso era possível. Muitos guias e artigos mais tarde, um dia me vi cara a cara com o editor Peter Workman e seu braço-direito, a saudosa Sally Kovalchick, que me falaram do seu desejo de concentrar num único volume o que havia de mais fascinante e interessante neste mundo e também de sua convicção de que eu estava à altura da missão. Eu acabara de subir a bordo.

Mas, quando chegou a hora de realmente pôr a idéia em prática escolher tanto as opções familiares quanto as pouco conhecidas no manancial inesgotável que o planeta oferece , percebi que tinha pela frente uma batalha, às voltas com questões de filosofia e metodologia e com todas as perguntas que qualquer pessoa que folheie este livro certamente fará. Como cheguei a essa relação em particular de lugares e eventos? Quais foram meus critérios? Como explicar a enorme amplitude das indicações, que incluem desde atrações em países distantes cujos charme e mistério são inegáveis até outras mais conhecidas e aparentemente banais? A inclusão do Taj Mahal e da Capela Sistina fazem sentido, porém por que dar a alguns pequenos restaurantes do Caribe quase o mesmo peso do lendário Taillevent? Estou de fato querendo dizer que uma pousada simples na região vinícola da Toscana é tão importante quanto o célebre Oriental Hotel de Bangcoc, que tinha Somerset Maugham e James Michener entre seus habitués? O clima de mistério de um canto distante do mundo como Timbuktu pode competir com a mágica de Tikal? O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, teve mais sorte quando perguntou ao geógrafo "Que lugar você me aconselha a visitar agora?" e aquele lhe respondeu "O planeta Terra. Falam bem dele".

No fim das contas, o denominador comum que escolhi era simples: cada lugar deveria transmitir ao visitante e, espero, também ao leitor algo da magia, da integridade, da beleza e do passado do planeta. Esse foi o critério que procurei seguir em todos os continentes, da atração mais conhecida e previsível até aquela pequena e discreta; de destinos que têm algo de espiritual, como Bagan, em Mianmar, até outros mais voltados para o aspecto material, como as ruas de compras de Hanói; de belezas naturais, como o Grand Canyon, até aquelas feitas pela mão do homem, como Petra, a fascinante "cidade perdida" na Jordânia.

Todos esses são lugares que proporcionam experiências inesquecíveis. Para elaborar minha lista, baseei-me nas décadas de viagens que, de modo compulsivo, se seguiram à revelação que tive nas areias de Atlantic City. Eu me debrucei sobre centenas de livros de viagens e revistas sofisticadas e também contatei dezenas de escritórios de turismo e agências de relações públicas que são de uma fidelidade inabalável aos seus clientes. Então fui à luta para, de modo independente, apresentar minha própria visão desses destinos. Infernizei a paciência dos meus colegas de profissão e de amigos que gostam de viajar e submeti a interrogatórios qualquer um que fosse visto saltando de um ônibus, trem ou avião exibindo um sorriso no rosto. Num sem-número de jantares e festas, ouvi histórias enquanto estranhos rabiscavam em guardanapos os nomes de lugares que, segundo eles, seriam mágicos. Alguns deles também me obrigavam a jurar segredo antes de sussurrarem no meu ouvido o nome de suas atrações preferidas.

Nos sete anos de que precisei para apurar os dados e escrever esta obra, mais de uma vez fui obrigada a não me esquecer de que viajar é sempre algo pessoal e de que duas pessoas jamais saem da mesma experiência levando as mesmas memórias. No balanço final, o que fica claro é o fato inegável de que cada um dos lugares apresentados aqui é ou foi capaz de verdadeiramente servir de inspiração no passado e na época moderna, às vezes em ambos tanto para o simples turista curioso quanto para poetas, aventureiros, pintores, peregrinos, estudiosos e escritores de guias de viagens. " Viajar", escreveu meu possível antepassado Mark Twain no livro The Innocents Abroad (Os inocentes no exterior), "é fatal para preconceitos, para o fanatismo e para as mentes estreitas." As viagens desfazem muitas das nossas más impressões, confirmam as positivas e prometem numerosas surpresas. Abrem nossos olhos para lugares exóticos, como Zanzibar, Katmandu, Machu Picchu e Lalibela nomes com os quais nos familiarizamos através de filmes, livros e histórias, mas cuja realidade só pode ser plenamente compreendida ao vivo. Conhecer pessoalmente esses locais é compreender por que os mais consagrados clichês em termos de experiências de viagens como andar de gôndola em Veneza, ir a um banho turco em Istambul ou presenciar a contagem do Ano-Novo na Times Square são eternamente populares.

Viajar torna nossa mente mais curiosa, nosso coração mais forte e nosso espírito mais alegre. E, uma vez que nossa mente tenha se expandido dessa maneira, jamais poderá voltar ao seu tamanho original.

O mundo é hoje um lugar menor do que costumava ser há apenas 20 anos, e, mesmo que o conceito romântico de Última Thule que o dicionário Webs - ter define como "qualquer região remota e desconhecida" ainda possa ser encontrado nas paisagens exóticas da Namíbia, no Butão, em pleno Himalaia, e nos imemoriais jogos eqüestres de Ulan Bator, na Mongólia, a verdade é que esses lugares ficam a poucos dias de viagem, graças à monumental estrutura do turismo internacional. O que esse fato acarreta para nosso sentido de aventura, para o impulso que nos leva a explorar aquilo que desconhecemos? Para mim, tudo é uma questão de ponto de vista: como o guia xerpa disse ao alpinista neozelandês Edmund Hillary nas encostas do monte Everest, algumas pessoas viajam para olhar, outras para ver. Motoristas compulsivos são capazes de acelerar pelas estradas sem registrar uma única coisa observada no caminho. Mas eu posso dar a volta no quarteirão onde moro, em Manhattan, e voltar para casa com uma caixa de leite e muitas histórias para contar. Enfim, o número de quilômetros que percorremos nada tem a ver com os verdadeiros prazeres proporcionados pela viagem; a beleza inerente ao mundo, assim como a sensação de descoberta que ela nos promete, está em toda parte à nossa volta.

Nestes tempos de incertezas globais, mesmo os mais intrépidos talvez sintam uma inclinação a se apegar mais ao seu lar e ao seu país ou a se contentar com as aventuras de poltrona, lendo sobre viagens alheias e até isso pode ser algo recompensador. Posso fechar os olhos e ouvir o som dos pássaros em Palenque e o drapejar das bandeiras cerimoniais do lado de fora de um mosteiro tibetano em Lhasa. Consigo sentir o aroma dos condimentos do mercado no bairro antigo de Fez e o do molho pesto nas ruelas de uma cidadezinha da Riviera italiana. Esse é o banquete de lembranças que carrego comigo aonde quer que eu vá, são as memórias que me sustentam até eu estar com uma nova passagem na mão minha próxima Grande Aventura. 1.000 lugares para conhecer antes de morrer é minha lista pessoal das melhores viagens do mundo. Ainda que esse número a princípio tenha me assustado, acabei descobrindo que na verdade as possibilidades poderiam chegar a 1.000 vezes 1.000... Talvez eu as reserve para outro livro ou para outra vida. Nem todos os destinos são adequados a todas as pessoas, mas aposto que qualquer leitor encontrará nestas páginas opções suficientes para se manter ocupado pelas próximas décadas. Eu, que em matéria de viagem nunca fui uma esnobe, confesso que jamais entendi o charme de certas atrações consideradas imperdíveis (embora tenha ficado feliz em incluí-las). Por exemplo, não vejo muita graça em jogar golfe nos badalados campos da Escócia nem em praticar bungee- jump na Nova Zelândia, porém essas atividades podem constar da sua programação. Sei que determinados leitores vão estranhar o fato de eu ter listado lugares pouco convencionais, como Calcutá e Madagascar, opções de viagem que exigem certo esforço e que devem ser evitadas por algumas pessoas. Para mim, no entanto, esses locais são profundamente comoventes, como janelas abertas sobre uma experiência humana, passeios capazes de nos fazer refletir.

O número de hotéis que listei também merece uma explicação. Como uma especialista de longa data nesses estabelecimentos, passei a perceber que minha opinião sobre as cidades tanto as grandes quanto as pequenas era bastante influenciada pelo lugar onde deixava minha mala e desfazia a bagagem. Dá para imaginar visitar Londres e não tomar chá no Ritz? Ou, em Cingapura, não provar o drinque Singapore Sling onde ele foi criado, no célebre Raffles Hotel? A visão da pousada para safáris no Singita, na periferia do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, não é tão inspiradora quanto a dos próprios animais selvagens? Existe algo mais incrível do que o Hotel de Gelo na Suécia, que se derrete a cada primavera?Há, no entanto, lembranças inesquecíveis que fui incapaz de reconstituir para inserir neste livro, como o sábado em que meu motorista em Casablanca me levou para almoçar na casa da sua mãe depois que lhe perguntei onde se comia o melhor cuscuz na cidade e a ocasião em que me transformei em convidada de honra durante os quatro dias da festa de casamento de um desconhecido no Cairo. Foi a partir de experiências como essas que acabei aprendendo que a carne de camelo não é nada má e que os acasos felizes podem suplantar as dicas do melhor guia de turismo.

Qualquer viagem está sujeita a provocar frustrações as expectativas são sempre grandes e tudo pode dar errado. Quanto a isso, aí vai uma sugestão para novatos e veteranos do ramo: mais importante do que encher a mala de dinheiro é levar na bagagem muita curiosidade e paciência. Dê a si mesmo o direito na verdade, estimule a possibilidade de enveredar por desvios inesperados e até de se perder. Não existem viagens ruins, só boas histórias para serem contadas na volta. Viaje sempre com um sorriso e lembre-se de que, quando está visitando outro país, é você que tem hábitos exóticos. Confiar na gentileza de estranhos não é ingenuidade aonde quer que você vá, sempre haverá pessoas boas. E, finalmente, quanto mais tempo você dedicar a entender os outros, mais compreenderá a si próprio. A viagem para o exterior reflete outra jornada: para o interior de nós mesmos o mais desconhecido, estranho e menos explorado de todos os territórios, a derradeira terra incognita. Como disse Mark Twain: "Daqui a 20 anos você tenderá a ficar mais decepcionado com as coisas que deixou de fazer do que com as coisas que fez. Portanto, lance fora as amarras. Navegue para longe do porto seguro. Deixe que o vento sopre suas velas. Explore. Sonhe. Descubra."


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