A Vida dos Insetos, de Victor Pelevin (tradução de Lia Wyler; Rocco; 184 páginas; 23 reais)

Embora os figurões da crítica local o olhem com desconfiança, procurando ignorá-lo quando não o atacam, o russo Victor Pelevin é extremamente popular entre os jovens de seu país. Seu último romance, Geração P, foi um grande best-seller no ano passado, com vendas de 200.000 exemplares. Pelevin é um dos poucos escritores russos que conseguem viver exclusivamente de seu trabalho. É também um personagem curioso, adepto do zen-budismo, das calças de couro e dos óculos escuros. Ao contrário, de outros romancistas de seu meio, obcecados pelo período anterior à queda do comunismo, ele não fala muito sobre o passado soviético. Prefere abordar os problemas do presente. A Vida dos Insetos é uma fábula política esquisita e divertida, cujos personagens são insetos e humanos ao mesmo tempo, que se metamorfoseiam no decorrer da história. Entre os personagens, há mosquitos contrabandistas de sangue, um besouro órfão e uma sedutora formiga rainha.

>> Trecho:

A sede do velho hotel de veraneio, meio encoberta por um maciço de velhos choupos e ciprestes, era uma estrutura cinzenta e oprimente que parecia ter voltado as costas ao mar por ordem de algum bruxo ensandecido de história de fadas. A fachada, com suas colunas, estrelas rachadas e feixes de trigo eternamente curvados ao vento, abria-se para um pequeno pátio onde os odores da cozinha, da lavanderia e do salão de beleza se misturavam; a parede maciça voltada para a praia tinha apenas duas ou três janelas. A poucos metros da colunata havia um mirro alto de concreto, para além do qual os raios do sol poente refulgiam nas chaminés da usina de energia local. As portas altas e majestosas ocultas nas sombras da sacada ciclópica achavam-se fechadas há tanto tempo que até mesmo a fresta entre suas folhas desaparecera sob várias camadas de tinta gretada, e o pátio vivia quase sempre vazio, exceto quando um raro caminhão entrava em marcha lenta para trazer leite e pão de Feodósia. Esta noite não havia sequer um caminhão no pátio, por isso não havia ninguém para reparar no indivíduo que se apoiava na balaustrada da sacada, à exceção talvez de um par de gaivotas que patrulhavam a praia, dois pontos brancos planando pelo céu. O estranho espiava para a direita, para a estação no cais com o cone do alto-falante alojado sob a aba do telhado. O mar estrondeava, mas, quando o vento soprava na direção do hotel, carregava fragmentos audíveis de um programa de rádio dirigido à praia deserta. "... não parecidos entre si, não talhados pelo mesmo molde... criou-nos todos diferentes; esta parte do grande esquema não é contada, ao contrário do que ocorre com os planos passageiros do homem, em muitos... O que o Senhor espera de nós, quando volta Seus olhos esperançosos em nossa direção? Seremos capazes de fazer bom uso de sua dádiva?... Porque Ele Mesmo não sabe o que esperar das almas que Ele enviou à..." Seguiram-se os acordes de um órgão de igreja. A melodia era majestosa, mas aqui e ali era interrompida por um absurdo uuumpá-uuumpá; em todo caso, não houve possibilidade de alguém se deixar envolver pela música, porque muito depressa ela foi substituída mais uma vez pela voz do anunciante.